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Cardeal Mario Grech. Foto © Rede Sinodal em Portugal
"Os batizados, uma vez que percebem o que quer dizer a sinodalidade, apresentam-se", diz Mario Grech. Foto © Rede Sinodal em Portugal

Cardeal Mario Grech

Depois do Sínodo, “há um movimento na Igreja, em toda a parte”

O cardeal Mario Grech, Secretário-Geral do Sínodo, faz um balanço muito positivo sobre a implementação das conclusões desta grande assembleia nas dioceses de todo o mundo, assegurando que existe atualmente um movimento vibrante e global na Igreja.

Em entrevista ao podcast “No coração da esperança”, Grech explica que, ao compreenderem o significado da sinodalidade, os batizados sentem-se agora mais motivados a participar na missão eclesial, o que demonstra que o processo tocou profundamente o povo de Deus.

O cardeal destaca ainda que este caminho não visa transformar a Igreja numa democracia, mas sim reforçar a escuta ativa do Espírito Santo, mantendo sempre o papel fundamental da hierarquia e a comunhão com o Papa.

A entrevista, que pode ser vista abaixo, é uma iniciativa da Rede Sinodal, promovida em parceria com o 7MARGENS, Diário do Minho, Voz Portucalense, Correio do Vouga, Correio de Coimbra, A Guarda, Rede Mundial de Oração do Papa, e Folha do Domingo, desta vez em colaboração especial com a Agência Ecclesia.

 

 

 

Podemos fazer um primeiro balanço da fase de implementação do Sínodo?

Muito positiva. Há um movimento na Igreja, em toda a parte. Não em todas as partes da mesma forma. Mas agradecemos ao Senhor que há muito, muito interesse. Estou a falar de uma participação de todos na Igreja: ou seja, todo o povo de Deus. E talvez seja uma indicação de que, refletindo sobre esta dimensão sinodal da Igreja, a Igreja tocou as cordas do seu povo, porque quer dizer que as pessoas, os batizados, uma vez que perceberam ou percebem o que quer dizer a sinodalidade, apresentam-se e querem participar na missão da Igreja.

 

As orientações para esta fase do Sínodo referem a importância da concretude das práticas. Quer sublinhar alguns exemplos particulares já em curso?

A concretude quer dizer que as realidades se distinguem. Há um rumo para a concretude na diocese do Porto, há um rumo para a concretude, numa outra diocese, também em Portugal, para não falar depois também de outros continentes, não é? Ou seja, nós estamos familiarizados com a concretude europeia, mas depois há o mundo asiático, há o mundo africano, há o mundo da Oceânia. Posso comunicar-vos que, precisamente para junho, antes do Consistório, convocámos os presidentes das estruturas continentais. Quer dizer, há a da Europa, a da Oceânia, há a da FBC para a Ásia, a SECAM para a África, encontrar-nos-emos juntos durante três dias precisamente para analisar em conjunto aquilo que está a acontecer. E, juntos, também faremos o programa e, diria, a ordem de trabalhos das assembleias sinodais que estão previstas para preparar a Assembleia Eclesial de 2028. Então, nós esperamos que estas assembleias ajudem toda a Igreja a dar-se conta das várias concretudes e aprendamos uns com os outros, aquilo a que chamamos a partilha dos dons. Posso dizer que sim, há várias experiências, não apenas nas dioceses e não apenas nas paróquias, mas também nas escolas, por exemplo; ou seja, também há estruturas ou institutos eclesiais que estão a procurar organizar-se, para não dizer converter-se, segundo este estilo sinodal.

 

Daquilo que vamos ouvindo, fica um pouco a ideia de que é mais importante conservar a unidade do que ativar a mudança na Igreja. O que está a ser feito para gerir estas prioridades e suas expectativas?

A unidade é um valor que deve ser conservado e também defendido. Obviamente, a unidade não quer dizer uniformidade, mas unidade na diversidade; porém, também este é um conceito que precisamos de tempo para digerir e também para compreender bem. Ou seja, porque não queremos que depois as diversidades ponham em risco a unidade, mas é uma tensão que faz parte da vida da Igreja. É verdade o que está a dizer, que há também pessoas, grupos, que ainda não compreenderam, mas isto é normal. Também nós dizemos sempre: por favor, encontremo-nos, tanto os que são a favor como os que são contra, encontremo-nos. Nós somos uma família, somos o santo povo de Deus, e não há o progressista e o conservador. Há, sim, ideias diversas, mas, na substância, estou convencido de que estamos todos de acordo. O importante é que nos encontremos e procuremos também aprender uns com os outros. Todos, todos podem contribuir para compreender melhor o que quer dizer a sinodalidade sem transgredir a doutrina da Igreja. Mas depois, infelizmente, há também algumas — não são muitas — que fazem uma propaganda um pouco negativa, que não é verdadeira. Ou seja, por vezes eu ouço propostas ou definições de sinodalidade que absolutamente não são o que a Igreja entende: que, com a sinodalidade, a Igreja está a encaminhar-se para a democracia. Não é verdade. Nós sempre dissemos que o ministério do bispo é fundamental. Não há Igreja sem bispo. Então, escutar todos, sim, mas depois há a hierarquia, há o bispo, o bispo em comunhão com os outros bispos, e todos juntos em comunhão com Pedro. Esta é a doutrina da Igreja, e certamente não é democracia. Mas, repito, procurar ouvir todos. E, quando dizemos ouvir todos, quer dizer que procuramos escutar a voz do Espírito e não estamos a ouvir opiniões nem projetos individuais. Por isso, pressupõe também uma espiritualidade, pressupõe também a escuta da Palavra de Deus. Assim, depois, juntos — porque todos recebemos o Espírito Santo — juntos com a ajuda de quem tem propriamente a responsabilidade, o bispo, na sua Igreja particular, e os bispos juntos, dão-nos a garantia de que o nosso discernimento é correto.

 

A sinodalidade é, antes de mais, a escuta da comunidade. Podemos dizer que a Igreja sinodal está menos centrada na figura do presbítero e mais centrada na comunidade?

O sujeito do processo sinodal é o santo povo de Deus, obviamente respeitando os carismas e os ministérios. Então, não está centrada num ou noutro, mas, no conjunto. Ou seja, o santo povo de Deus, como acabei de explicar, é ajudado, acompanhado. Esta é a nossa missão: acompanhar os batizados, porque tudo parte do batismo. Então, juntos, sim, procuramos discernir a vontade de Deus. Poucos falam disto, mas este é o objetivo de toda esta reflexão que estamos a fazer. Não quer dizer que antes não existisse, entendamo-nos, mas para nos ajudar. Por vezes, um pároco encontra-se sozinho. Um bispo, quando assume responsabilidades, encontra-se sozinho, precisa de apoio. Eu digo sempre: a sinodalidade — aquilo a que em inglês chamam empowerment — reforça a força do povo de Deus, porque se sentem participantes, têm algo a contribuir; reforça o presbítero, porque não está sozinho; e reforça também o bispo, que também não está sozinho, mas com uma finalidade precisa: procurar a vontade do Senhor.

 

As assembleias eclesiais permitem uma especial experiência de aprendizagem pastoral? E já agora, os relatórios dos grupos de estudo do Sínodo são já uma reflexão final sobre os vários temas ou convidam as comunidades a aprofundá-los?

A América Latina tem sempre mais velocidade, não é? Eles sabem o que quer dizer uma assembleia eclesial, por exemplo. Também o processo de escuta foi iniciado talvez antes até da reflexão sinodal. E não esqueçamos que o Papa Francisco vinha precisamente dessa experiência, a experiência de Aparecida. Portanto, sim, também nesta fase, a fase de implementação, se formos ver, o CELAM está a produzir subsídios que eu não vi noutros lugares. Ainda que deva dizer que, recentemente, encontrei a Conferência Episcopal do Vietname, e também eles, no Vietname, produziram subsídios que deixam de boca aberta. Claro que nós esperamos que também a experiência destes grupos não apenas produza relatórios, que depois são submetidos ao Santo Padre — que, em última instância, é quem toma as decisões —, mas que nos ajudem e nos ajudem a aprender como trabalhamos juntos, sinodalmente.

 

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