“Depressa passas de bestial a besta.” A expressão tem origem na nossa cultura popular. É muito comum ouvi-la em contexto desportivo e governativo, mas também em âmbito laboral.
Otto Glória, selecionador de Portugal no Mundial de 1966, utilizou a frase para se referir à inconstância da crítica desportiva e da opinião pública. Dizia ele: “Naquele país [Portugal], quando se perde, o treinador é chamado de ‘besta’, quando vence é ‘bestial'”.
Nicolau Maquiavel, escritor e diplomata, considerado o “pai” da ciência política, no seu livro O Príncipe (1532) utilizou uma expressão semelhante, referindo que a sociedade julga mais pela aparência do que pela essência, pois todos veem a imagem pública, mas poucos conhecem a realidade interior.
Curiosamente, “bestial” e “besta” têm a mesma raiz latina: bestia. Enquanto a “besta” define o erro ou um comportamento grosseiro, “bestial”, devido a uma inversão semântica, passou a ser sinónimo de genialidade na gíria portuguesa.
Na era dos ecrãs e da comunicação imediata, construímos expectativas irrealistas, esperando infalibilidade de quem está sob o holofote. Chega a ser irónica a facilidade com que se eleva alguém a um estatuto quase divino para em seguida lhe ser exigido um comportamento humanamente irrepreensível. Ao perpetuarmos este dito popular, estamos a esquecer o essencial: quem hoje é considerado “bestial” continua a ser humano, com falhas, limitações e dias maus.
Os relatos bíblicos do Domingo de Ramos revelam talvez o melhor exemplo da volatilidade: a multidão que acolheu Jesus Cristo em clima de festa e aclamação contrasta com a que, uns dias depois, exigiu com a mesma intensidade a sua condenação e morte. Esta mudança radical põe a nu a facilidade com que o aplauso se pode transformar em rejeição.
As falhas ou as más atitudes não deveriam ter o poder absoluto de apagar um percurso feito de mérito, talento e dedicação. Um comportamento errado num momento específico não anula o valor acumulado nem transforma uma pessoa em alguém incapaz. É necessário promover uma verdadeira humanização da queda, separando os atos isolados da totalidade da pessoa, desconstruindo assim a cultura do cancelamento e os julgamentos impiedosos.
Ao desconstruirmos este lugar-comum confrontamo-nos com uma verdade desconfortável sobre a nossa própria conduta:
- Exigimos aos nossos heróis uma perfeição inumana, mas, quando eles revelam a sua fragilidade, punimo-los porque não correspondem à ilusão que nós próprios criámos.
- Revelamo-nos extraordinariamente cruéis com aqueles que foram capazes de nos fazer felizes. Anos de alegrias, vitórias ou serviço prestado são apagados num segundo, como se a gratidão tivesse prazo de validade.
- Somos profundamente injustos ao julgar a totalidade de uma vida pelos seus momentos menos felizes. Reumanizar quem admiramos implica aceitar que o erro faz parte da caminhada e que a memória histórica deve prevalecer sobre o linchamento público.
Desmontar o cliché é resgatar a maturidade e a empatia: reconhecer que nem os aplausos fazem de alguém imortal, nem as falhas eliminam o valor intrínseco de quem já nos havia dado razões para sorrir.
Todos os dias nos cruzamos com frases feitas e dogmas do senso comum. Funcionam como atalhos mentais confortáveis, mas raramente resistem a quem se atreve a questionar. É aqui que nasce o Lugar (in)comum.
Esta rubrica surge para desarmar os automatismos da linguagem e dar espaço ao espírito crítico. Queremos desmontar as certezas absolutas que bloqueiam o debate de ideias, substituindo a reflexão por muletas intelectuais que encerram as conversas antes do tempo.
Porque as palavras que repetimos moldam a forma como pensamos. E levar estes clichés demasiado a sério não é sabedoria — é uma preguiça mental que nos afasta do essencial.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Equipa de Comunicação e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.
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