Desassossego, purificação, redenção: “O fim do mundo” vence Prémio Árvore da Vida no IndieLisboa

| 6 Set 20

Filme "O Fim do Mundo", de Basil da Cunha

Imagem do filme “O Fim do Mundo”, de Basil da Cunha.

 

O filme O Fim do Mundo, realizado pelo luso-suíço Basil da Cunha, conquistou o Prémio Árvore da Vida, atribuído pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, da Igreja Católica, e venceu também a Competição Nacional, na 17ª edição do IndieLisboa – Festival Internacional de Cinema, que terminou sábado, 5 de Setembro.

A obra de Basil da Cunha é “profundamente humanista, um percurso reflexivo em torno do sentido e do valor da vida, em tempos onde crescem tiques de desprezo e exclusão dos mais frágeis”, sublinha o júri do Prémio Árvore da Vida, na declaração que justifica a escolha.

“O cuidado estético das imagens, a sua montagem irrepreensível, o excepcional desempenho dos actores verdadeiramente poético, criam uma narrativa de tal forma envolvente, que permite acompanhar percursos de pessoas e comunidades, nas suas contradições e aspirações interiores, cujo destino evidencia um desejo de crescimento espiritual”, refere o texto.

O Fim do Mundo apresenta-se como uma janela onde nos debruçamos e donde questionamos a finalidade do que chamamos mundo”, escreve o padre António Pedro Monteiro, um dos membros do júri, num texto publicado (e que pode ser lido na íntegra) na página do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

“Essa dúvida foi – a meus olhos – o ponto agregador das cinco longas-metragens e das 17 curtas que constituíram a Competição Nacional do festival IndieLisboa. A forma tão cuidada como se homenagearam pessoas e trabalhos, a forma tão poética como se expressaram inquietações e desejos comuns a todos os que se sabem incompletos, foi, em forma de galeria de arte, uma coleção de tratados sobre a inquietação humana.”

Concluída em 2019, a ficção O Fim do Mundo, com 107 minutos, marca o regresso de Basil da Cunha à Reboleira (Amadora), depois da sua primeira longa, Até Ver a Luz (2013), para contar uma “história de regressos, de fins, um retrato de uma juventude e de um espaço social”, refere a sinopse. “Spira, 18 anos, está de volta ao bairro após anos num centro de detenção juvenil. Os amigos continuam lá, assim como as festas ou os esquemas para ganhar a vida. As retroescavadoras destroem as casas do bairro, Iara entretanto tornou-se uma mulher e o tráfico é sonho e pesadelo.”

Para Mafalda Melo, da direcção do festival, a narrativa d’O Fim do Mundo “vive do desempenho dos actores não-profissionais, que dão volume à elegia que Basil da Cunha parece querer fazer a um espaço e tempo que (não tão) lentamente desaparecem do mapa urbano”. Trata-se de “ficção impura que obriga a pensar na realidade dos não-lugares que povoam as cidades, vítimas das políticas que adoecem a sua poesia e os transformam nesta noite escura”, escreve.

Interpretada por Michael Spencer, Marco Joel Fernandes, Alexandre da Costa Fonseca, Iara Cardoso e Luísa Martins dos Santos, a coprodução suíço-portuguesa tem argumento de Saadi e Basil da Cunha, que também assina, com Rui Xavier, a fotografia.

 

Basil da Cunha, que também venceu o prémio do IndieLisboa para a melhor longa-metragem portuguesa, nasceu no cantão francófono de Morges, Suíça, em 1985. O cineasta dirigiu já as curtas de ficção La Loi du Talion (26’, 2008), À cotê (25’, 2009), Nuvem (30’, 2011) e Os vivos também choram (31’, 2012). Depois de Até Ver a Luz, filmou o documentário Nuvem Negra (19’, 2014), e em 2017 iniciou a rodagem da longa-metragem agora premiada.

Seleccionado para mais de uma dezena de festivais, entre os quais Locarno, Milão, Busan, São Paulo e Viena, O Fim do Mundo conquistou o Prémio do Cinema Suíço 2020, assim como os galardões de melhor longa-metragem em Valladolid e Praia, e o de melhor fotografia no Les Arcs Film Festival.

Dez anos após a estreia no IndieLisboa, em 2010, tendo como jurados o então padre José Tolentino Mendonça, Inês Gil e Margarida Ataíde, o Prémio Árvore da Vida, no valor de dois mil euros, continua a distinguir um filme, e respectivo cineasta, tendo como critério de eleição os seus valores espirituais e humanistas, a par das qualidades cinematográficas.

O júri foi, este ano, composto por Inês Gil, cineasta e professora de Cinema na Universidade Lusófona, Helena Valentim, docente do Departamento de Linguística da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, e padre António Pedro Monteiro, secretário provincial dos Dehonianos e capelão hospitalar. Estiveram em apreciação cinco longas-metragens e 17 curtas.

 

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