Na manhã do passado dia 12, Eugénio Fonseca, ex-presidente da Cáritas Portuguesa e que agora desempenhava o cargo de presidente da Confederação Portuguesa do Voluntariado, morreu na Praia da Figueirinha, na Arrábida, na sequência de paragem cardiorrespiratória. Há precisamente um ano, Eugénio Fonseca escrevia sobre esse lugar que lhe era tão querido e explicava as razões. Pouco antes do incidente fatal, manifestara a quem estava com ele o seu contentamento por estar no lugar que tanto apreciava. Por essa razão, reeditamos a seguir o texto publicado há um ano.
Eu e a minha mulher nascemos e crescemos em famílias que ganharam o pão de cada dia na pesca. Nascemos e fomos criados num ambiente com odor a maresia e o sal nas veias. Por isso, o lugar de descanso preferido é em sítios onde possamos continuar a respirar a maresia e a sentir no corpo o sal que uns mergulhos na praia nos proporcionam. Nadar num oceano que se espraia até quase beijar uma parte da Serra da Arrábida é ter uma sensação de infinito. Nadar é uma libertação. O tempo na praia, que chega a ser de oito horas por dia, é uma oportunidade para o meu enriquecimento cultural. Leio alguns dos livros que aguardavam por tempo disponível para conhecer o seu conteúdo. Evito livros de estudo para favorecer o descanso.
Durante vários anos, não foi assim. Procurava sair de Setúbal, julgando que a mudança de lugar favorecia o repouso. Durante algum tempo fiz férias em praias algarvias. Foram tempos agradáveis. Por razões familiares, passei a descansar na minha casa, com idas frequentes à praia. O concelho de Setúbal tem uma oferta muito atraente de praias.
Antes de referir a minha escolha, quero, com a ajuda da caraterização, feita por especialistas, apresentar as ofertas que o concelho de Setúbal tem para quem queira optar por praias sadinas. Realço que me refiro apenas ao concelho sadino, porque na orla marítima do Distrito a oferta é mais diversificada.

Praia da Figueirinha: “As águas do mar são muito límpidas, permitindo, por vezes, ver o fundo das águas.” Foto © Vagamundos.
Frequento uma das melhores praias de Setúbal que é a Figueirinha. Mas antes de falar da razão da escolha é bom que se saiba que há outras possibilidades também muito interessantes. Sobre cada uma delas um pequeno apontamento. A Praia de Galapinhos foi considerada uma das mais belas praias do mundo e a melhor praia da Europa em 2017. O acesso não é fácil, mas vale a pena o esforço para lá chegar. A Praia dos Coelhos é para quem prefere conjugar a praia com a natureza. É um pouco isolada. Ao contrário das outras praias não tem acesso rodoviário. Só percorrendo, a pé, um pequeno trilho da Arrábida. Não tem placas de indicação o que é uma pena, pois trata-se de um lugar paradisíaco. A Praia do Creiro é de acesso fácil e com infraestruturas que garantem boas comodidades aos veraneantes. O Portinho da Arrábida é uma das “7 Maravilhas de Portugal”. Uma das mais famosas de Setúbal. Situa-se num lugar bucólico, onde só pode passar um carro, de cada vez, pelo Forte de Santa Maria da Arrábida. A praia da Albarquel é a mais urbana das praias. Fica à saída da cidade e está junto ao Forte de Albarquel. Onde o Sado desagua no Atlântico.
Como referi, a praia onde aproveito o tempo de descanso é a Figueirinha. A mais conhecida de todas as que referi, pelo que é a mais concorrida. Tem todas as infraestruturas necessárias. Desde a vigilância na praia, restaurante e transporte público acessível. Para quem leva carro próprio tem de ir bastante cedo, a fim de garantir estacionamento. As águas do mar são muito límpidas, permitindo, por vezes, ver o fundo das águas. Aos toldos, prefiro levar o chapéu de sol próprio e uma cadeira de praia confortável. Estes dois apetrechos dão mais liberdade de movimentação e de me defender do sol nas horas em que é mais agressivo. A comida é frugal, de maneira a que se possa ir satisfazendo o estômago, pois a sensação de liberdade, de sermos donos do nosso tempo, de mergulharmos, com frequência, naquele mar, cujas águas nem sempre são cálidas, mas fazem-nos sentir, com o bracejar, que por muito que nademos nunca somos capazes atingir a outra margem. Porém, cada braçada torna-nos mais perto dela. É assim que eu vivo a minha feliz utopia: sei que não transformarei o mundo, mas que quando chegar à “Outra Margem” o deixei um pouco melhor.

“A praia onde aproveito o tempo de descanso é a Figueirinha. Foto: Eugénio Fonseca na Figueirinha. DR
Termino com uma frase de uma quadra de Xico da Cana, um poeta e músico popular de Setúbal, já falecido. «Onde é que existe um rio azul igual ao meu que, em certos dias tem a mesma cor do céu?…”
Eugénio Fonseca










