Descurar o corpo, danificar uma obra de Deus

| 3 Jul 2022

John Travolta (esq) e Nikki Blonsky, no filme Hairspray, de Adam Shankman: a pessoa “precisa de cuidar de si, não numa lógica narcísica ou auto-centrada de forma egoística, mas de ficar suficientemente saudável”.John Travolta (esq) e Nikki Blonsky, no filme Hairspray, de Adam Shankman: a pessoa “precisa de cuidar de si, não numa lógica narcísica ou auto-centrada de forma egoística, mas de ficar suficientemente saudável”.

 

Passou Junho, mês em que, em Lisboa, houve três feriados no espaço curto de duas semanas; creio poder afirmar que meia cidade e arredores “fugiu” dos grandes centros para descansar, revisitar ou explorar mais algum canto do mundo ainda desconhecido.

Fosse qual fosse a razão ou o destino, para além da interrupção do trabalho, houve também uma espécie de pausa artificializada na atenção à pandemia e às notícias da guerra.

No meu/nosso caso escolhemos paragens que nos eram estranhas, apenas teoricamente sabidas devido a curiosidade histórica, geográfica ou mesmo à cultura cinematográfica.

Na verdade, todas as opções são legítimas desde que as motivações sejam fundamentadas e que o que se faz com elas permita entre outras, prevenir o burnout (porque se interrompe o habitual e alucinante ritmo do trabalho de todos os dias) e trazer de volta, para a acção concreta, uma “alma nova”, que é como quem diz mais sabedoria, mais flexibilidade, mais perspetivas de presente e de futuro.

Este tempo foi, para nós, realmente especial pela diferença. Poucas foram as vezes em que contrastaram na mesma viagem, cidades superdesenvolvidas com aldeias verdadeiramente recônditas, com cerca de 2000 habitantes e que mudam apenas de côr e de ritmo à chegada dos visitantes.

Por outro lado, quando a beleza natural é, metro a metro, diferente e “esmagadora”, qualquer ser humano deveria render-se à evidência da sua pequenez e entender que a obra de Deus é, haja o que houver, absolutamente irrepetível.

Não quero, com isto, desvalorizar a obra do homem, genial, de boa vontade, já que algumas maravilhas da tecnologia permitem que, por exemplo uma pessoa num carro “perdida” em plena planície alentejana, consiga ter uma conversa urgente, com outra (eu) que estava num barco em pleno Alasca, uma das paragens exploradas e percorridas nestas semanas.

Comento, entretanto, algo que me impressionou muitíssimo e que, apesar de não trazer novidade, se torna avassalador, quando o confronto é repetitivo durante dias seguidos. Falo da obesidade; diria mesmo, em 80 a 90% dos casos, obesidade mórbida. Pessoas cujos corpos, em vez de veículos, são verdadeiros obstáculos; pessoas que têm tudo o que o dinheiro pode adquirir, menos uma relação saudável consigo mesmas, com a vida, com os seus corpos, com a comida, com os afetos…

Exibem, muitas vezes em idades bem jovens, incapacidades nas quais nem pensamos, a não ser que nos deparemos com elas – deixarem cair um objeto ao chão e não conseguirem apanhá-lo, terem de tentar três, quatro, cinco vezes para se levantarem de uma cadeira e, finalmente, terem de ser içadas, por alguém com muita força; não conseguirem dar mais do que poucos passos pelo seu pé e, consequentemente, terem de utilizar cadeiras de rodas elétricas, ainda que para pequenas deslocações; enfim… Isto parece uma pequena nota de reportagem e, claro, não falo de outras doenças em co-morbilidade como a hipertensão arterial ou problemas cardio-respiratórios graves. Falo de gente que existe a compensar-se em vez de procurar, determinantemente, uma ajuda especializada; gente que vive sem autoestima, um dos pilares essenciais para o nosso bem-estar, a par de outros como a memória e a motivação; gente que se cansa para descansar, para dormir, para acordar, para tomar banho, para se vestir, para fazer os gestos mais básicos da vida de todos nós.

E não, o homem não tem apenas que mudar no que diz respeito à paz que deve construir. O homem não tem apenas que participar triunfantemente na política ou na economia. O homem precisa de se recordar, sempre, que o seu eu, enquanto obra de Deus, tem de ser equilibrado para que a melhor versão de si possa colocar-se ao serviço das relações, dos trabalhos, da ação social, da Igreja e do mundo.

O homem precisa de cuidar de si, não numa lógica narcísica ou auto-centrada de forma egoística, mas de ficar suficientemente saudável e bem na sua pele, de modo que o seu pensar, o seu sentir e o seu agir se tornem de tal modo harmoniosos que redundem na sua boa obra, coisa que, afinal, está mesmo ao alcance de todos nós, desde que a façamos a partir do que identificamos ser o nosso ponto de partida; ou, como alguém disse, saibamos, cada um, evoluir a partir do patamar em que nos encontramos – nós e as nossas circunstâncias.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt.

 

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