Vivemos em sociedades em que o envelhecimento é olhado muitas vezes como um problema económico, tanto para os estados como para as famílias, de abandono e da quebra de laços que têm como consequência a destruição de redes de solidariedade e de suporte que foram apoio durante a vida ativa. Na verdade, o envelhecimento daqueles e daquelas que nos precederam põe à prova a nossa humanidade enquanto sociedade e enquanto indivíduos.
O 7MARGENS iniciou a publicação de depoimentos de idosos recolhidos por José Pires, psicólogo e sócio fundador da Cooperativa de Solidariedade Social “Os Amigos de Sempre”. Publicamos agora o terceiro depoimento do total de vinte e cinco. Pode ler aqui os depoimentos já publicados. De notar que tanto o nome das pessoas como as fotografias que os ilustram são da inteira responsabilidade do 7MARGENS.

“Por mim, desejo envelhecer sem pensar que estou a envelhecer, pois apesar da idade avançada ainda estou naquela fase em que não penso na velhice, embora tenha medo de que a velhice pense em mim, como afirma Mia Couto.” Foto trabalhada a partir de JD Mason / Unsplash
António, 77 anos
Como quero eu envelhecer?
Desde a antiguidade clássica até aos dias de hoje, e de vários ângulos (do biológico e do sociocultural até ao impacto económico), o tema da velhice ou a arte de envelhecer tem sido insistentemente tratado.
Por mim, desejo envelhecer sem pensar que estou a envelhecer, pois apesar da idade avançada ainda estou naquela fase em que não penso na velhice, embora tenha medo de que a velhice pense em mim, como afirma Mia Couto.
E porque é que não penso na velhice? Porque ainda me sinto com energia, capaz de ser útil, e de vários modos. Perante a velhice – esse espantalho que significa fim de ciclo e consequente perda de capacidades – fico segurando as rédeas, pois o que importa é a saúde física e mental. Sendo sobretudo a saúde mental, com a ocupação soberana do espírito, que permite afastar esse fantasma. Para tal sirvo-me de duas armas: exercício físico regular e alimentação equilibrada. Para além de estimular um sentido positivo da vida, sustentado na minha força de vontade e na prossecução de objectivos.
Hoje, os velhos, internados em lares, sofrem da síndrome da separação e do distanciamento da comunidade, quer familiar, quer de origem. Assim, será aos próprios lares, enquanto comunidades alternativas que deverá competir, como missão superior, sublimar essa falta pelo afecto e por níveis de sociabilidade (criação de novas amizades e participação nas ofertas promovidas pela instituição) que colmatem os de origem.
Como quero eu envelhecer? Aceitando tranquilamente como um processo natural e inevitável, sem angústia, sem melancolia nem amargura, sem pena nem saudade. O futuro será sempre uma incógnita, sabemo-lo bem! E o Lar, o meu horizonte possível e previsível.










