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Desencontros: amar e ser compreendido

| 20 Mar 2022

Depois da apresentação em Almargem do Bispo, no passado dia 14, o livro DesEncontro será apresentado em Santa Marta de Portuzelo (Viana do Castelo), nesta segunda-feira, 21, às 21h30, pelo padre jesuíta Paulo Duarte.

 

Capa do livro Desencontro, do Pe. Carlos Pinto. Foto © DR

Capa do livro Desencontro, do Pe. Carlos Pinto. Foto © DR

 

Quando o padre Carlos Pinto, pároco de São Pedro de Almargem do Bispo, me convidou para apresentar o seu livro e me disse o título – DesEncontro –, confesso que me lembrei de imediato de uma música do José Cid cuja letra diz: “Desencontro, quando se ama e não se é correspondido.” E o curioso é que esta definição ajuda a entrar neste livro, que nos fala de pessoas não amadas, mas que estão disponíveis para amar, de pessoas incompreendidas mas que anseiam por compreensão, pessoas que se encontram, que encontram o amor no seu encontro com Deus e com o seu Filho.

Por vezes, esquecemo-nos que Deus nos enviou o seu Filho não para se sentar à mesa dos ricos, mas para partilhar o pão com os que nada têm. Por vezes, esquecemo-nos de repetir esses seus gestos. No início deste mês, estive, em família, no Vaticano, e depois de termos vistos tesouros maravilhosos, a arquitectura e a estatuária fantástica, de viajarmos do Renascimento ao Neoclássico, fomos levados pelo padre Tony Neves, conselheiro geral dos espiritanos, e pelo cardeal José Tolentino de Mendonça até à Praça de São Pedro para vermos uma escultura que o Papa Francisco inaugurou em 2019.

Durante minutos, em silêncio, observámo-la. Dentro de um barco cabe toda a humanidade, do judeu ao africano, do europeu ao asiático. Homens, mulheres e crianças, de todas as idades, e até animais – faz questão de nos mostrar o nosso cardeal, um cachorrinho esculpido em bronze.

É enorme o contraste entre aquela praça e os seus edifícios imponentes que nos contam a história de uma Igreja rica e poderosa e aquela escultura, feita de bronze e argila, escura, onde a humanidade se amontoa num pequeno barco, à procura de um porto seguro.

Aquela escultura é uma verdadeira oração por um mundo melhor. É esta a Igreja de Cristo, a Igreja dos mais pobres, dos mais frágeis, dos mais vulneráveis, dos que mais precisam de ajuda. É esta a Igreja de Francisco que não vive no palácio; que não usa sapatos Prada; que abre as suas portas aos sem-abrigo para que tenham alguma dignidade; que desce a avenida até à representação russa para pedir a paz na Ucrânia; que no Ângelus é duro nas suas palavras (como Cristo foi tantas vezes) para exigir a paz no mundo. É esta a Igreja em que eu acredito.

Por vezes, esquecemo-nos que Deus nos enviou o Seu Filho para se encontrar com a viúva e não com os doutores do templo e o livro DesEncontro lembra-nos isso mesmo.

Esta obra, explica o seu autor, nasceu de uma actividade que começou em Almargem do Bispo, em 2018, com os jovens. Cada capítulo está bem estruturado para ser trabalhado em grupo – seja de jovens ou de adultos – porque além do texto bíblico a que se refere a actividade, há uma sugestão de “pedido de graça” e depois são abertas várias pistas para meditarmos.

Mas, precisamente por essa razão, este livro também é um livro de oração porque o que nos propõe são meditações que podemos fazer sozinhos ou podemos desafiar o resto da família e fazê-lo em conjunto. Por que não? E que melhor altura para o fazermos que esta, a da Quaresma!

Também as imagens pintadas pelo padre Christopher Sousa, pároco de Santa Marta de Portuzelo, são uma boa forma de entrar na oração.

 

Pinturas do Pe. Christopher Souza. Foto © DR

Pinturas do Pe. Christopher Souza retratam diferentes episódios bíblicos. Foto © DR

 

Com as suas propostas de meditação, o padre Carlos Pinto convida-nos a viajar e a calçarmos os sapatos (ou as sandálias) de cada uma destas personagens:

— com a Samaritana, confrontamo-nos com as nossas dúvidas, as nossas inseguranças na relação com Deus, mas também nas nossas relações com o mundo;

— com Zaqueu, confrontamo-nos com os nossos erros, com a possibilidade de reconversão. Pergunta o padre Carlos (p. 39): “O Senhor veio para desarrumar tudo aquilo que tens aparentemente certo! O que te falta para seres capaz de restituir a vida ao teu irmão?”;

— com as fraquezas de Pedro, descobrimos a nossa fragilidade e, ainda assim Jesus ama-nos;

— com a parábola do Bom Samaritano descobrimos aqueles a quem o Papa Francisco chama “os descartados da sociedade”. Provoca-nos o autor (p. 79): “Como reparas neles? Também eles descem, caminham, percorrem ruas, eles são o grito de Deus a dizer: estou aqui! Como é que esta dor humana dos mais débeis te convida a ter um olhar de proximidade?”

— com Maria Madalena descobrimos o significado da Páscoa, da ressurreição, da coragem do anuncio que Cristo está vivo entre nós – algo que não é fácil nem na adolescência, nem na idade adulta. Mas o padre Carlos dá-nos um incentivo (p. 99): “Alegra-te, anuncia o que tocas com a escuta e proclama aquilo que vês!“.

E os exemplos continuam. Temos o velho Zacarias; Moisés com quem somos convidados a reflectir sobre a nossa vocação; José, que aceitou Jesus como Seu filho, que nos ensina a “pensar com o coração” (p. 136); temos Maria, um exemplo de aceitação, de escuta, de entrega.

Neste livro, o convite final do padre Carlos Pinto é o de partirmos da nossa relação pessoal com Jesus – que construímos através da oração e também através da nossa prática, que construímos através da meditação, seja sozinhos ou em grupo –, e construirmos comunidade. Sermos Igreja. “O Senhor carece de ti, inteiro”, escreve o autor. E esta constatação é belíssima, é a aceitação da nossa humanidade. Não é um desencontro, mas o encontro com Jesus. É o amar e ser compreendido.

 

Bárbara Wong é jornalista; o texto corresponde à intervenção na sessão de apresentação do livro na passada segunda-feira, 14, em, Almargem do Bispo.

 

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