Existem três dificuldades ou equívocos religiosos sobre o carácter de Deus, e que revelam algum desconhecimento sobre Ele. Por isso convém reflectir no assunto.

Rembrandt, Abraão -pormenor de “Sacrifício de Isaac, 1635, Alte Pinakothek de Munique
Esses três equívocos sobre os quais nos vamos debruçar de seguida são muito comuns, infelizmente.
1º Equívoco: Deus requer sacrifícios aos homens para que eles sejam aceites
Abraão aprendeu no Monte Moriah que Deus não era como os outros deuses, que requeriam sacrifícios humanos e até de crianças, como Molok. Deus mostrou a Abraão que poupou o seu filho Isaque, mas que ele mesmo – Iavé – estaria disposto a sacrificar o seu próprio filho, Jesus.
Ainda hoje subsiste a ideia do sacrifício de outros seres humanos, seja através da prática da tortura ou da aplicação da pena de morte. E a própria fé cristã guarda páginas negras na sua história como o Tribunal do Santo Ofício e as guerras religiosas. Mas também o auto-sacrifício, na dimensão de sacrifícios físicos, peregrinações sacrificiais, sacrifícios financeiros e outros. O problema é que qualquer sacrifício pessoal efectuado com o fito de obter o favor divino retira valor ao sacrifício de Cristo, nosso Salvador, sacrifício esse que é perfeito, completo e eterno.
Deus não requer sacrifícios para sermos aceites. No evangelho de Mateus (9:10-13), Jesus cita o profeta Oseias (6:6): “Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos.”
O escritor da Carta aos Hebreus vai mais longe: “Que (Cristo) não necessitasse, como os sumo-sacerdotes, de oferecer cada dia sacrifícios, primeiramente por seus próprios pecados, e depois pelos do povo; porque isto fez ele, uma vez, oferecendo-se a si mesmo” (7:27).
Jesus destruiu a lógica religiosa dos sacrifícios ao se entregar a si mesmo em sacrifício voluntário. Ao fazê-lo mostrou que os sacrifícios religiosos não têm valor algum para Deus, e que os sacrifícios da lei de Moisés eram apenas um sinal de obediência, e um tipo profético do único sacrifício que podia fazer a diferença, o do Messias.
Os únicos sacrifícios de que o Novo Testamento fala são: a) sacrifícios de louvor: “Portanto, ofereçamos sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” (Hebreus 13:15); b) sacrifícios espirituais: “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” (1 Pedro 2:5); c) o culto racional (Romanos 12:1); d) ofertas de amor (Filipenses 4:18).
Nenhum destes implica sofrimento ou perda, ao contrário da lógica sacrificial da velha aliança.
Por isso, é necessário desfazer o equívoco de que Deus requer sacrifícios de qualquer tipo ao homem, para que este seja aceite por Ele.
2º Equívoco: Deus habita apenas em locais sagrados
Em Betel (Bêṯ-ʼEl; “casa de Deus”), Jacob aprendeu que Deus não se confinava a uma montanha sagrada ou a um chão santo, como outros deuses, mas habita onde Ele quer: “Na verdade o Senhor está neste lugar; e eu não o sabia. E temeu, e disse: Quão terrível é este lugar! Este não é outro lugar senão a casa de Deus; e esta é a porta dos céus” (Génesis 28:16,17).
Mais tarde construíram-se as grandes catedrais da Europa, lugares que procuravam ser dignos de receber a divindade, com vitrais e jogos de luz, sensação de majestade e acústica cuidada. Hoje sabemos que a “casa de Deus” somos nós, a Igreja, e que a “porta dos céus” é Jesus Cristo.
Na realidade Deus está em todas as geografias físicas (a sua Criação) e humanas (Isaías 40:22): “Ele (Deus) é o que está assentado sobre o círculo (ou globo) da terra, cujos moradores são para ele como gafanhotos; é ele o que estende os céus como cortina, e os desenrola como tenda, para neles habitar”. E em Actos 17:27,28 Paulo declara que Deus “não está longe de cada um de nós.”
Por isso, é preciso desfazer o equívoco de que Deus se encontra apenas em certas montanhas, templos, ou santuários, e não em todo o lugar.
3º Equívoco: Deus divide as pessoas em puras e impuras
Pedro aprendeu que Deus não divide as pessoas em puras e impuras, como ditava a sua religião de origem. Ninguém é impuro aos olhos de Deus. Todas as pessoas são importantes. Pedro estava em Jope e teve um “arrebatamento de sentidos” (Actos 10). Através dessa experiência o apóstolo aprendeu que os gentios não eram impuros aos olhos de Deus porque Ele não discrimina ninguém: “Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas. Mas que lhe é agradável aquele que, em qualquer nação, o teme e faz o que é justo” (Actos 10:34,35).
Por isso, é preciso desfazer o equívoco de que para Deus, uns são puros e outros impuros.
Há que desfazer estes três equívocos sobre Deus. A boa notícia é que somos salvos pela Graça, que Deus está à nossa mão, onde quer que nos encontremos, e para Ele não há puros e impuros, há apenas pecadores a quem ama e deseja salvar.
José Brissos-Lino é professor universitário, investigador, Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.










