Desfazendo três equívocos sobre Deus

| 23 Jun 2024

Existem três dificuldades ou equívocos religiosos sobre o carácter de Deus, e que revelam algum desconhecimento sobre Ele. Por isso convém reflectir no assunto.

Rembrandt, Abraão -pormenor de “Sacrifício de Isaac, 1635, Alte Pinakothek de Munique

 

Esses três equívocos sobre os quais nos vamos debruçar de seguida são muito comuns, infelizmente.

 

1º Equívoco: Deus requer sacrifícios aos homens para que eles sejam aceites

Abraão aprendeu no Monte Moriah que Deus não era como os outros deuses, que requeriam sacrifícios humanos e até de crianças, como Molok. Deus mostrou a Abraão que poupou o seu filho Isaque, mas que ele mesmo – Iavé – estaria disposto a sacrificar o seu próprio filho, Jesus.

Ainda hoje subsiste a ideia do sacrifício de outros seres humanos, seja através da prática da tortura ou da aplicação da pena de morte. E a própria fé cristã guarda páginas negras na sua história como o Tribunal do Santo Ofício e as guerras religiosas. Mas também o auto-sacrifício, na dimensão de sacrifícios físicos, peregrinações sacrificiais, sacrifícios financeiros e outros. O problema é que qualquer sacrifício pessoal efectuado com o fito de obter o favor divino retira valor ao sacrifício de Cristo, nosso Salvador, sacrifício esse que é perfeito, completo e eterno.

Deus não requer sacrifícios para sermos aceites. No evangelho de Mateus (9:10-13), Jesus cita o profeta Oseias (6:6): “Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos.”

O escritor da Carta aos Hebreus vai mais longe: “Que (Cristo) não necessitasse, como os sumo-sacerdotes, de oferecer cada dia sacrifícios, primeiramente por seus próprios pecados, e depois pelos do povo; porque isto fez ele, uma vez, oferecendo-se a si mesmo” (7:27).

Jesus destruiu a lógica religiosa dos sacrifícios ao se entregar a si mesmo em sacrifício voluntário. Ao fazê-lo mostrou que os sacrifícios religiosos não têm valor algum para Deus, e que os sacrifícios da lei de Moisés eram apenas um sinal de obediência, e um tipo profético do único sacrifício que podia fazer a diferença, o do Messias.

Os únicos sacrifícios de que o Novo Testamento fala são: a) sacrifícios de louvor: “Portanto, ofereçamos sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” (Hebreus 13:15); b) sacrifícios espirituais: “Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” (1 Pedro 2:5); c) o culto racional (Romanos 12:1); d) ofertas de amor (Filipenses 4:18).

Nenhum destes implica sofrimento ou perda, ao contrário da lógica sacrificial da velha aliança.

Por isso, é necessário desfazer o equívoco de que Deus requer sacrifícios de qualquer tipo ao homem, para que este seja aceite por Ele.

 

2º Equívoco: Deus habita apenas em locais sagrados

Em Betel (Bêṯ-ʼEl; “casa de Deus”), Jacob aprendeu que Deus não se confinava a uma montanha sagrada ou a um chão santo, como outros deuses, mas habita onde Ele quer: “Na verdade o Senhor está neste lugar; e eu não o sabia. E temeu, e disse: Quão terrível é este lugar! Este não é outro lugar senão a casa de Deus; e esta é a porta dos céus” (Génesis 28:16,17).  

Mais tarde construíram-se as grandes catedrais da Europa, lugares que procuravam ser dignos de receber a divindade, com vitrais e jogos de luz, sensação de majestade e acústica cuidada. Hoje sabemos que a “casa de Deus” somos nós, a Igreja, e que a “porta dos céus” é Jesus Cristo.

Na realidade Deus está em todas as geografias físicas (a sua Criação) e humanas (Isaías 40:22): “Ele (Deus) é o que está assentado sobre o círculo (ou globo) da terra, cujos moradores são para ele como gafanhotos; é ele o que estende os céus como cortina, e os desenrola como tenda, para neles habitar”. E em Actos 17:27,28 Paulo declara que Deus “não está longe de cada um de nós.”

Por isso, é preciso desfazer o equívoco de que Deus se encontra apenas em certas montanhas, templos, ou santuários, e não em todo o lugar.

 

3º Equívoco: Deus divide as pessoas em puras e impuras

Pedro aprendeu que Deus não divide as pessoas em puras e impuras, como ditava a sua religião de origem. Ninguém é impuro aos olhos de Deus. Todas as pessoas são importantes. Pedro estava em Jope e teve um “arrebatamento de sentidos” (Actos 10). Através dessa experiência o apóstolo aprendeu que os gentios não eram impuros aos olhos de Deus porque Ele não discrimina ninguém: “Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas. Mas que lhe é agradável aquele que, em qualquer nação, o teme e faz o que é justo” (Actos 10:34,35).

Por isso, é preciso desfazer o equívoco de que para Deus, uns são puros e outros impuros.

Há que desfazer estes três equívocos sobre Deus. A boa notícia é que somos salvos pela Graça, que Deus está à nossa mão, onde quer que nos encontremos, e para Ele não há puros e impuros, há apenas pecadores a quem ama e deseja salvar.

 

José Brissos-Lino é professor universitário, investigador, Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Onde estão as mulheres na música litúrgica católica?

Onde estão as mulheres na música litúrgica católica? novidade

Na música, um dos ministérios mais estruturantes da liturgia católica, este paradigma mantém-se, embora com nuances particulares: salvo algumas (felizmente, cada vez mais) exceções, o ministério do canto, domingo a domingo, é, em Portugal, sustentado maioritariamente por mulheres e a regência dos coros é, preferencialmente, entregue a homens

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This