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© AcnurBlaise Sanyila Uma jovem coleta água em um acampamento para deslocados na República Democrática do Congo
Uma jovem recolhe água num acampamento para deslocados na República Democrática do Congo. Foto © Acnur/Blaise Sanyila

Relatório da OXFAM 2026

Desigualdade económica está a corroer as democracias

| 22/01/2026

O mundo vive uma crise que se agrava cada vez mais, mas a crise não é para todos: os bilionários veem os seus lucros crescer vertiginosamente. Em 2025, a riqueza desses super-ricos, que se calcula serem mais de 3.000, aumentou três vezes mais rápido do que a taxa média anual dos cinco anos anteriores. Ao mesmo tempo, os 12 bilionários mais ricos do mundo têm mais riqueza do que a metade mais pobre da humanidade, ou seja, mais de quatro mil milhões de pessoas.

Estes dados constam da edição de 2026 do relatório da OXFAM International, intitulado Resistindo ao domínio dos ricos; protegendo a liberdade face ao poder dos bilionários, que acaba de ser publicado na semana em que decorre em Davos, na Suíça, o Fórum Económico Mundial. A OXFAM é uma confederação global de mais de 20 organizações não governamentais, que trabalham juntas em mais de 70 países para combater a desigualdade e a injustiça, em parceria com as comunidades.

O reverso dos ganhos da minoria dos mais ricos é que, desde 2020, a redução da pobreza, que se vinha a verificar até então, estagnou – em grande parte, com o aumento da pobreza em África. Olhando apenas para os dados relativos ao ano de 2022, quase metade da população mundial (48 por cento), ou seja 3,83 mil milhões de pessoas, vivia na pobreza.

Até ao início desta década, assinala o relatório, o facto de se assistir a uma redução da pobreza importava mais do que o crescimento da riqueza dos poucos do topo da pirâmide. Se tomarmos em consideração o problema do aumento incessante dos custos dos alimentos e a decorrente insegurança alimentar, o número de pessoas que começou a sentir esse problema de forma grave ou moderada cresceu à escala planetária 42,6 por cento entre 2015 e 2024. Atualmente, uma em cada quatro pessoas em todo o mundo enfrenta insegurança alimentar moderada ou grave.

Este problema afeta sobretudo mulheres e raparigas, comunidades racializadas, pessoas com deficiência e comunidades LGBTQI+, já que à pobreza se junta a exclusão, marginalização e redução das liberdades para protestar contra as suas dificuldades económicas.

A OXFAM chama a atenção para o facto de a desigualdade económica desempenhar “um papel importante na erosão dos direitos e das liberdades políticas”, criando “um terreno fértil para o aumento do autoritarismo”. O relatório refere estudos realizados em mais de duas dezenas de países, revelando que “o aumento da desigualdade é um dos indicadores mais fortes do início do colapso das democracias” e que o caminho a seguir para travar esse processo passa por políticas que visam melhorar a desigualdade.

Sublinhando o poder dos bilionários, o estudo da OXFAM recorda a tomada de posse de um deles, o presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, rodeado de vários desses magnatas e com alguns deles envolvidos no seu governo, a começar pelo maior deles todos, o seu financiador Elon Musk, braço direito, entretanto afastado.

Os super-ricos construíram o seu poder político de três maneiras principais: comprando/financiando os partidos e os políticos; investindo na legitimação do poder da elite; e através do acesso direto às instituições. Segundo a conclusão de um trabalho da Americans for Tax Fairness, citado pela OXFAM, em 2024, um em cada seis dólares gastos por todos os candidatos, partidos e comissões dos EUA provinha de doações de apenas 100 famílias bilionárias.

Finalmente, os bilionários dominam cada vez mais os meios de comunicação e a Inteligência Artificial. Mais de metade das maiores empresas de comunicação social do mundo têm proprietários bilionários e nove das dez maiores empresas de redes sociais do mundo são geridas por apenas seis bilionários. Acresce que oito das dez maiores empresas de Inteligência Artificial – que coincidem em parte com empresas de comunicação social – são geridas por bilionários, com apenas três a controlar quase 90 por cento do mercado de chatbots de IA generativa.

A parte final do relatório propõe várias linhas de ação face à situação apresentada. Delas destacamos duas:

– Prioridade que os países devem dar à redução da desigualdade económica, a qual, a par da enorme concentração de riqueza extrema e da pobreza persistente, é “o motor que está a corroer os direitos e as liberdades de muitos”. Para tal, recomenda-se a criação de Planos de Redução da Desigualdade, com metas, medidas, calendários e formas de avaliação bem definidas;

–  Limitação do poder político dos super-ricos, que passa por medidas que combatam a existência de riqueza extrema e que estabeleçam uma sólida barreira entre os ricos e a política. Isso poderá fazer-se através de taxação dos super-ricos, regulamentação do lobbying, dos financiamentos da política, medidas que assegurem a independência dos media, transparência de algoritmos, etc.).

 

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