Nos improváveis da vida, aqui estou a apresentar a última obra do Professor Manuel Sérgio, Desporto é Dizer Transcendência. Todos os que aqui estamos inserimo-nos numa vasta rede de amizades, de troca de saberes, de cruzamentos e transgressões epistemológicas que o professor Manuel Sérgio tem praticado e nos tem envolvido. Obrigado, professor Manuel Sérgio por aqui nos fazer convergir por mais um livro. Obrigado pela síntese biográfica de si mesmo e pelo seu contributo de refundar, em Portugal, uma epistemologia do desporto.
Um desporto novo num País novo

A estrutura do livro Desporto é Dizer Transcendência oferece-se ao leitor como um díptico, fazendo dialogar passado e presente, com a distância de 50 anos. A primeira parte, intitulada «Para uma renovação do desporto nacional», reedita uma publicação do final de 1974, uma coletânea de reflexões sobre o desporto que o Professor Manuel Sérgio publicara no jornal República. Estamos nos começos da nossa democracia. Manuel Sérgio propõe uma política democrática para o desporto, com traços de utopia socializante, radicada numa compreensão humanista. Numa aliança entre desporto e lazer, propõe uma democratização do desporto como «contemplação estética» e festa, para além da tradicional agressividade, conflitualidade e competição. A sua proposta de instituição do Ministério dos Lazeres e do Desporto ainda não teve concretização política… Na madrugado de um País novo, a utopia de um «desporto novo liberto não só de oportunistas, de incompetentes, de demagogos, mas também pensado, reformulado e adaptado à dinâmica social que se pretende criar» (p. 24).
A segunda parte do livro, «Três ensaios e uma homenagem», é o abrir do coração do Professor Manuel Sérgio, como homenagem aos amigos, celebração do saber e do conhecimento em rede, do desporto como prática, festa, jogo, prazer, sem esquecer a sua dimensão competitiva, mas sem a absolutizar. A escrita é a forma através da qual o autor se cumpre, convocando a memória e repartindo como pão aos leitores a sua experiência, a sua síntese pessoal, o seu sonho de futuro. A sua vida cumprida, agradecida, engrandecida e, pelo livro, partilhada, colocada em nossas mãos e diante dos nossos olhos de leitores.
No ensaio «Um desporto de qualidade», Manuel Sérgio começa por referir a ausência de um pensamento desportivo em Portugal (estámos em 2022…). E precisa um pouco mais à frente: «um pensamento desportivo, mesmo revolucionário como pensamento e portanto epistemológico, ontológico e axiológico, mal se descortina em Portugal» (p. 67). Em relação ao proposto 48 anos antes pelo Autor, os resultados ficam aquém do esperado: «Continua, sim, o exacerbamento de uma dogmática conservadora e populista, sem o real pluralismo de um pensamento verdadeiramente vivo» (pp. 67-68). Um certo desporto de alta competição, «hipercomercializado, doentiamente competitivo, alienado e alienante, corrupto e corruptor» apoderou-se dos «média», de tal modo que, frequentemente, a qualidade desportiva se confunde com os desempenhos dos atletas superdotados e supertreinados (p. 70). Também pode haver no desporto, como na religião, um «ópio», uma prática da alienação e da inconsciência: «O desporto de alto rendimento é, demasiadas vezes, o principal fator de adormecimento à recusa da sociedade injusta estabelecida» (p. 74)
O Homem é um mistério

‘«Suprema dificuldade: o Homem (e a Mulher) é um mistério! Mas com uma característica evidente, que o distingue, através das idades: é um ser aberto à transcendência!’ Foto © Steven Lelham / Unsplash
O ensaio «A Resposta (quase) Filosófica da Transcendência» é um texto denso que convoca vários registos numa epistemologia do desporto. Atrevo-me a dizer que estamos perante um ensaio-síntese do pensamento do Professor Manuel Sérgio, transgressivo de fronteiras epistemológicas, bebendo em diversas fontes de saber, resistindo a todas as tentações de dogmatismo. Entramos no cerne do questionamento antropológico do Professor Manuel Sérgio, aquele mesmo que se expressa na pergunta «Que é o Homem?» Em belas e existenciais palavras, escreve Manuel Sérgio: «Suprema dificuldade: o Homem (e a Mulher) é um mistério! Mas com uma característica evidente, que o distingue, através das idades: é um ser aberto à transcendência! Um carente, permanentemente carente, que precisa de transcendência (ou superação) para poder viver». E declina, quase até à exaustação, a abertura à transcendência, a partir da nossa entranha carência: «Transcendência de um cientismo sem mística e poesia e sonho e onde, no lugar de Deus, se adoram ídolos; transcendência de uma religião ajoujada de dogma e de fanáticos (nada é tão irracional como julgar-se que se te sempre razão) (…)» (p. 102). Em suma, «transcendência de um mundo sem Transcendência» (p. 103).
Foi com agrado que na abordagem e fundamentação do conceito de transcendência de Manuel Sérgio, em suas múltiplas semânticas, vejo incluída a categoria da «fragilidade». Entra também na sua reflexão o fracasso, dimensão tão problemática e dolorosa no desporto: «fracassar não é cair, fracassar é não levantar-se nunca» (p. 110). Sem esquecer o sofrimento dos atletas-campeões, as suas derrotas, as suas lesões, o stresse que os treinos colocam sobre o seu corpo que nunca deixa de ser carne vulnerável: «É preciso também saber escutar o sofrimento dos atletas-campeões que, de tão publicitadas e maiusculadas as suas qualidades físicas, os seus espantosos desempenhos, a estabilidade económica, até podem levar-nos a pensar que estão imunes à dor e ao sofrimento» (p. 119). O mesmo corpo que é aclamado no triunfo e na vitória, pode fracassar e lesionar-se.
Uma epistemologia aberta à Transcendência

“Não apenas para o desporto mas para todo o conhecimento: «A Filosofia (e a própria Teologia) é para a ciência a sua dimensão de transcendência.” Foto © Todd Trapani / Unsplash
Criando pontes com a reflexão teológica, acolhendo sem hesitação o conceito de transcendência numa explicita abertura à Transcendência, precisa Manuel Sérgio para que não haja equívocos: «Não sou teólogo, nem a minha ideia de transcendência se ocupa, unicamente, do divino e da sua relação humana com ele. A minha “transcendência” é laica, embora para mim, como já o fiz notar neste ensaio, o apelo que sinto, para transcender e transcender-me, seja também sinal de uma Presença – a presença do divino em mim. Pode invocar-se Pascal, neste momento: “Crer em Deus não é pensar Deus. Crer em Deus é sentir Deus» (p. 122). No final do livro, Manuel Sérgio apresenta-se da sua proposta de fundar uma epistemologia do desporto, a partir da antropologia filosófica (da fenomenologia), em diálogo com a teologia. Não apenas para o desporto mas para todo o conhecimento: «A Filosofia (e a própria Teologia) é para a ciência a sua dimensão de transcendência. E assim a Ciência da Motricidade Humana e a Filosofia de Motricidade Humana constituem duas partes do mesmo todo. Toda a consciência é consciência de algo» (p. 154). Este fecundo diálogo entre pessoas de diferentes áreas do saber, do Desporto, da Filosofia, da Teologia, tem sido praticado na Faculdade de Teologia/UCP, no âmbito da Cátedra Manuel Sérgio, transgredindo fronteiras epistemológicas, celebrando, com alegria e gozo, a partilha do saber, de experiências e de afetos. E que modo melhor de honrar a vida e a obra de Manuel Sérgio do que torná-las ponto de convergência, de partilha e de encontro?!
A presente obra é também uma celebração jubilatória de afetos, de relações, de amizades, de encontros, de tantas heranças recebidas. Leituras de filósofos, clássicos e contemporâneos: Descartes, Pascal, Kant, Rosseau, Merleau-Ponty, Ricoeur, Adorno, Popper…; de teólogos: o seu fiel Teilhard de Chardin, Leonardo Boff, Bento Domingues, o amigo cardeal Tolentino…; o encontro pessoal com atletas e desportistas: Pelé, Eusébio, Maradona, Ronaldo, Messi, Pedroto, José Mourinho, Jorge de Jesus… Mandela, Madre Teresa, Paulo VI, o Papa Francisco são também evocados. Intui-se uma vontade de não esquecer ninguém, de honrar, nomeado, cada encontro, cada contributo, cada pessoa. Na festa dos nomes, a festa da vida. Uma «comunhão de santos» (e pecadores) aqui é convocada, a comunhão agradecida das pessoas que marcaram a vida de Manuel Sérgio.
António Martins é docente da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa e investigador da Cátedra Manuel Sérgio na mesma Faculdade. Este texto corresponde à intervenção na sessão de apresentação do livro de Manuel Sérgio, Dizer Desporto é Dizer Transcendência, IDDJ/Afrontamento, Porto 2023, que decorreu no dia 18 de abril de 2024, na Faculdade de Motricidade Humana. Na mesma sessão foi também apresentado a II volume da Obra Seleta, de Manuel Sérgio, por Gonçalo M. Tavares.










