Desta vez, o Papa desiludiu?

| 23 Mai 2024

Papa Francisco em entrevista ao programa 60 Minutes, da CBS

O Papa Francisco na entrevista ao programa “60 Minutes”, da CBS, divulgada esta semana.

 

O programa é um dos mais vistos nos EUA. Chama-se “60 Minutes” (60 Minutos), mas a entrevista com o Papa foi mais longa do que isso. Francisco nunca tinha falado durante tanto tempo para uma cadeia televisiva norte-americana, e – como de resto é habitual nele – não se furtou a nenhuma pergunta. Ucrânia, Gaza, antissemitismo, migrações, crise climática, abusos na Igreja, bênção de casais homossexuais, reação dos conservadores a uma abordagem mais progressista da sua parte… a tudo foi respondendo ponderada e sabiamente, aqui e ali com o seu toque de bom humor.

Até que a jornalista da CBS Norah O’Donnell – que com indisfarçável orgulho partilhou ter crescido a ver a mãe como salmista e ministra da comunhão numa igreja católica – perguntou: “Para uma menina que cresce hoje como católica, algum dia terá a oportunidade de ser diácono e participar como membro do clero na Igreja?”. E a resposta do Papa foi: “Não!”.

Assim mesmo, com ponto de exclamação e parágrafo.

Um “não” perentório, rotundo, sem qualquer “mas” a seguir, pronto a passar para outro tema. Pode confirmar-se isso mesmo no vídeo disponibilizado pela CBS (partilhado no final deste texto), a partir do minuto 21.

Arrisco dizer que Norah O’Donnel ficou tão espantada como muitas outras pessoas (eu incluída) com aquele “não” seco. Mas rapidamente reagiu e insistiu: “Compreendo que disse ‘não’ às mulheres como padres, mas está a estudar a ideia de mulheres como diáconos”.

Diante da pressão de O’Donnel, o Papa explicou: “Se se trata de diáconos com ordens sagradas, não. Mas as mulheres sempre tiveram, eu diria, a função de diáconos sem serem diáconos, certo? As mulheres prestam um grande serviço como mulheres, não como ministras, como ministras neste sentido, dentro da ordem sagrada.”

Confuso? Então é disso que se trata?

Quando a jornalista da CBS confrontou o Papa, e bem, com o facto de este estar a “estudar a ideia de mulheres como diáconos”, referia-se certamente às duas comissões de estudo que, por sua iniciativa, foram criadas em 2016 e 2020 (e cujas conclusões nunca chegaram a ser divulgadas). Seguramente que se referia também a um dos dez grupos de estudo que ele determinou formar, já em fevereiro deste ano, para “analisar profundamente” alguns dos principais temas levantados na primeira sessão do Sínodo dos Bispos: um deles – imagine-se! – os ministérios (incluindo a reflexão sobre o lugar e a participação das mulheres na Igreja e o seu eventual acesso ao diaconato).

Quando se soube da criação destes novos grupos – os quais, embora tenham de entregar “um breve relatório” sobre o assunto em estudo a tempo da assembleia sinodal de outubro, só deverão concluir o seu trabalho em junho de 2025 – muitas vozes críticas se levantaram, alegando que Francisco estaria a retirar do Sínodo os temas mais sensíveis e suscetíveis de gerar polémica.

Mas muitos preferiram interpretar de outro modo: estes são, de facto, assuntos que requerem um estudo aprofundado; os grupos são constituídos por clérigos e leigos de todos os continentes, especialistas nos respetivos temas; destes grupos são esperadas respostas dentro de pouco mais de um ano. Portanto, esse seria já um fruto do Sínodo, que assim acabava por envolver ainda mais pessoas. E as possibilidades de mudança, essas, permaneciam em aberto.

Até porque, paralelamente, havia outros sinais dessa abertura: Francisco convidou para as últimas reuniões do Conselho dos Cardeais (C9) – que, como nome indica, é composto exclusivamente por homens – várias mulheres. O tema em análise era, precisamente, “o papel feminino na Igreja”. Uma das mulheres que Francisco fez questão de escutar – e que os seus conselheiros escutassem – foi Jo Bailey Wells, bispa da Igreja de Inglaterra e vice-secretária geral da Comunhão Anglicana, casada, com dois filhos, que durante a reunião explicou o processo seguido pela Igreja Anglicana para chegar à decisão de ordenar mulheres e quais as transformações que ocorreram e as consequências disso. A organizar estas reuniões, por convite direto de Francisco, esteve a freira e teóloga italiana Linda Pocher, que após o encontro com a participação da bispa britânica garantiu que Francisco estava “muito a favor do diaconado feminino”.

Jo Bailey Wells, bispa anglicana, Giuliva Di Berardino e Linda Pocher com o Papa Francisco, após a reunião do Conselho dos Cardeaism fevereiro de 2024. Foto Instituto Filhas de Maria Auxiliadora

Jo Bailey Wells, bispa anglicana, Giuliva Di Berardino e Linda Pocher com o Papa Francisco, após a reunião do Conselho dos Cardeais, em fevereiro de 2024. Foto © Instituto Filhas de Maria Auxiliadora

 

Como interpretar, então, o “não” rotundo de Francisco na entrevista divulgada esta semana? A resposta do Papa não parece contemplar qualquer tipo de abertura, independentemente de quais possam vir a ser as conclusões do grupo de estudo a apresentar no verão próximo ano – se é que desta vez serão divulgadas.

Mais do que deixar muitas pessoas confusas, o Papa provocou desilusão.

A Conferência de Ordenação de Mulheres reagiu, manifestando “deceção e incompreensão”. Também Phyllis Zagano, investigadora na Universidade de Hofstra, nos Estados Unidos, e uma das mais importantes especialistas mundiais no tema das mulheres diáconos, reagiu às declarações do Papa. Num depoimento enviado ao 7MARGENS, Zagano afirmou que “é lamentável que o Papa Francisco pareça negar a conhecida tradição de mulheres ordenadas diáconos no cristianismo”, e assinalou o facto de uma mulher ortodoxa ter sido ordenada diácono a 2 de maio no Zimbabué”.

Tendo consultado inúmeros registos históricos, Phyliis Zagano não tem dúvidas: no passado, “as mulheres eram ordenadas como diáconos pelos seus bispos dentro do santuário, durante a missa, na presença do clero, pela imposição das mãos em invocação do Espírito Santo; elas comungavam diretamente do cálice; o bispo colocava a estola em torno dos seus pescoços e, o que é importante, eram chamadas ‘diáconos'”. Mas, à medida que a prática da Igreja se desenvolveu e cresceu, “o diaconado foi essencialmente subsumido no sacerdócio. Por volta do século XII, virtualmente já ninguém era ordenado diácono a não ser que estivesse para ser ordenado padre”, explica. “Hoje, o meio comum de entrar no estado clerical é pela ordenação ao diaconado”.

Mas hoje, no mundo ocidental, o número de candidatos à ordenação é cada vez menor. E a média de idades dos padres cada vez mais elevada. E quem encontramos nas paróquias, a dar catequese? A ministrar a comunhão? A cuidar dos espaços? A cantar? A trabalhar na ação social? A resposta é, invariavelmente, a mesma: são, na sua maioria, mulheres.

Francisco é o primeiro a admitir que as mulheres continuam hoje, em muitos locais e circunstâncias, a ser “diáconos”. Uma palavra que vem do grego e que significa – espantemo-nos – “aquele que serve”. Não, não se trata de uma questão de poder. Trata-se de perceber até que ponto faz sentido que seja negada às mulheres a graça sacramental da ordenação, em vez de celebrado e apoiado esse magistério que tão bem podem exercer – e que a Igreja Católica tanto precisa que exerçam.

Na Amazónia, onde há uma média de mais de 5.500 fiéis por padre (quase o triplo da Europa), são os leigos, e sobretudo as leigas, que sustentam as comunidades cristãs. “Nas aldeias de Belém do Alto Solimões, há muitas ministras. Elas presidem à liturgia, desde o sinal da cruz inicial até à despedida final. Mesmo quando consigo ir celebrar, deixo que elas guiem e também façam a homilia, enquanto me limito à consagração eucarística”, contava o frei Paolo Maria Braghini, missionário capuchinho italiano que está há quase vinte anos na Amazónia brasileira, à vaticanista Lucia Capuzzi em julho do ano passado. “É bom que os fiéis sejam protagonistas. De facto, as fiéis aqui como agentes pastorais são fundamentais. Não só pelo grande número. São dinâmicas, fortes, criativas, resistentes. É justo que tenham reconhecimento”, sublinhou o religioso. “Finalmente, estão a ter agora”, acrescentava.

O Sínodo da Amazónia, realizado em outubro de 2019, que culminou com a exortação Querida Amazónia, foi um marco decisivo para este reconhecimento. O documento final, assumido pela exortação, pedia a revisão do motu proprio Ministeria quaedam para que as mulheres pudessem finalmente ter acesso aos ministérios de leitora e acólita. Um convite que o Papa aceitou em janeiro de 2021, modificando o cânone 230 § 1 do Código de Direito Canónico. “Oferecer aos leigos de ambos os sexos a possibilidade de acesso ao ministério do Acolitado e do Leitorado, em virtude da sua participação no sacerdócio batismal, aumentará o reconhecimento, também através de um ato litúrgico (instituição), da preciosa contribuição que durante muito tempo muitos leigos, inclusive mulheres, oferecem à vida e à missão da Igreja”, explicou então Francisco numa carta ao então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal Luis Ladaria.

A verdade é que ainda hoje, como bem notava um artigo intitulado “A vida difícil dos acólitos”, publicado no mais recente número do Donne Chiesa Mondo, suplemento feminino do jornal vaticano L’Osservatore Romano, continua a haver párocos “que claramente preferem ser ajudados no altar por meninos e rapazes, não tolerando a presença de meninas”. Sou testemunha disso mesmo: essa discriminação existe na minha paróquia. E não se pense que estamos a falar de uma pequena paróquia no interior profundo, com poucas ou nenhuma criança, e um pároco idoso. Não: trata-se de uma grande paróquia no Patriarcado de Lisboa, com mais de 300 crianças na catequese, e um pároco que ainda não completou 40 anos.

“Perguntamo-nos que experiência de Igreja têm estas meninas, os potenciais adultos cristãos do futuro. E os rapazes? Não correm o risco de ‘sentir-se’ privilegiados em comparação com os seus pares?”, questiona a autora do artigo, a religiosa Elena Massimi, das irmãs salesianas Filhas de Maria Auxiliadora, e presidente da Associação dos Professores de Liturgia.

Sim, devemos questionar. E perante a resposta do Papa à jornalista norte-americana, ainda mais.

Mas há uma coisa que ele disse que pode alimentar a esperança. Antes da pergunta sobre o diaconado feminino, quando questionado sobre de que modo uma maior presença das mulheres na Igreja, que ele próprio tem promovido, estaria a transformá-la, Francisco afirmou: “São as mulheres que levam a mudança para a frente. Todo o tipo de mudança. Elas são mais corajosas que os homens. (…) Não esqueçamos que quem nunca abandonou Jesus foram as mulheres. Todos os homens fugiram!”.

Verdade. Será que conseguiremos que se opere mais esta mudança? Antes que as mulheres que permanecem como católicas e que continuam a assegurar tantos dos serviços no interior do catolicismo fujam também?

 

 

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