Detenção de activistas pró-democracia em Hong Kong agrava situação dos direitos humanos no território

| 30 Nov 20

Agnes Chow na Tim Mei Avenue, Hong Kong

Agnes Chow, um dos rostos do movimento pró-democracia em Hong Kong, presa na semana passada: “A esperança para Hong Kong está agora na prisão ou no exílio”, diz Benedict Rogers. Foto: Honcques Laus/Wikimedia Commons – Outubro de 2019.

 

A detenção de três jovens activistas pró-democracia, na semana passada, em Hong Kong, traduz o cada vez maior cerceamento das liberdades e autonomia de Hong Kong: Joshua Wong, Agnes Chow e Ivan Lam foram detidos sob a acusação de reunião ilegal relacionada com os protestos da lei anti-extradição, promulgada no ano passado. Habitualmente, os três teriam sido libertados sob fiança, ficara, agora detidos em prisão preventiva aguardando julgamento. Enfrentam, pelo menos, até cinco anos de prisão, escreve Benedict Rogers, jornalista e activista dos direitos humanos baseado em Londres, numa crónica na UCA News, agência especializada em assuntos da Ásia.

Agnes Chow, de 23 anos, católica, enfrenta mesmo a possibilidade de uma pena de prisão muito mais longa, uma vez que já tinha sido presa em Agosto ao abrigo da nova lei draconiana de segurança nacional de Hong Kong. Acusada de “conivência com forças estrangeiras”, pode ser condenada a largos anos na cadeia.

Joshua Wong, por seu lado, está alegadamente mantido em isolamento e confinado à sua cela, sem poder sequer sair para fazer exercício, porque foi encontrado um “objecto estranho” no seu estômago num raio-X. Ainda mais chocante, descreve o jornalista Benedict Rogers, é a notícia de que Wong tem de recorrer às máscaras cirúrgicas que deveriam protegê-lo da covid-19 como vendas para dormir, porque os guardas prisionais não apagam as luzes da cela durante a noite. O que pode constituir privação de sono e ameaça para a saúde, equivalendo a maus-tratos, nota Rogers, que lidera também a equipa do Extremo Oriente na Christian Solidarity Worldwide, uma organização de direitos humanos especializada na liberdade de religião e de crença.

A detenção dos jovens activistas ocorreu três dias após a prisão de Alexandra Wong, 64 anos, acusada de agressão a um segurança em Janeiro passado. Conhecida como “Avó Wong”, ela tem sido “uma incansável manifestante solitária” em defesa da liberdade em Hong Kong, escreve o jornalista. Alexandra regressou a Hong Kong em Outubro, depois de ter estado 14 meses presa na China continental.

Durante esse tempo, a Avó Wong estado 45 dias presa numa cela de 18 metros quadrados com outras pessoas (chegaram a ser 26), sujeitas a interrogatório. Wong foi forçada a “confessar” e a prometer não se envolver em mais manifestações ou falar com os media, bem como a renunciar ao seu activismo por escrito e a declarar perante as câmaras que não tinha sido torturada. “Tive medo de morrer naquele centro de detenção”, disse ela.

Depois de cinco dias de “educação patriótica” na província de Shaanxi (Nordeste da China), em que foi obrigada a cantar o hino nacional chinês diante da bandeira da República Popular, foi libertada sob fiança e colocada sob prisão domiciliária. Deputados britânicos do All Party Parliamentary Group on Hong Kong, composto por membros de diferentes partidos, propôs o seu nome para o Prémio Nobel da Paz. O vice-presidente do grupo, o católico Lord Alton, de Liverpool, disse que a avó Wong era destemida e “encarna a bravura, determinação e resiliência dos manifestantes de Hong Kong que inspiraram o mundo”.

 

“Marionetas de borracha”

Benedict Rogers coloca em contraste a atitude dos jovens e de Alexandra Wong com a da chefe executiva de Hong Kong, Carrie Lam, que, no seu discurso político anual perante o Conselho Legislativo, este ano só teve legisladores pró-Pequim diante dela. “A desqualificação feita por Pequim de quatro legisladores pró-democracia, e a demissão de todos os outros democratas em protesto, há duas semanas atrás, não fez da legislatura mais do que um espectáculo de marionetas de borracha pró-Pequim, inteiramente subserviente aos desejos do Partido Comunista Chinês”, critica o analista.

No seu discurso, Lam elogiou a nova lei de segurança nacional de Pequim como “notavelmente eficaz” na restauração da estabilidade da cidade, e elogiou a polícia “altamente confiante” – apesar dos relatos de observadores internacionais, incluindo das Nações Unidas, sobre as graves violações de direitos humanos que estão a ser cometidas.

Os relatores especiais da ONU e organizações como a Amnistia Internacional, acusam a polícia de Hong Kong de usar gás lacrimogéneo, gás pimenta e outros químicos em áreas densamente povoadas, perto de escolas e jardins de infância, “de forma indiscriminada, desnecessária e desproporcionada, em violação dos princípios internacionais e de Hong Kong sobre o uso da força”.

Assédio, prisão e abuso de profissionais médicos, patrulhamento de hospitais “em equipamento completo, com escudos, bastões e armas de fogo carregados com munições de saco de feijão e balas de borracha”, ataques a jornalistas, espancamento de manifestantes e violência sexual são outras acusações feitas à polícia da cidade.

 

Presente natalício devolvido ao remtente

No seu discurso, Lam prometeu restaurar a ordem constitucional e o sistema político de Hong Kong, afirmação que Rogers considera um “sinal da distopia orwelliana”, pois “Pequim rasgou a Constituição de Hong Kong, a Lei Básica, quebrou as suas promessas ao abrigo da Declaração Conjunta Sino-Britânica, um tratado internacional registado nas Nações Unidas, e destruiu as liberdades prometidas a Hong Kong”. Lam, acrescenta, “não está a restaurar nada; ela está – por ordem dos seus senhores fantoches – a substituir um sistema vibrante e semi-democrático pelo controlo total do Partido Comunista Chinês”.

O jornalista conta ainda que, após o Natal do ano passado, escreveu em privado à líder do poder executivo de Hong Kong, manifestando o seu reconhecimento por ela estar “numa posição desafiadora” e oferecendo-lhe um livro que escreveu dedicado ao seu percurso católico (o jornalista foi baptizado em 2013). Como resposta, recebeu a devolução do livro e da carta, com uma explicação da secretária: “Para defender os princípios da simplicidade e economia, Carrie Lam] não pode aceitar o livro como um presente (…) Se desejar recomendar qualquer publicação à Chefe Executiva para a sua leitura no futuro, por favor informe-nos os nomes das publicações que deseja recomendar para que possamos considerar a aquisição das publicações como apropriado.”

“Um ano depois, gostaria de recomendar a Lam três publicações – a Bíblia Sagrada, o Catecismo da Igreja Católica e o Compêndio da Doutrina Social da Igreja – mas as versões originais, não as novas traduções de Pequim”, escreve o analista, que termina acusando: “Nunca é possível servir dois mestres, e Lam deixou clara a sua escolha – servir os seus mestres em Pequim em vez de servir Deus ou o povo. Como escrevi há um ano neste site, Lam tem sangue nas suas mãos – muito mais agora – e a destruição do modo de vida de uma cidade inteira.  A esperança para Hong Kong está agora na prisão ou no exílio.”

 

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