Deus abandonou os moçambicanos?

| 4 Abr 19 | Destaques, Espiritualidades, Newsletter, Últimas

A destruição na Cidade da Beira. Foto © Instituto Nacional de Gestão de Calamidades

 “O vento veio para nos tirar o teto e as casas.” Citada na Visão, Maria Teresa Garambela, 42 anos, recorda assim a noite de dia 14 de março, quando o ciclone Idai destruiu a cidade e o corredor da Beira, no centro de Moçambique, continuando depois a deixar um rasto de devastação pelo Zimbabwe e Malawi.

A tragédia é imensa: até dia 3 de abril, estão já contados 598 mortos, 790 casos  de malária e 376 de cólera e a ONU enviou 900 mil doses de vacinas contra esta última doença. Calcula-se que haja ao todo 195 287 famílias atingidas, apontando-se para pelo menos perto de um milhão de pessoas afetadas pela catástrofe.

Perante uma tal dimensão do desastre, há quem se possa perguntar se Deus se esqueceu de Moçambique e se abandonou os moçambicanos. Mas, para as grandes tradições religiosas, a tragédia natural não é um castigo divino, ao contrário do que por vezes algumas pessoas pensarão.

No Antigo Testamento da Bíblia, texto sagrado de judeus e cristãos, o Livro de Job conta a história do infortúnio do protagonista: um homem que perdeu tudo, desde terras a filhos, tendo ganho apenas a inflexibilidade da mulher e de todos os seus amigos: “O Senhor disse a Satanás: ‘Pois bem, ele [Job] está nas tuas mãos; poupa apenas a vida dele’. Saiu, pois, Satanás da presença do Senhor e afligiu Job com feridas terríveis, da sola dos pés ao alto da cabeça.”

Possivelmente, na tragédia de Moçambique, houve quem tivesse experiências semelhantes. Na televisão moçambicana STV, uma sobrevivente relatava: “A minha casa desmoronou-se e eu fiquei debaixo das pedras, o meu marido foi esmagado até a morte. Tive de arrastar o corpo dele cá para fora.”  

 
Deus não castiga

“Deus não castiga”, garante o padre franciscano João Lourenço, professor da Faculdade de Teologia (FT) da Universidade Católica Portuguesa. A ciência e a natureza têm ambas a sua autonomia. A alma humana, admite, pode sentir em momentos mais dramáticos, como o da calamidade em Moçambique, uma espécie de maldição divina que assombra as pessoas – seja por castigo, seja como uma espécie de entretenimento divino, como alguém poderia inferir de uma leitura distorcida do Livro de Job. Mas será mesmo assim?

“Há que saber ler estes textos”, diz o teólogo. Por exemplo, no cristianismo, a Bíblia tem uma dimensão de “antropologia cultural”: nos tempos bíblicos, a humanidade não conhecia a origem da maior parte dos cataclismos. Por isso, atribuía-as a um Deus.

Em situações de tragédia como a de Job, o que o narrador quer demonstrar “não é a causa mas o sentido”. Isto porque, acrescenta João Lourenço, a ciência é autónoma. O crente não pode, por isso, achar que Deus permite tais acontecimentos nem que provoca a desgraça humana. Como aquela que se verificou em Moçambique, assim resumida, nos primeiros dias, pelo Presidente moçambicano, Filipe Nyusi: “As águas do rio Pungue e Búzi transbordaram, aldeias inteiras desapareceram, comunidades ficaram isoladas, e consegue-se ver durante os sobrevoos corpos a flutuar. Portanto, um verdadeiro desastre humanitário de grandes proporções.”

O professor da FT relembra ainda o trecho do evangelho de São Lucas em que Jesus diz: “E aqueles dezoito homens, que a torre de Siloé, ao cair, atingiu e matou? Julgais que eram mais culpados do que todos os outros habitantes de Jerusalém?” Este texto, explica o padre João Lourenço, significa que o próprio Jesus vem acabar com a teoria da retribuição e do castigo divino, própria de algum judaísmo do seu tempo: não é por haver sofrimento que há castigo.

No hinduísmo, segundo Ajit Hansraj, vice-presidente da Comunidade Hindu de Portugal, o karma é um conceito importante para entender estas questões. Ao contrário do que comummente se julga, mais do que refletir um destino, o karma é a atribuição de um efeito a uma causa.

No budismo, o karma é visto de modo ligeiramente diferente: a ação natural ou humana tem as suas consequências. No caso de uma ação se dever a um mau comportamento ambiental ,há que equacionar entre a responsabilidade humana e a responsabilidade natural, explica Paulo Borges, ex-presidente da União Budista Portuguesa. O budismo é “uma religião sem Deus”, acrescenta, o que significa que não existe nenhuma culpa de uma entidade superior. Neste caso, ela é repartida entre causas naturais e humanas.  

 
Então de quem é a culpa? 

Foto © Joost Bastmeijer/Caritas Internacionalis

“O barulho do vento era tão grande que parecia um avião a sobrevoar as nossas cabeças durante horas infindas. (…) Para nós, era algo nunca imaginável, aqui em Moçambique. Uma coisa de filme”, dizia ainda Teresa Garambela, na reportagem citada.

Para cristãos e hindus, falta eco-justiça, como alerta Catarina Sá Couto, cristã anglicana, ativista da Carta da Terra e dos Green Anglicans. “A questão desta catástrofe em Moçambique prende-se com o conceito de eco-justiça. A verdade é que o hemisfério norte dominava a indústria no tempo da revolução industrial. Após ter percebido os efeitos nocivos para a sociedade e cidades tanto da poluição, saúde e sociais, as empresas do hemisfério norte transferiram as indústrias para a Índia, Blangladesh, Turquia, Tailândia ou China”, escreveu Catarina Sá Couto, num artigo que publicou dia 29 de março, no 7MARGENS.

Diz ainda Catarina Sá Couto: “Agora que a catástrofe já passou, que há dinheiro e ajuda a chegar, é tempo de erguer os braços – não apenas das pessoas de Moçambique mas também os nossos, através da mudança de hábitos, no sentido de prevenir. Para que, quando outra catástrofe ocorrer, possamos dizer: não foi em meu nome que morreram, as minhas mãos não têm mais manchas de sangue. Fazêmo-lo se adoptarmos um estilo de vida ‘desperdício zero’, sem fazer lixo novo, reduzindo substancialmente o consumo de carne e optando por transportes públicos ou sem emissões de carbono. Pegar nas cinzas e construir uma vida nova.”

Teresa Messias, docente da Universidade Católica, também sublinha a autonomia da natureza, além de este fenómeno refletir ainda o mal como um grande mistério existencial. A origem de tragédias como esta “não reside em Deus, mas na possibilidade de rejeição ou revolta contra o bem que Deus é”.

Cabe, assim, à humanidade, saber lidar com essa autonomia, aliás como também entendem os hindus, nos seus escritos mais antigos (os Veda e Purana). Não se pode praticar Ahinsa, isto é, maus atos para com os outros seres, como lembra Ajit. É por isso, e em nome de uma natureza que deve ser preservada e respeitada – e não apenas pelo caráter sagrado que a vaca tem no hinduísmo – que os hindus são vegetarianos.  

 
O silêncio dos inocentes

Foto © Joost Bastmeijer/Caritas Internationalis.

Também no islão, diz o xeque David Munir, imã da Mesquita Central de Lisboa, Deus respeita o livre arbítrio humano de forma absoluta, não é um ser totalitário. Aliás, tanto na perspetiva muçulmana como na cristã, é o Homem que se aproxima de Deus, ainda que com a graça deste último, e não o contrário. A conversão é um ato de vontade. Isto significa que, mesmo nestes casos de aparente injustiça divina, acima disso está um respeito considerável pelo Homem: este é visto, em todas estas religiões, como um ser autónomo que, procurando um Deus transcendente ou imanente, tem vontade, sensibilidade e inteligência próprias.

David Munir lembra que tal não significa que os atos não tenham consequências. De tal modo eles estão à vista em Moçambique, por causa do “mau comportamento ambiental do Homem!”

Em todas estas religiões, fica sempre outra pergunta: Porque não protege Deus as crianças? Porque não protege as pessoas inocentes, que nenhuma culpa têm? Uma mãe citada no Observador dizia: “Eu estava dentro de casa com os meus filhos, quando saímos vimos lama descendo para a estrada e para as casas e fugimos.” E uma outra mulher, ouvida na TSF, contava: “Estávamos em casa, eu e a minha irmã. O teto estava a levantar, nos arredores muitas casas destruíram-se. Naquele momento, nós fomos para debaixo da cama. Foi um momento de muito pânico.”

Quando alguém morre, a pessoa comparece diante do seu Deus, assim o entendem as diferentes religiões monoteístas. E receberá, pela forma como se comportou, uma recompensa ou condenação. No budismo e hinduísmo, que admitem a reencarnação, cada pessoa leva consigo as marcas principais do passado e, em alguns casos, as próprias circunstâncias da morte.

No caso do islão, acrescenta o xeque Munir, acontecimentos como estas tragédias são lidos, por alguns muçulmanos, também como o cumprimento de uma das profecias do profeta Maomé: “A vinda do fim do mundo implica a existência sucedânea de várias catástrofes naturais, ainda que provocadas pelo Homem, e tal parece estar a acontecer.”  

 
“Eu consegui continuar”

José Eduardo e Louise com os filhos, uma das famílias atingidas e entretanto apoiadas pela Cáritas. Foto © Caritas Internationalis

Perante um acontecimento dramático como o ciclone Idai, os sentimentos de compaixão e solidariedade devem prevalecer, em termos individuais e coletivos. Paulo Borges resume, dizendo que cada pessoa deve “desenvolver compaixão pelo outro”, por que está a viver determinada situação.

Para quem é atingido por tais tais situações, o sofrimento pessoal não se deve driblar. A única possibilidade de agir sobre é procurar dar-lhe sentido, enquadrá-lo em algo que vai para além dele. E quando não se conseguir dar sentido, naqueles momentos em que o sofrimento não se reduz a uma explicação fácil? “Então, pode-se gritar a Deus, a esse Deus que, creem os cristãos, ouve sempre e está sempre presente”, diz Teresa Messias.

Etty Hillesum, judia que morreu no campo de extermínio de Auschwitz, durante a II Guerra Mundial, deixou um Diário (além de uma série de Cartas), no qual escreve: “Ajuda-te que o céu te ajudará.” E quando nos ajudamos a nós mesmos, cultivando uma sincera confiança em nos, que confiar em Deus se torna possível” A professora de Espiritualidade Teresa Messias diz, a propósito: “Deus está nas pessoas que ajudaram outras a salvar-se, está nas que morreram, está nas que acorreram a ajudar.” É uma oportunidade de solidariedade e caminho”, acrescenta o padre João Lourenço. E David Muni diz, a partir do Alcorão: “Com paciência e oração.”

Independentemente da religião, há um caminho comum, que não se identifica com a fuga, mas com a aceitação e o aproveitamento do que acontece para crescer com a dor, enquanto pessoas. Como diz João Lourenço: “Para o Homem, a tragédia não é uma necessidade mas uma oportunidade e desta maneira, pode ser vista como um caminho de consolidação.”

Talvez Etty Hillesum tenha as palavras certas para resumir: “Tentei encarar o ‘sofrimento’ da Humanidade de perto e tentei explicá-lo honestamente a mim mesma, ou melhor: algo em mim explicou-mo, apareceram respostas a muitas perguntas desesperadas, um grande absurdo deu lugar a um pouco mais de ordem e coerência e eu consegui continuar. Foi novamente uma luta breve, mas intensa, donde saí um bocadinho mais madura.”

Artigos relacionados

“No tempo dividido” – Mistagogia da temporalidade na poesia de Sophia

“No tempo dividido” – Mistagogia da temporalidade na poesia de Sophia

Sophia chegou cedo. Tinha dez ou onze anos quando li O Cavaleiro da Dinamarca, cuja primeira edição data de 1964. É difícil explicar o que nos ensina cada livro que lemos. Se fechar os olhos, passados mais de 30 anos, recordo ainda que ali aprendi a condição de pe-regrino, uma qualquer deriva que não só nos conduz de Jerusalém a Veneza, como – mais profundamente – nos possibilita uma iniciação ao testemunho mudo das pedras de uma e às águas trémulas dos canais da outra, onde se refletem as leves colunas dos palácios cor-de-rosa.

Apoie o 7 Margens

Breves

Um posto de saúde para os mais pobres na Praça de São Pedro

O Vaticano inaugurou um posto de saúde na Praça de São Pedro para ajudar os mais pobres e necessitados. O posto é composto por oito ambulatórios e, segundo um comunicado do Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização, citado pelo Vatican News, serão disponibilizadas consultas médicas com especialistas, cuidados especiais, análises clínicas e outros exames específicos.

Papa Francisco anuncia viagem ao Sudão do Sul em 2020

“Com a memória ainda viva do retiro espiritual para as autoridades do país, realizado no Vaticano em abril passado, desejo renovar o meu convite a todos os atores do processo político nacional para que procurem o que une e superem o que divide, em espírito de verdadeira fraternidade”, declarou o Papa Francisco, anunciando deste modo uma viagem ao Sudão do Sul no próximo ano.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia

Entre margens

As cartas de D. António Barroso…

“António Barroso e o Vaticano”, de Carlos A. Moreira de Azevedo (Edições Alethêia, 2019), revela 400 cartas inéditas, onde encontramos um retrato de corpo inteiro de uma das mais notáveis figuras da nossa história religiosa, que catalisa a rica densidade da sua época.

A morte não se pensa

Em recente investigação desenvolvida por cientistas israelitas descobriu-se que o cérebro humano evita pensar na morte devido a um mecanismo de defesa que se desconhecia.

O regresso da eutanásia: humanidade e legalidade

As Perguntas e Respostas sobre a Eutanásia, da Conferência Episcopal Portuguesa, foram resumidas num folheto sem data, distribuído há vários meses. Uma iniciativa muito positiva. Dele fiz cuidadosa leitura, cujas anotações aqui são desenvolvidas. O grande motivo da minha reflexão é verificar como é difícil, nomeadamente ao clero católico, ser fiel ao rigor “filosófico” da linguagem, mas fugindo ao «estilo eclesiástico» para saber explorar “linguagem franca”. Sobretudo quando o tema é conflituoso…

Cultura e artes

O pensamento nómada do poema de Deus novidade

Uma leitura de “Uma Beleza que Nos Pertence”, de José Tolentino de Mendonça.

O aforismo, afirma Milan Kundera na sua Arte do romance (Gallimard, 1986), é “a forma poética da definição” (p. 144). Esta, prossegue o grande autor checo, envolvendo-se reflexivamente numa definição da definição, é o esforço, provisório, “fugitivo”, aberto, de dar carne de visibilidade àquelas palavras abstratas em que a nossa experiência do mundo se condensa como compreensão.

Pedro Abrunhosa a olhar para dentro de nós

É um dos momentos altos do concerto: no ecrã do palco, passam imagens de João Manuel Serra – o “senhor do adeus” que estava diariamente na zona do Saldanha, em Lisboa, a acenar a quem passava – e a canção dá o tom à digressão de Espiritual, de Pedro Abrunhosa, com o músico a convidar cada espectador a olhar para dentro de si.

Trazer Sophia para o espanto da luz

Concretizar a possibilidade de uma perspectiva não necessariamente ortodoxa sobre os “lugares da interrogação de Deus” na poesia, na arte e na literatura é a ideia principal do colóquio internacional Trazida ao Espanto da Luz, que decorre esta sexta e sábado, 8 e 9 de Novembro, no polo do Porto da Universidade Católica Portuguesa (UCP).

Sete Partidas

Visto e Ouvido

Agenda

Parceiros

Fale connosco