
Peter Loy Chon é o terceiro arcebispo de Suva, nas Ilhas Fiji. Foto © António Marujo/7MARGENS
“Deus é como o abraço do oceano. Deus abraça todo o oceano, na verdade abraça todo o planeta”, diz o arcebispo Peter Loy Chon, 62 anos, nascido em Namata, nas Ilhas Fiji, e terceiro arcebispo de Suva, no mesmo arquipélago. Bispo desde Junho de 2013, fez o doutoramento na Califórnia (Estados Unidos) e preside neste momento à Federação das Conferências dos Bispos Católicos da Oceânia, que inclui as conferências episcopais da Austrália, Nova Zelândia, Papua-Nova Guiné e Oceânia (Fiji, Samoa e pequenas ilhas).
Esta situação cria alguma dispersão, diz o arcebispo Chong, o que faz com que a federação não tenha propriamente uma liderança, a qual roda consoante o país-anfitrião da assembleia, que se realiza de quatro em quatro anos, o que constitui um obstáculo à continuidade da acção pastoral, como reconhece o arcebispo.
Peter Chong esteve em Lisboa em Junho de 2022, para participar na Conferência Mundial dos Oceanos e na Oceânia Talanoa, iniciativa de grupos católicos dessa região para debater a emergência climática na perspectiva dos oceanos. No rescaldo da COP28 sobre o clima, Peter Chong faz, nesta entrevista ao 7MARGENS, um ponto de situação sobre o papel dos cristãos e da Igreja Católica.
7MARGENS – Para quem vive em pequenas ilhas, o oceano é a língua de Deus?
PETER LOY CHONG – Não. Mas para nós, porque o oceano está perto, é sempre como se Deus fosse como o oceano, Deus é como…
7M – A fonte da vida, a água.
Sim, a fonte da vida. Deus é como o abraço do oceano. Deus abraça todo o oceano, na verdade abraça todo o planeta. O que também tento dizer às pessoas que falam da espiritualidade indígena e do conhecimento indígena, é que temos a Bíblia como o ideal, mas a realidade é outra coisa: a espiritualidade indígena é o totemismo. Estou ligado ao mar, por isso o totem diz que encontro a minha entidade no peixe que vive no mar, identifico-me com uma certa árvore…
Isso significa que a minha vida é uma rede de relacionamentos, estamos interligados. É um ideal, como no evangelho. Mas na realidade, o que está a acontecer nas Fiji agora? Depois na instalação de um chefe local, prepara-se uma bebida cerimonial e ele bebe. Era suposto isto significar “Estou a beber a terra, o oceano e todos os seres vivos e eu devo ser o seu guardião.” Mas agora, há empresas que chegam, dão dinheiro ao chefe e ele esquece toda essa missão de protecção.
7M – Mas começou por se referir ao oceano…
Nós somos os profetas do oceano, no que diz respeito à Igreja Católica. Nós somos os bispos da Oceânia e, se não falarmos sobre o oceano, daqui a uns anos, antes de fecharmos os olhos, podemos estar a viver noutro lugar.
Por isso é urgente falar deste tema, toda a gente está a falar do oceano. Tivemos a [encíclica] Laudato Si’, depois o Sínodo [dos Bispos] sobre a Amazónia, a etapa seguinte deveria ser o oceano. Tenho de conseguir mobilizar os bispos australianos, porque eles não estão muito entusiasmados com o tema, eles têm outras questões mais importantes para eles, como o secularismo…
7M – E este é um tema urgente?
O nível do mar está a subir e, se não contribuirmos de alguma forma, que tipo de profetas somos nós? O oceano é o tema número um. O nosso método é o ver-julgar-agir, que se desenvolve naquilo a que os jesuítas chamam de círculo pastoral: experiência, análise social, reflexão teológica, palestra pastoral. Espero que, após esta assembleia [Oceânia Talanoa], assumamos o cuidado pastoral por este tema. Isso seria um grande avanço da Federação dos Bispos da Oceânia. A continuidade da acção é o nosso grande problema.

“Nós somos os bispos da Oceânia e, se não falarmos sobre o oceano, daqui a uns anos, antes de fecharmos os olhos, podemos estar a viver noutro lugar.” Foto © Pawel Gaul
7M – Na Laudato Si’, o Papa apresenta também quase um programa político e económico. Os cristãos não deveriam estar mais envolvidos no nível da decisão política? Há inclusive muitos políticos que dizem que são cristãos e depois fazem muitas coisas contra a criação, contra os pobres…
Está a falar de uma lacuna…
7M – Sim. Há compromisso local, as pessoas vão a manifestações, ajudam outros, mas depois não decidem porque não estão nos governos, no plano político. Os cristãos não deviam envolver-se mais no plano político?
Sim, acredito firmemente que os cristãos devem estar mais empenhados nas decisões políticas… Nós, católicos, temos uma das mais ricas tradições de ensino social que podemos trazer para a arena política. Há uns anos, nunca se tinha ouvido falar do socialismo católico. Há 20 anos, ouvia-se falar mais sobre os Dez Mandamentos e catecismo, nos círculos católicos. Ultimamente, o ensino social católico está a tornar-se mais popular, as pessoas falam sobre o ensino social católico.
Fui convidado por um teólogo asiático para uma conferência em Melbourne [Austrália], sobre a globalização, e referi o pensamento social católico. Alguém disse: “Esta é a primeira vez que ouço um bispo falar de ensino social.” Dois padres jesuítas publicaram um livro com o título “O nosso segredo mais bem guardado”. Ele existe, mas mantivemos em segredo ou muitas pessoas o conhecem.
Mas se me perguntarem nos meios de comunicação nas Fiji sobre qualquer coisa, posso sempre ir ao ensino social católico e às doutrinas sociais para encontrar uma maneira de me envolver com questões políticas, económicas ou sociais. E temos de educar mais o nosso povo para que saiba como lidar com a política e estar confiante em envolver-se na política. O problema é que ainda estamos na infância do envolvimento social.









