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autores - Serafim Falcão

[Entre Margens]

“Deus amou-te”. “Amai-vos uns aos outros”!

| 30/01/2026

 

Ainda antes de começar a ler a Exortação do Papa Leão XIV, Dilexit Te, e já pensando na possível ausência pastoral, lembrei-me das palavras do Papa Francisco, na sua Evangelii Gaudium, nº.25: “Não ignoro que hoje os documentos não suscitam o mesmo interesse que noutras épocas, acabando rapidamente esquecidos.”

Acontece que nem sequer esquecidos chegam a ficar porque, ou nem foram lidos ou o foram superficialmente, ficando sem a sua concretização pastoral, “sem significado programático”.

Todavia, penso ainda que, nesta Exortação, o Papa Leão XIV lhe terá dado a mesma força e significado, e continuo a citar: “apesar disso, sublinho que pretendo deixar expresso aqui, que possui um significado programático e tem consequências importantes”.

É devido a estas duas citações – a falta de “interesse” e ao “significado programático e às suas consequências importantes”, que surge esta minha reflexão.

Fala-se muito na pobreza da Igreja, na sua prática pelos seus membros, particularmente no exemplo que devem dar, dum modo especial o Clero, os Institutos, as Congregações Religiosas…cujos membros, entre os três votos que fazem e juram cumprir: “pobreza, castidade e obediência”, se salienta logo o primeiro – o da pobreza. Todavia, penso que é a este que se dá menor importância, em relação aos outros dois, particularmente, o da castidade; praticamente, fala-se, salienta-se, comenta-se mais este.

Na verdade, não é a este que os fiéis dão maior importância, como prática e como testemunho; primeiro, não acreditam e até compreendem e desculpam; quem não ouviu dizer: “o que a gente sabe, a gente sabe; o que a gente não sabe, a gente sabe lá”! Ou ainda: “ele é homem como nós”!

Os fiéis apreciam, dão importância, exigem mesmo que os seus Pastores sejam pobres, tenham, testemunhem a pobreza. Podem não ser castos e podem parecer que o são; no espírito de pobreza, ou são ou não são.

Francisco de Assis e Frei Leão. Josep Benlliure Gil (1855-1937), domínio público

“São Francisco de Assis, Santa Teresa de Calcutá e tantos outros, foram Santos pelo testemunho de pobreza e não da castidade; perante aquela, não se duvida desta: o contrário, sim.” Foto: Francisco de Assis e Frei Leão. Josep Benlliure Gil (1855-1937). Domínio público

São Francisco de Assis, Santa Teresa de Calcutá e tantos outros, foram Santos pelo testemunho de pobreza e não da castidade; perante aquela, não se duvida desta: o contrário, sim.

Mas também os Baptizados, os cristãos, pelo facto de o serem, devem ser pobres, praticar, mostrar, testemunhar o espírito de pobreza. Pelo exemplo do seu Mestre; só pelo facto de serem cristãos e pelo exemplo dos Primeiros Cristãos, das Primeiras Comunidades Cristãs que tinham “Um só coração e uma só alma” e “não havia necessitados entre eles”; “punham tudo aos pés dos Apóstolos”(Actos 4:32 e segs). Temos que ver como, nos dias de hoje, estes comportamentos se podem actualizar e concretizar.

Se a Evangelii Gaudium é modelo e orientação, oferece esquemas, tudo o que é preciso para renovar a Igreja, concretamente a Pastoral Paroquial, a “Dilexit Te”, tem igualmente tudo para imbuir os cristãos do espírito e da Prática pessoal, familiar e Comunitária da Pobreza. E esta Exortação marca a hora, estimula a ocasião, alertar as consciências dos Pastores das Dioceses, extensivas aos Pastores paroquiais, a animar o compromisso evangélico de todos.

Para tal, é preciso lê-la pastoralmente, que os cristãos a leiam também e que os Bispos animem e orientem pastoralmente os seus Padres e que estes a dêem a conhecer, a expliquem e a concretizem nas suas Paróquias.

Caso contrário, acontecer-lhe-á como aconteceu à Evangelii Gaudium, e a tantas outras, limitando-se a ocupar um lugar nas estantes das bibliotecas.

Para que tal não aconteça, a Rádio Renascença, a Emissora CATÓLICA Portuguesa tem aqui a sua Missão, não só musical, noticiosa e desportiva, mas CATÓLICA e EVANGELIZADORA. Se tem “música para ouvir e informação para decidir”, é importante que essa “informação” seja realmente católica, para haver decisão pessoal, familiar e comunitária; que os documentos que vêm do Santo Padre e dos respectivos Bispos diocesanos, das Conferências Episcopais, sejam dados a conhecer e discutidos, comentados, reflectidos, tal como acontece nas entrevistas, ditos, opiniões dos políticos. Se não se conhece e se não se compreende, não pode haver decisão pessoal e comunitária. Daí, a falta de exigência comprometida, a sugestão oportuna, a crítica construtiva da parte dos cristãos e a “estrutura caduca da paróquia” (EG.28), o “repetir tontamente os mesmos erros do passado… encalhados na nostalgia de estruturas e costumes que já não são fonte de vida no mundo actual (EG108), a “quotidianidade” pastoral e a possível “acédia” pessoal de que fala o Papa Francisco (EG.234)

A Igreja trabalha tanto na penumbra, na ausência do debate, da informação e, por consequência, da formação; sendo fermento,” não leveda a massa”; sendo semente, não a semeia, sendo pastora, alimenta pouco as ovelhas com a PALAVRA. As pessoas virão à Missa, não simplesmente por esta, mas pela PALAVRA; é ESTA que afasta ou atrai; também é esta que converte…

Impressionam-me os “comentários” dos cristãos, às nomeações, às tomadas de posse …,”Amen”, da “mãozinha”, do “coração”…”felicidades”…Tudo está certo…; não há uma sugestão, uma crítica construtiva, que seja… Não há fome, não há sede…; “tudo está no seu lugar… graças a Deus”…; porque  se desconhecem “as águas cristalinas”, porque não se chega a ver e muito menos a saborear “os pastos verdejantes”… (Sl23,2)É preciso gerar fome, criar e despertar a sede- “se conhecesses o dom de Deus!…”(4,10)

Temos tantos Lázaros, sentados às portas das nossas igrejas, antes e depois das Missas e tantos… que passam de lado, ou limpam a consciência deixando a moeda…

O actual RSI, designação que substituiu a de RMN, não tira ninguém da pobreza, considerou o antigo ministro, até pela desactualização do seu montante.

“Temos tantos Lázaros, sentados às portas das nossas igrejas, antes e depois das Missas e tantos… que passam de lado, ou limpam a consciência deixando a moeda…” Mendiga. Foto DR

Eu, embora também passe de lado e deixe a minha moeda, sinto-me mal, discordando de mim e de quem jaz sentado nas escadas, ou à volta da entrada das igrejas. De certeza que, se houvesse Comunidades iguais aos Primeiros Cristãos, tal não aconteceria porque “entre eles, não havia necessitados”. (Ats. 4,32)

Constantino deu a paz à igreja, mas a Igreja não deu o Evangelho a Constantino; a Igreja recebeu de Constantino a pompa, a riqueza, mas Constantino não recebeu do Evangelho de Cristo o espírito e a prática da pobreza; a Igreja começou a ser multidão, perdendo-se a Comunidade, quando, embora o imperativo seja “ide por todo o mundo e pregai o Evangelho” (Mc 16:15), Ela deva ser o “pequeno rebanho” (Lc 12,32), Comunidade, na vida e no Exemplo das Primeiras Comunidades.

Já é tempo, é a hora de a Igreja dar testemunho de pobreza, comunitariamente; repito, comunitariamente. Se tal não acontece, para que serve esta Exortação? Poderá ser um bom tema a insistir durante este Advento ou em outras épocas litúrgicas, que não deverá limitar-se a acender as quatro velas durante os quatro domingos.

Mas atenção, “qualquer exposição que não desague numa aplicação prática fecha-se, realmente numa teoria infecunda”; tal com “está morta uma fé sem obras”, assim também o esforço evangelizador que encare como facultativa a dimensão social. Por isso, reconhecendo a prioridade da fé, urge dar primazia à caridade” (EG)

Cristo quer que haja ricos, mas também quer que não haja pobres, no sentido pejorativo do termo. Para tal, antes de falar em pobreza, temos de informar e formar a Comunidade Paroquial, no espírito da letra do Evangelho; na atualização das Primeiras Comunidades Cristãs. E isto é radical: “ou é ou não é”! “Que tua palavra seja Sim, Sim! Não, Não!”(Mt 5,37)

Se assim não acontecer “a Igreja comete o pecado de se reduzir a um clube de boas pessoas que renunciou a ser agente de transformação”, “a cristãos de pastelaria”, na frontalidade e na verdade do Papa Francisco. “A partir do coração do Evangelho, reconhecemos a conexão íntima que existe entre evangelização e promoção humana que se deve, necessariamente, exprimir e desenvolver em toda a acção evangelizadora”. (Ev. Gaud. 178)

“Esquecer isto é viver uma fé na clandestinidade, despreocupada da vida social e alheios ao que se passa na nossa casa comum – a terra. ”

“A miséria tem antes de ser combatida como um flagelo do que socorrida como um mal” (José de Saldanha)

Tem havido na Igreja, muitos Pentecostes que se diluem no silêncio, em simples convites, e repousam apenas para intelectuais nas Bibliotecas, ou em Conferências de doutores para elites, longe das práticas diocesanas e paroquiais. Lembro alguns Pentecostes, a seguir ao do Vaticano II, o grande e universal “tsunami”: a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium – a sua primeira réplica; o Ano Sinodal a sua segunda réplica, ainda maior, onde o advérbio “TODOS” se salienta: “porque todos têm uma Palavra a dizer que Igreja queremos para o século XXI”; onde vai o Pentecostes da Juventude – JMJ.? Como se está a viver o Pentecostes do Ano Jubilar?…

A “Dilexit Te” será o Pentecostes da Igreja com o Evangélico da Pobreza. Está na hora do SIM, SIM ou NÃO, NAO do Evangelho. Ou a Igreja de Cristo dá testemunho ou não dá; não pode continuar no “nem sim; nem não”; ou no “de quando em vez”. Não pode ficar em simples e ocasional notícia ou em simples convite, como me parece caracterizar-se a pastoral actual, dirigida particularmente aos cristãos, sem um apelo directo  e “exigido” aos pastores. Não se pode limitar a colocar cópias de cartas pastorais, mensagens papais ou diocesans do Advento, da quaresma e outras… ao fundo das igrejas… onde jazem quase todas…

Também o comércio, a moda, o “deus mamona” fazem  convites, particularmente nas Festas Cristãs; mas indicam o espaço, estão lá, têm quem receba e têm os produtos que apregoam. Quantos Pastores convocaram os seu rebanho exclusivamente para a Ano Sinodal, para ao Ano Jubilar, para viver o Advento e preparar o Natal?

Se a “Evangelii Gaudium”, se a “Dilexit te” queriam ser documentos impactantes, aquela que impulsionasse a Igreja, particularmente a paroquial, esta o espírito e a prática da pobreza, ambas tem que caracterizar-se pela mesma linha dinâmica, complementando-se, pastoralmente.

“Jesus pede-nos que sejamos verdadeiros, mas verdadeiros dentro dom coração. Jesus pede-nos coerência de vida, coerência entre aquilo que fazemos e aquilo vivemos dentro”.- Papa Francisco

“Por isso desejo uma Igreja pobre para os pobres…nos deixemos evangelizar por eles. Estes têm muito que nos ensinar”(EG.nº.198)

 

Serafim Falcão é professor aposentado do Ensino Secundário e autor de A Alegria do Evangelho na nossa Paróquia, baseado, motivado e inspirado na exortação apostólica do Papa Francisco. Contacto: s.m.falcao@gmail.com

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