Deus e a sociedade perfeita

| 7 Nov 2023

 “Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer”
(Romanos 3:10).

Sermão da Montanha

Fresco na Basílica e Real Santuário Mariano de Nossa Senhora da Candelária, Tenerife. / Wikimedia Commons

 

Neste texto do Novo Testamento S. Paulo cita o salmista para dizer que as pessoas vivem na impiedade, por palavras e actos. Não há pessoas perfeitas. Logo, não há famílias perfeitas. Não há comunidades cristãs perfeitas, nem escolas, nem empresas, nem fábricas, nem cidades, nem vizinhanças, nem lideranças políticas, nem governos, nem sociedades perfeitas.

 

Algumas tentativas humanas de construir sociedades perfeitas

 No âmbito teórico temos, entre outras, “A Utopia”, de Thomas More (1516). O termo Utopia significa “um não-lugar,” um lugar inexistente. Essa ideia duma sociedade perfeita, ideal, seria generosa mas impraticável.

Mas chegaram a registar-se tentativas práticas como a Genebra de Calvino (1536), ou a Nova Inglaterra dos puritanos (1620). Nada disto funcionou, ou nem sequer saiu do papel, porque não há sociedades perfeitas.

 

Como podemos então viver em sociedades imperfeitas?

 Temos três tarefas a realizar. Antes de mais é imprescindível aceitar a realidade, sabendo que não somos pessoas perfeitas, que a nossa família também não é perfeita, tal como é imperfeita a nossa comunidade de fé e o nosso mundo. Quem não aceita a realidade torna-se alienado, vive fora deste mundo, à semelhança dos delírios psicóticos.

Depois é necessário aprender a viver nesta realidade: Na célebre oração sacerdotal proferida por Jesus (João 17), lemos: “E eu já não estou mais no mundo, mas eles estão no mundo, e eu vou para ti. Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós. Estando eu com eles no mundo, guardava-os em teu nome. Tenho guardado aqueles que tu me deste, e nenhum deles se perdeu, senão o filho da perdição, para que a Escritura se cumprisse. Mas agora vou para ti, e digo isto no mundo, para que tenham a minha alegria completa em si mesmos. Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou, porque não são do mundo, assim como eu não sou do mundo. Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal.” A vontade de Deus não é que saiamos deste mundo, mas que aprendamos a viver nele.

 Finalmente, há que trabalhar para transformar a realidade. Como? Jesus ensinou no Sermão do monte (Mateus 5:1-15):

  1. Manter um espírito de humildade e não de soberba: “³ Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus”;
  2. Ser capazes de assumir as nossas emoções, em vez de fingir que somos super-homens: “⁴ Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados;
  3. Atitude de mansidão e não de ira: “⁵ Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra”;
  4. Lutar sempre pela justiça: “⁶ Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos”;
  5. Coração de misericórdia e não de indiferença: “⁷ Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia”;
  6. Coração limpo, e não maus sentimentos ou raiz de amargura: “⁸ Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus”;
  7. Promover a paz e a reconciliação e não a guerra: “⁹ Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus”.
  8. Se for necessário, sofrer pelo evangelho: “¹⁰ Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus; ¹¹ Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. ¹² Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós”.
  9. Contribuir para evitar a corrupção do mundo: “¹³ Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há-de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens”.
  10. Iluminar o mundo com a luz de Cristo: “¹⁴ Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte; ¹⁵ Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa”.

 Para viver numa sociedade imperfeita precisamos de aceitar a realidade, aprender a viver nela e trabalharmos para a transformar. Se queremos uma sociedade decente, temos que ser nós a promovê-la.

A mensagem cristã não deve ser amedrontar as pessoas com um futuro negro. Os antigos diziam: “Adeus mundo, de mal a pior!”… Mas Jesus disse: “Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” (João 16:33). Não podemos esquecer o mas. Temos de proclamar que Jesus está entre nós. E que nós, sendo as mãos de Jesus, podemos e devemos fazer este mundo melhor.

 

José Brissos-Lino é professor universitário, investigador, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum.

 

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