Deus é silêncio

| 12 Mar 19

“Mesmo antes da Palavra, no princípio era o Silêncio. Talvez por isso, quando nos adentramos no silêncio, há uma pacificação e uma passividade que nos confortam.” Foto © Gellert/Pixabay

Cada vez me sinto mais entusiasmado com o silêncio. Numa ida à livraria, pesquisando pelos livros de religião, esoterismo ou desenvolvimento pessoal, facilmente se percebe que é um tema de moda. Retiros, yoga, meditação, propostas de orações, etc., etc. Para os cristãos, o silêncio não é a perceção de uma ausência, como se o vazio da mente fosse uma meta desejável, mas é antes a contemplação de uma Presença. O silêncio torna-nos conscientes de que há uma ‘vida interior’, que o coração se faz ouvir e que o devemos escutar porque aí radica a nossa originalidade como cristãos que percebem e pressentem a habitação de Deus em cada um. No silêncio não ‘sou-sozinho’, como se de um ente solitário se tratasse,mas sinto uma comunhão silenciosa com o Universo, com a Natureza, com Deus e com os Outros.

A Tradição cristã sempre valorizou o silêncio. Vemo-lo a partir da experiência de Jesus, mas também na procura da Igreja nascente. Sempre foram surgindo homens e mulheres buscadores do silêncio através da meditação e da contemplação. As comunidades monásticas, os eremitas, os padres e madres do deserto. A busca pelo silêncio ultrapassa a simples procura do silêncio dos lugares sossegados, mas é a exploração que fazemos de nós próprios… e de Deus em nós. Tolentino Mendonça diz que o silêncio é “uma disciplina do coração”, um lugar de luta, de procura e de espera. Por isso, a meditação pode ser vista como uma escola de vida, de participação rotineira e regular, uma escola onde aprendo a escuta e confiança.

Entrega. Abandono. Confiança. São talvez as três atitudes que, pela meditação, a nossa vida vai adquirindo. A meditação cristã molda-nos ainda na atenção vigilante e cultiva no nosso coração a dádiva de vida. Este é, talvez, o nosso grande património meditativo: não medito para estar apenas bem comigo e com o ambiente que me circunda, mas para cultivar atitudes que me moldam, em Cristo, na dádiva de nós. E o melhor que podemos dar é o Deus que nos habita, naquilo que sou e naquilo que tenho.

Mesmo antes da Palavra, no princípio era o Silêncio. Talvez por isso, quando nos adentramos no silêncio, há uma pacificação e uma passividade que nos confortam. No silêncio, existe o princípio criador de Deus que inunda o vazio do universo e, por isso, no silêncio também nos sintonizamos com toda a Criação. O silêncio não é uma mera procura técnica para facilitar a meditação ou criar clima de oração. O silêncio é, em si, oração de comunhão. Deus fala tanto pela Palavra como pelo Silêncio. Mesmo quando, na Bíblia, Deus não responde, Deus fala. O silêncio que Jesus procurava precede todas as palavras e toda a Palavra.

Deus é Silêncio. O silêncio não é Deus, mas também nos manifesta o ser-de-Deus. Talvez o silêncio nos exprima melhor Deus, não cria barreiras nem limites lexicais, não exige interpretações ou semânticas. O silêncio não se compra. Num tempo em que se procura cada vez mais, ter mais, o silêncio revela algo absolutamente simples de Deus: a Sua pura e absoluta gratuidade. No silêncio todos podem entrar em Deus e em Comunhão com todos e com tudo. Por isso, no princípio também era a Palavra, porque ela dá ser, forma e conteúdo ao silêncio. E a Palavra também era Deus.

João Alves é padre católico da diocese de Aveiro e pároco da paróquia da Vera-Cruz

Artigos relacionados

Breves

Comissão Europeia reduz metas da luta contra a pobreza novidade

A Comissão Europeia (CE) reduziu o objetivo europeu quanto ao número de cidadãos que pretende tirar da pobreza daqui até 2030: a meta são agora 15 milhões no lugar dos 20 milhões que figuravam na estratégia anterior [2010-2020]. O plano de ação relativo ao Pilar dos Direitos Sociais proposto pela CE inclui ainda a “drástica redução” do número de sem-abrigo na Europa, explicou, em entrevista à agência Lusa, publicada nesta sexta-feira, dia 5 de março, o comissário europeu do Emprego e Direitos Sociais, Nicolas Schmit.

Hino da JMJ Lisboa 2023 em língua gestual portuguesa

Há pressa no ar, o hino da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) Lisboa 2023, tem agora uma versão em língua gestual portuguesa, interpretada por Bruna Saraiva, escuteira do Agrupamento 714 (Albufeira) do Corpo Nacional de Escutas.

Boas notícias

É notícia 

Entre margens

Arte de rua: amor e brilho no olhar novidade

Ouvi, pela vida fora, incontáveis vezes a velha história da coragem, a mítica frase “eu não era capaz”; é claro que não, sempre que o preconceito se sobrepõe ao amor, não é possível ser-se capaz. Coragem?? Coragem eu precisaria para passar pela vida sem realizar os meus desejos, nesse louco trapézio entre doses paralelas de coragem e cobardia.

Eternidade

A vida segue sempre e nós seguimos com ela, necessariamente, como se fôssemos empurrados pela passagem inexorável do tempo. Mas enquanto uns aceitam esse empurrão inexorável como um impulso para levantar voo – inclusive até lugares onde o tempo não domina –, outros deixam-se arrastar por ele até ao abismo. Porque quando o tempo não serve para moldar e edificar pedaços de eternidade, ele apenas dura e, portanto, a nada conduz (a não ser à morte), pois a sua natureza é durar, sem mais.

França: a Marianne de barrete frígio ficou traumatizada

Os políticos europeus em geral não sabem nada do fenómeno religioso. Pior. Fingem que sabem e não se rodeiam de quem os possa esclarecer. Entretanto, a França parece querer trilhar um caminho perigoso. Quando o governo coloca as leis republicanas ao mesmo nível da lei de Deus, faz da república uma deusa e do secularismo uma religião.

Cultura e artes

Os lugares do Papa no Iraque: uma viagem de regresso, reencontro e reafirmação de fraternidade novidade

Os lugares da viagem do Papa ao Iraque erguem memórias que abarcam desde o berço da civilização nas planícies do sul da Mesopotâmia e de toda a sua história até ao berço da expansão judaico-cristã, nos vales e montanhas entre a Assíria e a vizinha Arménia. Ali começou a viagem de Abraão, ali Francisco regressa numa visita que traduz o reencontro e a reafirmação da fraternidade. Um percurso pelos lugares da viagem, ao encontro da memória desses lugares.

Arte de rua: amor e brilho no olhar novidade

Ouvi, pela vida fora, incontáveis vezes a velha história da coragem, a mítica frase “eu não era capaz”; é claro que não, sempre que o preconceito se sobrepõe ao amor, não é possível ser-se capaz. Coragem?? Coragem eu precisaria para passar pela vida sem realizar os meus desejos, nesse louco trapézio entre doses paralelas de coragem e cobardia.

O Karimojong português novidade

O padre Germano Serra, um missionário comboniano português, acaba de publicar o dicionário mais completo da língua karimojong, uma tribo semi-nómada do Uganda por que se apaixonou há quase quatro décadas.

Precisamos de nos ouvir (22) – António Durães: Talvez a arte nos possa continuar a salvar

Por força não sei de que determinação, o meu mundo, o mundo teatral, divide-se, também ele, em duas partes. Não há Tordesilhas que nos imponha o mundo assim, mas a verdade teatral determina-o: o mundo da sala e o mundo do palco. A cortina de ferro divide esses dois mundos de forma inexorável. Por razões de segurança, mas também por todas as outras razões. E esses dois mundos apenas se comunicam, quando o Encontro, como chamavam alguns antigos ao espectáculo, se dá.

Sete Partidas

Vacinas: Criticar sem generalizar

Alguns colegas de coro começaram a falar dos espertinhos – como o político que se ofereceu (juntamente com os seus próximos) para tomar as vacinas que se iam estragar, argumentando que assim davam um bom exemplo aos renitentes. Cada pessoa tinha um caso para contar. E eu ouvia, divertida.

Visto e Ouvido

Igreja tem política de “tolerância zero” aos abusos sexuais, mas ainda está em “processo de purificação”

D. José Ornelas

Bispo de Setúbal

Agenda

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This