Deus em quarentena

| 10 Abr 20

Como deveria ser em todos os 40 dias antes da Páscoa. Somos nós que precisamos de pôr Deus em isolamento: das ideias trapalhonas, relações humanas trapalhonas quando não trapaceiras, e de uma data de coisas que mais atrapalham do que ajudam. Para uma cuidadosa revisão.

A Criação de Adão. Afresco de Michelangelo na Capela Sistina, do Vaticano.

 

Deus, em isolamento, permite o encontro com Deus sem máscara. Em todos os povos do Mundo, desde os tempos mais antigos, a ciência tem encontrado provas que sugerem a crença numa “energia” transcendente ao ser humano: mas, para cada um dos povos e em cada época, esse ser, energia ou poder transcendente usa várias máscaras, em que se misturam sentimentos, raciocínios e fantasia. O perigo continuamente à espreita é a dogmatização, a tentação de impor qual a máscara que é permitido usar.

Creio estar em linha com os motivos que levaram Mircea Eliade, o grande estudioso do fenómeno religioso, a escolher o título História das Crenças e Ideias Religiosas para uma das suas obras importantes. Deus é indefinível, filosófica e teologicamente. Os próprios livros sagrados (Bíblia, Alcorão, Upanishadas…) apenas referem os vários tipos de máscaras que atribuem ou até “vêem” em Deus.

Que máscaras de Deus lhe são atribuídas neste tempo de pandemia? Tentarei reflectir sobre algumas.

Deus é indefinível, mas não se pode negar que a história da Humanidade revela em todas as civilizações uma noção de Deus:

Aprofundando a etimologia de noção, na linha de autêntica arqueologia do pensamento, vemos que o radical indo-europeu gno inclui a ideia de nascer, gerar, poder. Estes sentidos (não totalmente aceites por alguns especialistas) referem o acto genuinamente humano de reflectir sobre o que conhece da realidade, explorá-la e, deste modo, aumentar o poder – sobre coisas e pessoas. O âmbito semântico do derivado latino nosco implica uma acção começada e não acabada: começar ou aprender a conhecer, tomar conhecimento… Outras línguas incluem claramente o sentido de atrever-se perante o desconhecido: examinar, tencionar, expectar…; e ainda: conhecer familiarmente (portanto, bastante bem). Tenhamos presente o “conhecer” bíblico (eufemismo expressivo da intimidade da relação sexual). Em português, predominam os sentidos de conhecimento intuitivo, elementar ou superficial. É a ausência de complexidade.

Noção de Deus seria o resultado de se dar conta de algo que não se vê bem, mas que parece estar presente em tudo e, portanto, nos põe à procura do que se passa. Hoje, podemos dizer que é uma aventura sem fim – e a meu ver é a melhor definição de eternidade feliz, pois andaremos sempre por caminhos novos…

A que Deus nos dirigimos? Tiremos a máscara de Deus e fiquemos atentos àquela sensação de que encontrámos o que queríamos – e que nos foge mal queremos agarrar ou ver melhor. É cair na conta de que há um Eu que é mais do que eu (“mais íntimo do que a minha intimidade”, disse S. Agostinho).

Do que li sobre o misticismo, sobretudo no judaísmo, cristianismo e islão, guardei a impressão de que todo ele se assemelha profundamente – enquanto aprofunda Deus sem máscaras. Depois, claro está, “chamam-lhe nomes”, porque só conseguimos falar do que é definível. Daí que os termos metafísicos sejam diferentemente interpretados; e que a teologia mais profunda se chame negativa.

Devo ao padre jesuíta Júlio Fragata, meu professor e orientador, e que faria 100 anos no próximo dia 27 deste mês de Abril, um estudo profundo do cardeal Nicolau de Cusa (1401-1464), baseado na célebre obra De Deo Abscondito (O Deus escondido).

“Adoro Deus porque não o posso definir.” “É louco quem julga saber aquilo que não se pode saber.” Este cardeal não podia ser canonizado, provavelmente nem hoje, embora se dê cada vez mais razão à teologia negativa: nenhum dos nossos conceitos se pode aplicar a Deus, porque ele é, para nós, o que está para além dos nossos sentimentos, desejos e razões. Se dizemos que é Luz, Verdade, Amor, Beleza… apenas lhe queremos atribuir o que tem mais valor consensual para o ser humano.

Termino com algumas ideias centrais (sem pôr aspas e mantendo o discurso na primeira pessoa) de uma magnífica conferência do rabino Dow Marmur, em 1982 (Londres):

Sinto-me realizado, devido à sabedoria que posso descobrir na tradição e escrituras do judaísmo. Estudar estas fontes de sabedoria abre-nos a inteligência e o espanto, que darão origem à fé. Uma pessoa ignorante não pode ser verdadeiramente religiosa. Toda a vida é um chamamento para meditar e praticar a fé. É isso o espírito do Sábado.

Um verdadeiro judeu tem que se reconhecer como um elo na longa corrente da Humanidade. Esforça-se por compreender o presente e as razões do passado para melhor responder aos desafios do presente e futuro. Israel é historicamente o resultado da luta do espírito do hebraísmo com as civilizações que foi e vai encontrando: são encontros essenciais para enriquecer os valores fulcrais de Israel (“forte contra seres divinos e humanos», nome que o Anjo de Deus pôs a Jacob, depois de uma luta entre os dois e em que Jacob venceu, apesar de ficar muito ferido (Genésis 32,29). Pois todos os acontecimentos são perigo e oportunidade: aniquilamento ou nova vida. Assim nos aconteceu com o Holocausto. E lutamos para que nada do género possa acontecer novamente.

A experiência do sofrimento habilitou-nos a compreender e minorar o sofrimento alheio. O sofrimento é ocasião para afirmar a vida. E a alegria de sobreviver deve ser partilhada e celebrada com todos. Para isso são importantes os encontros de família e da comunidade religiosa, onde o rabi tem a função de catalisador. Deus só pode ser encontrado na partilha desta sabedoria, nesta fé comunitária de vencer.

Podemos falar a Deus, mas não sobre Deus. Se objectivarmos Deus, não nos poderemos relacionar verdadeiramente com ele.

No meio de tudo o que possa acontecer, a esperança é, pois, a função especial da minha vida religiosa. Não se trata de esperar pela vinda do Messias, mas de caminhar cada dia ao seu encontro.

Na base deste testemunho, diria que orar é intuir Deus nas nossas frustrações e tragédias, bem como no sucesso: procurando descobrir o sentido positivo do esforço de cada um de nós para realizar a felicidade – a felicidade da comunidade humana, sem máscaras.

 

Manuel Alte da Veiga é professor universitário aposentado.

Obra citada: Daw Marmur, The God of my Fathers – the God of my Children (1982), in: D. B. Fry (Editor): The Nature of Religious ManTradition and Experience.

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