Deus está infinitamente para além do medo

| 22 Mar 21

Tornado

“Acreditar em Deus e temê-lo como se ele não passasse de um génio caprichoso não é, de facto, acreditar n’Ele. É só ter medo; é só desejar aplacar uma força hostil para não se ser fulminado.” Foto © Nikolas Noonan / Unsplash

 

Acreditar em Deus será necessariamente viver no medo do imprevisível? Só se crermos num deus caprichoso, que ora nos dá graças, ora nos dá dores, independentemente do que façamos, como a Job. É verdade que a desgraça se pode abater sobre qualquer um. Alguns defendem, porém, que dispensar Deus ou deuses e limitar-se a um estrito naturalismo nos isenta de medos supersticiosos, como já a escola filosófica epicurista defendia. É que a natureza não tem caprichos nem humores…

Se antigamente se personificavam forças da natureza para melhor as manipular (ou disso ter a ilusão), pois a natureza era incompreensível, mistério tremendo e fascinante, julga-se hoje que tudo está ao alcance da compreensão (e da manipulação); por isso bem se dispensam deuses. Tudo é “natural”.

Mas o “naturalismo”, por si só, também não nos livra do medo, pois há muito que ainda não somos capazes de compreender e muito menos manipular, a começar pela própria morte. A consideração da realidade como reduzida ao material e biológico, ainda que como fonte de complexidade, evolução e emergência, não é capaz (ainda, pelo menos) de dar conta de realidades tão extraordinárias e complexas como a consciência. Além do mais, retirar à realidade um fundamento metafísico é essencialmente esvaziá-la de sentido, teleologia, o que no ser humano “naturalizado” significa um esvaziamento ético. O mesmo é dizer, uma perda de sentido teleológico ou escatológico do humano que deriva numa absolutização do eu individual e do tempo presente, culminando numa moral egotista. Pressupõe, uma vez mais, um retorno a um epicurismo que valoriza sumamente a ausência de dor ou prazer como bens supremos da vida humana.

Acreditar em Deus e temê-lo como se ele não passasse de um génio caprichoso não é, de facto, acreditar n’Ele. É só ter medo; é só desejar aplacar uma força hostil para não se ser fulminado. É essencialmente crer num ídolo que é uma lucubração pueril da imaginação, pura superstição. Crer num deus assim é crer numa mesquinhez, e condenar-se a si próprio à mesquinhez. Crer verdadeiramente é crer para além de toda a mesquinhez, pois aquilo em que se crê não é senão o próprio Infinito Bem, que é infinita justificação do próprio Ser no Ser, da Totalidade em si mesma. Colocamo-nos, desse modo, no coração desse Bem, alinha-se a nossa existência individual com esse poder absoluto que tudo realiza, justifica e completa. No fundo, Deus é promessa de realização no Horizonte do Infinito, promessa de Justiça no Ser, por isso a fé verdadeira é existencial, isto é, empenha a vida toda, porque trata-se de responder com a inteireza da vida à mais suprema das vocações.

Não se pode afirmar que se tem fé com o coração e a inteligência se se crê num deus mesquinho, num demónio caprichoso, que é tudo menos o Horizonte mais elevado de realização no Ser – que é o que de mais alto podemos pensar e intuir, e o mais alto a que podemos aspirar. O deus em que se acredita não pode ser inferior ao bem a que se aspira, à justiça que se deseja, à plenitude que se imagina; enfim, à radical sede que se tem.

Só se crê completamente quando a fé se traduz em obras. Crer é superar o medo; é abrir-se, é dar-se, é entregar-se. A fé não é fé se é só teoria, pois ela alimenta e alimenta-se da vida e das suas lutas. O deus pode chamar-se “Deus Vivo” e “dos vivos”, precisamente porque nos chama à vida e está connosco nos nossos combates, assiste-nos na nossa luta para ser. Quer, no fundamental, que não tenhamos medo de ser, medo de ser realmente livres. Porque é necessário que sejamos, é necessário que nos realizemos. Assim, não temos de fugir de Deus, mas sim desse demónio que não passa de uma lucubração infantil dos nossos medos que nos paralisa e confina em nós mesmos, tornando-nos estéreis de tudo. Deus é promessa de que nada se opõe ao cumprimento do que somos; nada, senão a nossa própria ignorância, a nossa vileza, os medos que alimentamos. Nada senão a nossa falta de tenacidade para perseverar no que somos, na disciplina das nossas virtudes, exercitando a nossa liberdade e dando fruto de acordo com as melhores promessas da nossa natureza.

É evidente que tudo pode acontecer. Há muito que podemos evitar, mas também muito que não depende do nosso arbítrio. O inesperado é uma realidade, e ninguém está isento de dor enquanto viver. Mesmo quando dá o melhor de si. Mas a dor e o sofrimento não são, em si mesmos, males absolutos, e podem frequentemente ser o prólogo de bens maiores. O essencial é acreditar que no coração do Real habita o Bem Absoluto, princípio e fim de Tudo, e que enquanto crermos no Bem e lutarmos pelo Bem dentro das nossas capacidades, a nossa justificação está garantida, aconteça o que nos acontecer.

 

Ruben Azevedo é professor e membro do Ginásio de Educação Da Vinci – Campo de Ourique (Lisboa).

 

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