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Irmã Maria Helena Aguiar. Foto DR
Maria Helena Aguiar era a segunda freira mais velha do mundo e a mais velha da Península Ibérica. Foto: Direitos reservados

Irmã Maria Helena Aguiar (1913-2025)

Deus no céu e o piano na terra: a freira que deu aulas de música até depois dos 100

| 17/10/2025

 

Teria enchido as maiores salas de espetáculos do mundo só para a ouvirem tocar… Pelo menos, era isso que dizia o professor de piano de Maria Helena Aguiar, que não quis acreditar quando a sua melhor aluna anunciou que tinha outros planos: ingressar na Congregação das Irmãs Doroteias e dedicar a vida a Deus. Mas ao contrário do que ele poderia pensar, Maria Helena, que ficaria conhecida como Irmã Aguiar, não largou nunca o piano, instrumento que ensinou (e continuou a estudar) até depois dos cem. Morreu no passado dia 7 de outubro, aos 111 anos (quase 112!), o mesmo dia em que assinalava o 84º aniversário do dia em que abraçou a vida religiosa, e com a certeza de que essa foi a escolha certa.

Nascida a 2 de novembro de 1913, em São Tomé e Príncipe, Maria Helena Aguiar veio para Portugal aos três anos, e logo aí começou a estudar piano. Viveu em Braga até aos sete, altura em que a família se mudou para Lisboa, e continuou a ter aulas em casa. O fascínio pelo instrumento era tal que acabaria por se inscrever no Conservatório, aos 15 anos. Estudava, no mínimo, seis horas por dia, mesmo que isso implicasse renunciar a outras atividades de que também gostava, como fazer rendas de bilros e ir a “bailaricos”. E aos 17 já tinha concluído o curso superior, com a classificação máxima de 20 valores, continuando depois a aperfeiçoar a sua técnica, com aulas particulares, durante mais sete anos, com o prestigiado professor Marques Garin.

Paralelamente, começou também ela, aos 18 anos, a dar lições de piano (e só viria a parar aos 106!) Uma prima, que era muito amiga de uma irmã doroteia, disse-lhe então que a congregação ia abrir um internato para meninas em Viseu, onde precisavam de uma professora de piano. Aceitou a missão mais para fazer a vontade à prima do que por outra coisa, mas, ao contrário do que esperava, ficou encantada. Costumava dizer que “foi amor à primeira vista: com as freiras, com o ambiente, com tudo…”. Passou então a dormir no colégio e, durante um ano, de cada vez que ia a casa, tinha sempre imensas saudades do colégio. No ano seguinte, decidiu entrar para a Congregação.

“Pensava que a Maria Helena tinha juízo, e afinal enganei-me! A menina, que podia ir tocar até à Rússia, vai agora enfiar-se num convento! Vá, vá, que quando voltar ficarei muito contente!”, disse então o professor Garin. E não foi apenas ele que se zangou com a decisão: os pais de Maria Helena também.

Mas a jovem tinha as ideias bem claras: “Embora o meu professor de piano tivesse querido que eu fosse concertista, ao tirar o curso pensei sempre em ensinar. Depois quando, aos 28 anos, fui para freira – sem me ter despedido de quase ninguém porque toda a gente me ralhava – cortou relações comigo achando uma insensatez eu dar esse passo… Mas nunca me arrependi de ser professora de piano nem de ser freira!”, disse a irmã Aguiar num programa de TV, quando a entrevistaram nas vésperas de completar 99 anos. E acrescentou: “Tive alunos mesmo quando tocar piano não era moda. E ainda hoje tenho 17, o mais novo com cinco anos. Todos os dias dou aulas exceto ao sábado, toco e estudo piano. Vou a concertos, desde que arranje quem me acompanhe. Não oiço mais música, por falta de tempo: como também gosto muito de ler, ou faço uma coisa ou outra.” E logo a seguir tocou com impressionante vigor e agilidade a peça de Mozart La Tartina di Burro.

Fã de José Saramago, mas também de revistas “cor de rosa”, diz quem a conheceu que soube acompanhar a evolução num mundo que tão rápidas transformações sofreu ao longo das últimas décadas e renovar constantemente a motivação para ensinar tantas gerações de alunos, a quem se dedicava de alma e coração.

Trabalhando sempre como professora de piano, viveu nove anos no Colégio do Sardão, em Vila Nova de Gaia, dois anos no Colégio de Santa Doroteia, em Lisboa, e desde então no Colégio da Paz, no Porto, onde durante treze anos acumulou funções docentes na Escola de Educadoras da Congregação (hoje Escola Superior de Educação Paula Frassinetti), além de se envolver em todas as iniciativas que implicassem música, como a preparação dos coros para as cerimónias religiosas tanto no Colégio como na Igreja Paroquial de Nossa Senhora de Fátima.

Era a segunda freira mais velha do mundo, só ultrapassada em poucos meses por uma religiosa dominicana norte-americana, e a mais velha da Península Ibérica. Após a sua morte, na semana passada, multiplicaram-se nas redes sociais os comentários de inúmeros ex-alunos – entre as centenas que lhe passaram pelas mãos – onde lhe reconhecem a extraordinária aptidão para ensinar e entusiasmar todos, mais novos ou mais velhos, para o estudo da música. A música que tanto amava e que se tornou uma forma de oração e de missão, até ao fim da sua longa vida.

 

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