Deus pode ir de férias…

| 6 Fev 19 | Entre Margens

A denominada Teologia da Prosperidade começa a dar lugar à Teologia do Coaching em determinados círculos cristãos. Substituiu-se a fome pela vontade de comer. Sendo assim, Deus pode ir de férias…

A chamada teologia da prosperidade – um fenómeno religioso de origem norte-americana – tem causado inúmeras divisões e confusões no mundo evangélico à escala global. Nos últimos anos muitos dos seus profetas foram desacreditados e outros admitiram erros doutrinários significativos. A partir dos anos setenta o neopentecostalismo agarrou com unhas e dentes esta doutrina, com resultados nefastos para as populações das periferias, os mais pobres, menos esclarecidos e os desesperados. A ideia do sucesso aqui e agora, para todos, com base na contribuição financeira e numa espécie de fezada só vai acrescentando ilusão ao desespero. Esta teologia ajudou a redefinir o campo religioso protestante, a sua relação com a lógica do mercado neoliberal e a aspiração de ascensão social de muitas pessoas, afastando-se da ética protestante da modernidade analisada por Weber.

Mas agora a nova moda é a Teologia do Coaching, que se vem a instalar nestes meios religiosos como substituta da prosperidade. A pregação do Evangelho, que anteriormente já tinha cedido lugar ao discurso da prosperidade fácil, transformou-se agora numa arenga de auto-ajuda. O coaching é um conjunto de recursos, técnicas e ferramentas de administração, psicologia, neurociência, gestão de recursos humanos e planeamento estratégico, entre outros, com vista a atingir os resultados desejados tanto a nível profissional, social e familiar, como espiritual e financeiro. A ideia é que um profissional ajude a despertar o potencial da pessoa com vista a obter tudo o que deseja. Só que evangelho e fé cristã não combinam com coaching.

E aí temos o mercado das palestras motivacionais. Parece que a nova religião do homem moderno é o empreendedorismo. De matriz materialista, ela substituiu os santos do altar por fotografias de homens de sucesso, e os seus livros sagrados são os de auto-ajuda. O objectivo desta cultura é o sucesso, seja lá o que isso for! O problema é que o coaching tem uma vocação civil e não religiosa. As palestras motivacionais em contexto religioso são centradas no indivíduo, confundem fé com força de vontade, e evangelho com motivação. O foco está no que a pessoa pode conseguir através da sua fé. Por outro lado o coaching dá corpo à ambição de conquistar bens materiais ou espirituais num processo de autoafirmação, ao contrário da proposta do evangelho, que é auto-exame e negação de si mesmo. O pastor torna-se uma espécie de coach, procurando ir ao encontro do que as pessoas querem ouvir, afagando-lhes o ego, estimulando nos membros da comunidade de fé o seu potencial para que eles alcancem tudo o que desejam.

Ou seja, vende-se a ideia de que o potencial dos indivíduos é ilimitado e podem conquistar tudo o que querem, se fizerem muita força… Este existencialismo humanista-materialista procura responder à busca pessoal pelo significado da vida, tornando-se o âmago do pensamento filosófico. Enquanto a teoria da prosperidade regateia com Deus para que faça milagres de cariz físico, material e espiritual (Perelman e Olbrechts-Tyteca estudaram há muito os seus recursos retórico-argumentativos), a teologia do coaching afasta Deus da cena para se concentrar no potencial humano, mitificando-o.

Comparando esta filosofia com as Escrituras, vemos como o profeta Jeremias falou a um povo orgulho e que confiava em suas próprias forças e “tradição espiritual”: “Não se glorie o sábio em sua sabedoria nem o forte em sua força nem o rico em sua riqueza, mas quem se gloriar, glorie-se nisto: em compreender-me e conhecer-me, pois eu sou o Senhor, e ajo com lealdade, com justiça e com rectidão sobre a terra, pois é dessas coisas que me agrado” (9:23,24). E acrescenta mais à frente: “Maldito é o homem que confia nos homens, que faz da humanidade mortal a sua força, mas cujo coração se afasta do Senhor” (17:5-7).

No Novo Testamento não é diferente, se lermos Tiago: “Ouçam agora, vocês que dizem: ‘Hoje ou amanhã iremos para esta ou aquela cidade, passaremos um ano ali, faremos negócios e ganharemos dinheiro’. Vocês nem sabem o que lhes acontecerá amanhã! Que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa. Ao invés disso, deveriam dizer: ‘Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo’. Agora, porém, vocês se vangloriam das suas pretensões. Toda vanglória como essa é maligna” (4:13-16)

É bom que um cristão tenha sucesso profissional e financeiro, desde que isso não seja o centro da sua espiritualidade. Mas por que razão será agora necessário um “treinador” para ensinar os cristãos a viver? Já não chegam os recursos da oração, do estudo e meditação nas Escrituras, o apoio e orientação dos líderes espirituais e os benefícios da comunidade de fé? Se a teologia da prosperidade faz de Deus nosso criado, a do coaching faz do homem o centro do universo. E aí, Deus já pode ir de férias.

José Brissos-Lino é diretor do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na Visão Online.

Breves

Limpar uma praia porque o planeta está em jogo

Sensível ao ambiente, à poluição e ao seu impacto sobre o mundo animal e o planeta em geral, Sylvia Picon, francesa residente em Portugal, decidiu convocar um piquenique ecológico na Praia do Rei (Costa de Caparica, Almada), no próximo sábado, 20 de abril. A concentração será no parque de estacionamento da Praia do Rei e ao piquenique segue-se uma limpeza do areal desta praia da Costa de Caparica.

União Europeia acusada de financiar trabalho forçado em África

A Fundação Eritreia para os Direitos Humanos (FHRE) e a Agência Habeshia alertaram para o facto de o financiamento da União Europeia (UE) poder estar a ajudar na promoção de situações de semi-escravatura de militares jovens, através dos fundos para a construção de estradas na Eritreia, até à fronteira com a Etiópia, e que supostamente se destinam a combater a “migração irregular”.

Bispos do México fazem frente a Trump e ajudam migrantes nas fronteiras

Os bispos católicos do nordeste do México uniram-se para receber comboios de imigrantes que tentam entrar nos Estados Unidos da América e ficam retidos na fronteira com o seu país. Para tal estão a ser tomadas várias medidas de apoio como a criação de novos centros de acolhimento de migrantes em dioceses transfronteiriças, à semelhança do que já acontece na diocese de Saltillo.

Boas notícias

República Centro Africana: jovens promovem acordo de não-agressão entre bairros

República Centro Africana: jovens promovem acordo de não-agressão entre bairros

Dois jovens centro-africanos – Fabrice Dekoua, cristão, e Ibrahim Abdouraman, muçulmano – decidiram promover um pacto de não-agressão entre as populações dos bairros de Castores (de predominância cristã) e Yakite (maioria mulçumana), na capital da República Centro-Africana, Bangui, para tentar mostrar que é possível pôr fim à violência que assola o país.

É notícia 

Cultura e artes

As Sete Últimas Palavras

Talvez muitas pessoas não saibam que a obra de Joseph Haydn As Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz foi estreada em Cádis, na Andaluzia, depois de encomendada pelo cónego José Sáenz de Santamaria, responsável da Irmandade da Santa Cova.

Laranjeiras em Atenas

Há Laranjeiras em Atenas, de Leonor Xavier (Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2019) reúne um conjunto diversificado de textos, a um tempo divertidos e sérios, livro de memórias e de viagens, de anotações e comentários… O gosto e a surpresa têm a ver com pequenos pormenores, mas absolutamente marcantes.

Pessoas

O franciscano que é o melhor professor do mundo

O franciscano que é o melhor professor do mundo

O título de “melhor professor do mundo” foi atribuído no final de Março a um queniano de 36 anos, Peter Tabichi. O titular da distinção, frequentemente considerada como o “Nobel da educação” ou o “Nobel dos professores”, é também frade franciscano. O Global Teacher Prize tem sido concedido anualmente, desde há cinco anos, pela Fundação Varkey, do Dubai.

Sete Partidas

Uma gotinha do Tamisa contra o “Brexit”

Mas o meu objectivo número um para a visita neste sábado era o de participar na grande e anunciada manifestação contra o Brexit. Quando cheguei junto ao Parlamento já lá estava tudo preparado para as intervenções políticas.

Visto e Ouvido

Agenda

Entre margens

A Páscoa como escândalo

A falta de compreensão do sentido da Páscoa tornou-se generalizada no mundo ocidental, apesar de a celebrar, por força da tradição e da cultura. A maior parte dos que se afirmam cristãos revela enorme dificuldade em entender o facto de a época pascal ser a mais significativa no calendário da fé cristã.

Jesus Cristo, o estrangeiro aceite pelos povos bantus

Jesus Cristo é uma entidade exterior aos bantu. É estrangeiro, praticamente um desconhecido, mas aceite pelos bantu. Embora se saiba de antemão que Jesus é originário do Médio Oriente e não português, povo que levou o Evangelho para África. Parece um contrassenso?

Papa Francisco: “Alegrai-vos e exultai”. Santidade e ética

No quinto aniversário do início solene do seu pontificado, a 19 de março de 2018 (há pouco mais de um ano), o Papa Francisco publicou a Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, “sobre a santidade no mundo atual”. Parte do capítulo V da Constituição do Vaticano II, Lumen Gentium. Aí se propõe a santidade para todos os cristãos, entendida em dois níveis: a santidade como atributo de Deus comunicada aos fiéis, a que se pode chamar “santidade ontológica”, e a resposta destes à ação de Deus neles, a “santidade ética”.

Fale connosco