“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”: temos que fazer constar

| 15 Out 19

Em função de um estudo que li sobre uma das culturas moçambicanas, a macua, um povo de Nampula, escrito por Helena Assunção, em 2018, comecei a delinear um sonho: o dia no qual mais elementos do Património Cultural Imaterial do meu país ascendam, à semelhança da timbila e do nyau, à categoria de Património Cultural Imaterial da Humanidade (PCIH).

Recordo que existem, em Moçambique, considerando a tipologia mais recente que encontrei sobre estudos moçambicanos, referente ao ano de 2010, os seguintes grupos étnicos: Bitonga, Tsonga e shopi, Nguni, Tsonga, Complexo Zambeze, Shona, Maconde, Macua-lomwé, Yao, Marave, Swahili. Devo referir também que é óbvio que a capulana, embora seja oriunda de fora de Moçambique, é moçambicana, além de que é dos poucos objectos culturais comuns a todos os moçambicanos. Mas não é sobre a capulana que faço a apologia de elevação a PCIH. Faço-o considerando os seus modos de utilização pelo grupo étnico macua, que certamente diferem dos dos outros povos.

O estudo a que me referi no início deste texto, descrevia como é que, a partir de modos de amarrar a capulana ou de a colocar em determinados lugares, se poderia obter diferentes tipos de informação sobre o estado da mulher, nomeadamente, se ela é casada, viúva, virgem, recém-menstruada, se se encontra em período de menstruação, em conflitos conjugais ou com filhos nos ritos de iniciação. Os modos de colocar a capulana também podem revelar acontecimentos sociais, designadamente cerimónias fúnebres (tratamento de cadáver, antes do seu enterro), festas, ritos de iniciação ou outros tipos de celebração de alegria. Aprendi, a partir desse trabalho, inúmeros valores simbólicos e identitários que podem ser transmitidos com recurso a formas de utilizar a capulana.

Considerando o estudo e a definição sobre o que é Património Cultural, percebi o quão espantoso é ter-se através de práticas sociais tão comuns no dia-a-dia, informações imensas, intensas e distintas. Aliás, devo dizer que o que tem sido elevado a PCIH são bens sui generis, aqueles que, do ponto de vista histórico e do ponto de vista da ancestralidade, são susceptíveis de preservar a identidade dos povos e, por isso, devem ser guardados para as gerações vindouras.

Isso levou-me a ir ler sobre a timbila e sobre o nyau, para perceber as razões que tinham sido consideradas para essas manifestações culturais serem classificadas como Património Cultural da Humanidade. Só para deixar claro, a timbila é composta por orquestra musical, com dança e música de instrumentos de produção artesanal e materiais especiais. Há ainda poesia recitada através de canções que, na maior parte das vezes, dão instruções para a vida em comunidade. É também uma manifestação artística lúdica, característica do povo chope. Foi elevada a PCIH em 2005. O nyau é composto por dança ao ritmo de instrumentos musicais de produção artesanal, poesia cantada, que instrui para a vida em comunidade (práticas ancestrais, ritos de iniciação, rituais fúnebres, etc). É ainda um meio de diversão e de contestação política. É típico património cultural de três países vizinhos (Zâmbia, Malawi e Moçambique) e foi elevada a PCIH, também, em 2005.

A partir das aulas sobre Cultura Moçambicana que lecciono, tenho verificado o quão os alunos se sentem sedentos de ter mais convívio com exemplos dos nossos valores culturais mas não os conhecem ou, por termos passado, como país, por inúmeros anos de negação das nossas culturas, chega-se ao ponto de haver uma confusão em perceber o que é ou não cultura e que bens podem ser “patrimonializáveis” ou elevados à tão desejável categoria de bem da humanidade.

Disse-lhes um dia que devemos ousar sonhar o nosso país, colocá-lo em patamares internacionais através da nossa cultura. Perguntaram-me eles que bens poderiam ser tão bem comercializáveis, a ponto de renderem tanto para a economia e o turismo e contribuírem para o desenvolvimento deste país. Referindo-me ao estudo sobre os modos de amarrar e de colocar a capulana, ora mencionado, disse-lhes: temos de fazer trabalhos de campo sobre os povos de Moçambique; façam uma pesquisa etnográfica, mas eu cá por mim vos asseguro que já posso considerar que os modos de amarrar e de colocar a capulana dos macuas já podem ser elevados à categoria de PCIH, dada a diversidade de informação que transmitem, a partir das suas práticas de utilização. Precisamos é de fazer uma distinção clara ou de verificar se são as mesmas práticas, tanto no litoral, quanto no interior da província de Nampula.

Eles perguntaram-me se não estaria a ser ousada, porque na óptica deles, esse trabalho deveria ser realizado pelo Ministério da Cultura e Turismo. Respondi-lhes que os cidadãos tinham o direito de sonhar, pesquisar e depois sugerir ao ministério da tutela, para que tratasse dos trâmites legais, após todas as consultas necessárias. Claramente, percebi que tinham relutância em acreditar e tive que percorrer com eles toda a legislação sobre a cultura no país, para perceber se eu tinha o direito a sonhar.

Nessa pesquisa, encontrámos três leis, duas resoluções, dezasseis decretos e sete diplomas, dentre as quais, a resolução n.º 12/97 de 10 de Junho que, no seu artigo 8.1.2, fala sobre o papel da sociedade civil na promoção da cultura. Aí, sim, os alunos disseram-me: “Podemos sonhar, professora”, sonhemos! Recordei-lhes uma parte do nosso hino nacional que fala em sonhos e que diz assim: “Na memória de África e do mundo/ pátria bela dos que ousaram lutar, Moçambique o teu nome é liberdade ….” e, depois disso, alguns deles disseram: sonhemos, coloquemos o nome do nosso país no mapa, no mundo!

É nesse sentido que acredito poder iniciar um trabalho, a partir do qual possamos sugerir a classificação da prática cultural dos modos de amarrar e de colocar a capulana como PCIH, à semelhança da timbila e do nyau. Atrevo-me, sem preconceitos, a sugerir que essas práticas sejam elevadas a tão alta categoria. Temos imensos bens culturais, materiais e não materiais, mas sem um tombo, sem os registar, sem os classificar, não podemos constar no mundo. Ficamos à mercê do desconhecimento que, para além de ser entre nós próprios, é entre nós e os de fora.

Existem estudos sobre o Património Cultural Imaterial, mas poucos. Destaco dois de abrangência nacional: um realizado entre 1975 e 1985, no qual são anotados alguns dos bens do património cultural imaterial moçambicano e o outro, a partir de uma reunião nacional realizada em 1993, na qual os relatórios das diferentes províncias moçambicanas destacavam a necessidade de que, a nível nacional, se começasse a valorizar as culturas moçambicanas, nomeadamente o vestuário, a gastronomia, as danças, canções, etc.

Em síntese, tal como a timbila e o nyau, que pela multiplicidade de performances, pela sua originalidade e pela sua ancestralidade são manifestações culturais que foram mapeadas, descritas e documentadas, depois classificadas como PCIH, auguro o dia no qual os modos de amarrar e de colocar a capulana, prática do povo macua, possam ser, após o devido mapeamento e classificação, elevados à Património Cultural Imaterial da Humanidade. Temos que constar!

 

Sara Jona Laísse é docente de Cultura Moçambicana na Universidade Politécnica de Maputo e membro do Graal (Movimento Internacional de Mulheres Cristãs) – Moçambique. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br

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