Deus sem máscaras

| 6 Abr 20

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Ilustração: Pixabay.

 

Assisti à cerimónia da consagração ao coração de Jesus e ao coração de Maria, proposta pelos bispos de Portugal, Espanha e outros países. Um ponto de partida para reflectir sobre oração e rito.

Não escrevi Coração (com maiúscula) para chamar a atenção que é a Jesus e a sua Mãe que nos dirigimos. O coração é tradicionalmente o centro simbólico de qualidades como bondade, carinho e fortaleza. Simboliza a pessoa total – que tem bom ou mau coração.

É natural esta imagem humana do Mistério de Deus. Todas as religiões têm cenários semelhantes. Mas estes fenómenos são pura fantasia se nos esquecermos de que são apenas símbolos do indizível mistério do Deus. O Vaticano II abriu “oficialmente” a porta ao reconhecimento de que ninguém se pode arrogar a possuir o verdadeiro conceito de Deus. Tanto o chamado Antigo como o Novo Testamento reconhecem que não é possível conhecer o mistério de Deus. Lembro a propósito a frase evangélica atribuída a Jesus: “Em casa de meu Pai há muitas moradas”; assim como o grande banquete para o qual toda a espécie de gente foi convidada – apenas um foi posto na rua, por não se apresentar devidamente. Creio que o critério de não-admissão ou de expulsão é a bem-aventurança dos “puros de coração”, no sentido de que se falou acima.

A maneira de rezar a Deus depende da noção e imagem que temos de Deus. Por isso, os inovadores religiosos e mestres espirituais introduzem modos peculiares de oração. Os próprios discípulos de Jesus pedem-lhe que os ensine a orar “como João ensinou aos dele” (Evangelho de Lucas 11,1).

No Pai Nosso, supera-se o egoísmo humano ou a tentativa de manipular Deus; e tomamos consciência da nossa responsabilidade. Pomos em Deus a máscara (a mais valiosa que podíamos dar) de Pessoa com quem nos relacionamos; e nós tiramos a nossa máscara de uma total e intocável autonomia humana. Compreendemos que o rosto de Deus se foi configurando ao longo da história humana, adquirindo as mais diversas formas em cada religião, umas ingénuas, estranhas, assustadoras ou mesmo terríveis, e outras mais elaboradas. Todas resumem a universal experiência de Deus. No caso do cristianismo, convém meditar na experiência bíblica até culminar no Deus de Jesus de Nazaré.

Mudar a “petição” para “desejo” é boa estratégia para subir o nível da oração. Basicamente é o desejo da plenitude. Assim, não “desejamos, pedindo” mas “desejamos, desejando”. Deus é alguém para quem é bom olhar e com ele entramos num compromisso libertador.

Sentimos que é Deus que nos pede para não sermos contrários ao seu amor. E que precisamos de descobrir as brechas do mal e formar uma comunidade determinada a fazer prevalecer o que é bom.

Os nossos conceitos e hábitos de orar levantam muitos problemas e bloqueamentos. Mas também muita gente realizou com êxito a aquisição de modos mais ricos de orar e ganhou uma profunda experiência da originalidade e do amor de Deus.

Aprofundamos a consciência da transcendência de Deus e da sua presença mesmo quando parece ausente.

O que é evidente em Jesus: ao orar «”toda a noite”, é um contemplativo da riqueza e força de Deus. Descobre que ele é Abba, fonte de alegria e confiança. Assim nos ensinou no Pai-Nosso: começa pelo desejo ardente e abertura à iniciativa divina, confiando em que vale a pena viver (com alguma coisa para comer…) e que “homens e deuses” têm o rasgo específico de perdoar. Perdoar custa e é muitas vezes mal interpretado. E não é preciso falar muito (Mateus 6,7). Precisamos de falar com Deus com a confiança de um filho.

A adultez, por si, é entendida como não ter que viver às custas dos pais: sabendo que estes só desejam sucesso para o trabalho dos filhos. Uns e outros festejam a Páscoa como libertação – para uma vida melhor, um mundo melhor. O Pai-Nosso educa-nos sobre a verdade de Deus: não é um pronto-socorro – mas desafia-nos a crer no seu amor “inacreditável”.

 

Aveiro, 3 de Abril de 2020

Manuel Alte da Veiga é professor universitário aposentado.

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