Dezenas de bebés nascidos de “barrigas de aluguer” retidos na Ucrânia devido à pandemia

| 20 Mai 20

Mais de cem bebés nascidos por gestação de substituição estão retidos na Ucrânia, porque os pais adotivos, de nacionalidade estrangeira (entre os quais alguns portugueses), não têm permissão para ir buscá-los, devido ao encerramento das fronteiras, avançou a agência Reuters. Se o confinamento for prolongado, este número poderá atingir um milhar dentro de poucas semanas, alertou a deputada responsável pelo pelouro dos direitos humanos no Parlamento de Kiev, Lyudmyla Denisova.

A situação foi denunciada por uma das maiores empresas da indústria de gestação de substituição na Ucrânia, a BioTexCom, que decidiu divulgar um vídeo dos bebés retidos para sensibilizar o público e incentivar o Governo a agir, dando permissão aos pais para irem buscar as crianças. No entanto, as autoridades defendem que só podem permitir a entrada dos mesmos na Ucrânia se receberem um pedido da embaixada competente e algumas embaixadas, nomeadamente a francesa, estão a recusar fazê-lo.

No vídeo, é possível ver 35 desses bebés deitados em berços dispostos em filas, num dos edifícios da empresa, conhecido como o Hotel Veneza, e diversas amas a cuidar deles. Uma pediatra e um advogado da BioTexCom garantem que os bebés estão bem. “Têm comida e temos funcionários suficientes para cuidar deles, mas nada substitui os cuidados dos pais”, afirma Denis Herman no final do vídeo. “Tentamos mandar fotografias das crianças aos pais, fazer videochamadas, mas nada disso substitui o contacto direto.”

Ao contrário do que acontece em outros países, a Ucrânia permite que casais estrangeiros recorram a esta prática, desde que sejam heterossexuais e comprovem ter problemas de fertilidade. A procura tem sido cada vez maior e estima-se que sejam adquiridos, em média, 2.500 bebés por ano naquele país, principalmente por parte de casais dos Estados Unidos, China, Reino Unido, Suécia e Irlanda.

 

Bispos católicos criticam “atropelo da dignidade humana”

A situação exposta pela BioTexCom já mereceu duras críticas dos bispos católicos na Ucrânia, segundo noticiou a Renascença. Num comunicado conjunto dos bispos da Igreja de rito latino e dos bispos da Igreja Greco-Católica, que é a maior comunidade católica de rito oriental do mundo, lamentam que a prática seja permitida no país.

“A gestação de substituição, isto é, o tratamento de pessoas como um produto que pode ser encomendado, manufaturado e vendido e que, infelizmente, é permitido pela legislação ucraniana, constitui um problema e atropela a dignidade humana”, escrevem. “Dificilmente se pode imaginar tal demonstração de desrespeito pela dignidade humana” quer dos bebés, quer das suas mães, dizem ainda os bispos.

“Exigimos que as autoridades prestem finalmente atenção à política familiar na Ucrânia e criem um órgão estatal para lidar com as famílias ucranianas, garantindo que as mães ucranianas não se vejam na situação de venderem os seus corpos e os filhos que carregam para poderem garantir a sua própria sobrevivência e a dos seus parentes”, apelam os bispos católicos da Ucrânia.

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