Dia da Europa: um requiem, dois poemas e “Os Lusíadas” lidos por europeus

| 9 Mai 20

União Europeia. Bandeira

Os Trabalhadores Cristãos querem que os governos europeus acompanhem a solidariedade dos profissionais, a presidente da Comissão diz que os sonhos fundadores são mais válidos que nunca e Os Lusíadas podem ser lidos em 17 línguas diferentes como manifestação de diversidade. E ainda há um poema como bónus. O Dia da Europa assinala-se neste 9 de Maio.

 

O Movimento dos Trabalhadores Cristãos da Europa (MTCE) diz que a União Europeia deve responder à onda de solidariedade e reconhecimento de todos os trabalhadores – os “santos quotidianos”, como diz o Papa Francisco – que têm garantido o funcionamento das sociedades apesar da pandemia. A resposta deveria chegar ao ponto de “ver estas dinâmicas nas instâncias que nos governam e também nas empresas onde trabalhamos”.

Num comunicado com o título “Requiem por uma Europa que deve morrer, poema a uma Europa sonhada”, divulgado a propósito do Dia da Europa que se assinala neste sábado, 9 de Maio, o MTCE acrescenta: “Ninguém duvida que, dependendo de como a Europa enfrente a reconstrução económica e social depois da pandemia, a sua existência terá sentido (porque cumpre uma função) ou se desmoronará.”

O Dia da Europa assinala a data em que o então ministro francês dos Negócios Estrangeiros, fez o discurso que ficaria conhecido como Declaração Schuman, faz neste dia 9 precisamente 70 anos. Foi com esse discurso que se abriu o caminho para construir o que é hoje a União Europeia.

O MTCE justifica: “Dói-nos ver como na Europa e nas instituições comunitárias os governos dos Estados membros reproduzem, em interesse próprio, dinâmicas que já se deram, sem ir mais longe, na crise financeira de 2008, e que devem ser superadas neste momento tão grave.”

Citando dados da Organização Internacional do Trabalho, segundo os quais pode haver pelo menos 12 a 15 milhões de empregos perdidos na Europa, o documento acrescenta que é importante aprendermos todos com o que se está a passar: “Há que fortalecer os sistemas públicos de saúde e da protecção social; aplicar políticas de regulação para proteger os trabalhadores; reconstruir o tecido produtivo e industrial de proximidade que proporcione condições laborais dignas e minimize o prejuízo ao meio ambiente e que os cidadãos paguem um preço justo por estes produtos eticamente produzidos.”

É o momento, também, de “exigir aos grandes actores do sector privado empresarial – que na história recente beneficiaram do resgate público, como, por exemplo o sector bancário – um compromisso económico e ético e uma distribuição mais equitativa do excedente que criam nesta reconstrução”, lembra o MTCE.

O comunicado coloca ainda o acento naquilo que deve ser o “poema” a sonhar: políticas de financiamento comum, aceitação da interdependência, afastamento definitivo do populismo, do fabrico e tráfico de armas, da marginalização do diferente e da rejeição do imigrante. E também o cancelamento das dívidas dos países pobres, que já foram “sobejamente” pagas.

Agora é o tempo de construir “um modelo produtivo socialmente mais inclusivo, baixo em carbono e ambientalmente mais sustentável”, pede ainda o MTCE. E, citando o Papa Francisco, na carta aos movimentos populares, diz que “agora, mais do que nunca, são as pessoas, as comunidades, os povos os que devem estar no centro, unidos para curar, cuidar e partilhar”. E, apresentando a Europa sonhada, este movimento católico acrescenta que a Europa deve ser “fiel a si mesma”, querer “que todos os seus filhos vivam com plenitude a sua condição humana e a sua dignidade de filhas e filhos de Deus” e ter “o coração aberto a todos os ventos de justiça, um coração misericordioso para proteger os seus filhos mais débeis e para acolher os pobres que batem” às suas portas.

 

Apelos mais válidos que nunca, diz Ursula von der Leyen

Uma Europa “unida e solidária” também são os votos da actual presidente da Comissão Europeia. Numa entrevista ao portal de notícias Vatican News e ao jornal L’Osservatore Romano, Ursula von der Leyen refere que o sonho de Robert Schuman e dos “pais fundadores” ainda está vivo e pode ajudar os povos europeus a superarem a crise provocada pela pandemia, reforçando as bases da solidariedade.

“A União Europeia mudou para melhor o destino do nosso continente. Nasceu das cinzas de uma crise que devastou o continente. É em tempos de crise como a que estamos vivendo que se pode apreciar o seu verdadeiro valor”, diz a presidente Ursula. “Para os meus pais, a Europa significava paz. Para a minha geração é liberdade e estado de direito. Para a geração dos meus filhos significa futuro e abertura ao mundo”, acrescenta.

Ursula von der Leyen afirma que, no entanto, a Europa não algo “óbvio”, mas só apreciamos a prosperidade económica, a coesão social e os direitos humanos “quando tememos perdê-los”.

Referindo-se aos chamados “pais fundadores” – Robert Schuman, Jean Monnet, Alcide de Gasperi e Konrad Adenauer, entre outros – Von der Leyen diz que os seus “apelos para uma Europa unida e solidária são mais do que nunca válidos”. E reafirma que, também na pandemia a solidariedade entre europeus tem sido uma prática importante e que mostrou que “quem olha só a si mesmo, não vai longe”.

Os nacionalismos também não vão longe, insiste, e “não têm respostas” para uma pandemia que não conhece fronteiras. “O único modo para derrotar o vírus é através da cooperação internacional e a solidariedade”.

 

“Os Lusíadas” lidos por europeus e outro poema

Quem quis celebrar o Dia da Europa também com poesia foi o gabinete do Parlamento Europeu em Portugal, que convidou 17 cidadãos de diferentes países, idades e origens distintas, a ler as primeiras estrofes de Os Lusíadas como forma de homenagear “a multiplicidade, o extravasar de fronteiras e a diversidade cultural europeia”.

O poema de Luís de Camões, justifica o gabinete do PE ilustra “uma epopeia que enaltece todo um povo, para além dos seus representantes mais ilustres”. O herói do poema é colectivo, “são todos os portugueses”, acrescenta a nota sobre a iniciativa. “Hoje a Europa quer-se aberta aos outros, permeável a outras culturas, procurando e aceitando a diversidade na pluralidade, na comunhão de contrários, na intersecção de diferenças e na tolerância mútua”, diz a mesma fonte. A leitura das estrofes escolhidas pode ser vista num vídeo preparado pelo gabinete do PE em Portugal.

 

Europa Nossa, poema de Liomarevi

O 7MARGENS tem também um poema para oferecer a quem o lê, oferecido por Liomarevi (pseudónimo literário), na véspera deste Dia da Europa.

Europa Nossa
Todos os povos são eleitos
Todas as terras são prometidas
Todos os deuses são Um só
Que É de todos

Europa, tens irmãos, não os esqueças!
Tuas línguas se recriam noutras bocas
Quem vier a ti que te respeite
A memória é semente do amanhã

Àqueles que te sugam a esperança
Lança estrelas por nascer e por pintar
Vamos, canta o teu hino que é de júbilo

E apesar das sombrias dores da provação
No teu jardim as flores se renovam
Há uma flama que te anima e salvaguarda

8 de Maio de 2020

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