[Efemérides]

Dia da Europa

| 8 Mai 2024

A paz mundial não poderá ser salvaguardada sem esforços criativos que estejam à altura dos perigos que a ameaçam.
Declaração Schuman, 9 de maio de 1950.

 

Celebra-se, a 9 de maio, o Dia da Europa, evocando a Declaração Schuman, proferida a 9 de maio de 1950, a qual constituiu o primeiro passo para a construção de uma Europa unida, tendo a paz como alicerce fundador. Decorridas um pouco mais de sete décadas desde esse desejo inaugural e a um mês das eleições para o Parlamento Europeu, a Europa vive hoje talvez um dos momentos mais críticos.

Há cinco anos, nas vésperas das eleições europeias, chamava a atenção para alguns dos problemas que a Europa então enfrentava. Desde então a situação tem vindo a agudizar-se sem que se vislumbrem soluções que apontem para um horizonte de esperança. O agravamento da situação deve-se no essencial ao eclodir de dois conflitos, Ucrânia e Palestina, que, tanto um como o outro, têm implicações na vivência dos povos europeus.

A guerra na Ucrânia, para além de fazer pairar a ameaça russa sobre a Europa, vai muito para além do que a comunicação social nos transmite. Existe uma guerra invisível que tende a minar as democracias europeias e as suas instituições. Os ataques dos hackers russos contra instituições europeias e infraestruturas são cada vez mais frequentes; as campanhas de desinformação que proliferam nas redes sociais; o aumento da espionagem russa na Europa ao ponto de os serviços secretos europeus alertarem os Estados para eventuais atentados que podem ir desde ataques bombistas à destruição de infraestruturas, nomeadamente aquelas diretamente envolvidas no apoio à Ucrânia como fábricas de armamento. Mais preocupante será a posição de alguns estados-membros no seio da própria União, os quais não se coíbem de tomar posições pró-russas e difundirem desinformação pelas redes sociais. E, na verdade, por falta de instrumentos ou de coragem, a Europa vê-se várias vezes bloqueada quando se trata de tomar decisões contra a Rússia ou a favor da Ucrânia. Neste ambiente já de si complicado, soma-se ainda o crescimento dos movimentos de extrema-direita, alguns apoiados pelo Kremelin, e onde é mais fácil recrutar agentes para a causa de Putin.

Como se vê a guerra não se resume ao terreno militar, embora esta guerra tenha implicações reais na indústria de armamento e no orçamento europeu da Defesa. Não haja dúvidas de que a guerra na Ucrânia é para Putin uma guerra contra o Ocidente.

A guerra entre o governo de Israel e o Hamas é também um problema que tende a agudizar-se e que deixará marcas no futuro, sobretudo na forma como as novas gerações tenderão a olhar para Israel. Ou seja, um ocupante protegido pela ordem internacional  e não uma vítima do nazismo. Veja-se os movimentos de estudantes pró-Palestina por todo o mundo e que nos últimos dias chegaram a Portugal. Esta “nova guerra” tende a aumentar o antissemitismo na Europa, o que poderá tornar-se um problema perigoso quando se sabe que os movimentos radicais islâmicos (uma minoria) servem-se destes momentos para recrutarem novos membros para as suas redes nos diferentes países. Por isso, escrevo conscientemente “governo de Israel” e não “Israel” no sentido de separar o que são as posições dos sucessivos governos daquele Estado e do seu povo. Porque em Israel também há movimentos contra a guerra e a favor da paz. E, cada vez mais, é preciso dar-lhes voz. E não se trata de ser a favor de Israel e contra a Palestina, mas conjugar caminhos que levem à paz. Isolar e silenciar esses movimentos é fortalecer o governo de Israel.

Embora os Estados Unidos sejam peça-chave neste conflito, a Europa terá de ser mais assertiva e incisiva no que diz respeito às suas relações com o Estado de Israel. Não basta condenar, é necessário ações concretas. É preciso levar a sério a política dos dois estados reconhecendo em uníssono o Estado da Palestina e adotando medidas que “obriguem” Israel a cumprir as várias resoluções das Nações Unidas.

As eleições europeias, ao contrário do que muitos de nós possam pensar, são importantes na medida em que o nosso voto pode criar um ambiente mais favorável à procura de soluções democráticas para os problemas que enfrentamos. Por outro lado, importa ter consciência de que atualmente grande parte das políticas nacionais são arquitetadas na Europa. Se desejamos uma Europa democrática, apesar de todos os seus defeitos, que procure o desenvolvimento e a paz em todas as suas dimensões, então cabe a todos os seus cidadãos e cidadãs lutar por ela.

Como se escreveu na Declaração Schuman, são necessários esforços criativos para salvaguardar a paz.

Guerra e Paz: angústias e compromissos

Um ensaio

Guerra e Paz: angústias e compromissos novidade

Este é um escrito de um cristão angustiado e desorientado, e também com medo, porque acredita que uma guerra devastadora na Europa é de alta probabilidade. Quando se chega a este ponto, é porque a esperança é já pequena. Manda a consciência tentar fazer o possível por evitar a guerra e dar uma oportunidade à paz. — ensaio de Nuno Caiado

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