Dia da Fraternidade Humana, com o Papa, Al-Tayyeb, Guterres e uma mãe ferida: “Um mundo sem irmãos é um mundo de inimigos”

| 5 Fev 21

Uma mãe comovida, que se dedica a derrubar muros de ódio, depois de lhe terem assassinado o filho; um secretário-geral que é um pilar de paz; o Papa e o Grande Imã que se tratam por irmãos e amigos. Foi a cerimónia do primeiro Dia da Fraternidade Humana, em que Francisco disse que a fraternidade é a fronteira sobre a qual se deve edificar este tempo.

Latifa Ibn Zaiaten, num dos momentos da sua intervenção ao agradecer o Prémio Zayed da Fraternidade, em imagem captada da transmissão vídeo: “Sou uma segunda mãe para os pequenos que salvei nos centros de detenção, nas casas, nas escolas, para que não caiam no ódio…”

 

O Papa Francisco afirmou nesta quinta-feira que este é o momento em que a humanidade terá de se definir como um conjunto de irmãos ou de inimigos. Foi na cerimónia virtual que assinalou o primeiro Dia da Fraternidade Humana, e que contou com a participação do xeque Ahmed Al-Tayyeb, Grande Imã de Al-Azhar (Cairo, a mais importante autoridade do islão sunita, e do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.

“É o momento de ouvir. É o momento de uma aceitação sincera. É o momento da certeza de que um mundo sem irmãos é um mundo de inimigos”, afirmou o Papa, na mensagem vídeo com que se dirigiu aos seus interlocutores e a quem o seguia pelos canais vídeo do Vaticano. “Não podemos dizer irmãos ou não irmãos. Teremos de dizer: irmãos ou inimigos. A indiferença é uma forma muito subtil de inimizade. Não é preciso uma guerra para fazer inimigos. (…) Transformou-se numa técnica esta atitude de olhar para o outro lado, prescindindo do outro, como se não existisse”.

Francisco começou por se dirigir a quem o escutava: “Irmãos e irmãs. Essa é a palavra: irmãos e irmãs. Afirmar a fraternidade.” E acrescentou: “Fraternidade significa estender a mão, fraternidade significa respeito. Fraternidade significa ouvir com o coração aberto. Fraternidade significa firmeza nas próprias convicções. Não existe verdadeira fraternidade se as próprias convicções forem negociadas. Somos irmãos, nascidos do mesmo pai. Com culturas e tradições diferentes, mas todos irmãos.”

O Dia da Fraternidade Humana foi instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas, a 21 de Dezembro passado, no reconhecimento da “contribuição que o diálogo entre todos os grupos religiosos pode prestar para melhorar a consciência e a compreensão dos valores comuns partilhados por toda a humanidade”.

A decisão seguiu-se a uma proposta do Papa, do imã Al-Tayyeb e do Alto Comité para a Fraternidade Humana, criado na sequência do encontro entre aqueles dois líderes religiosos, em Abu Dhabi (Emiratos Árabes Unidos), a 4 de Fevereiro de 2019. Nessa ocasião, ambos assinaram o Documento Sobre a Fraternidade Humana em prol da Paz Mundial e da Convivência Comum, que inspirou o Papa a desenvolver as ideias nele expressas na encíclica Fratelli Tutti.

 

“Irmão, amigo, companheiro de riscos”

O Grande Imã Al-Tayyeb a abraçar o Papa Francisco, em Abu Dhabi, a 4 de Fevereiro de 2019. Foto: Direitos reservados.

 

Nesta primeira celebração do Dia Internacional, Francisco agradeceu a Al-Tayyeb, chamando-o irmão, amigo e companheiro “de desafios e riscos na luta pela fraternidade”, pela sua “companhia no caminho da reflexão e elaboração deste documento que foi apresentado há dois anos”: “O seu testemunho me ajudou muito porque foi um testemunho corajoso. Eu sei que não foi uma tarefa fácil, mas fomos capazes de fazer isso juntos e de nos ajudarmos mutuamente. O mais bonito de tudo é que aquele primeiro desejo de fraternidade consolidou-se em verdadeira fraternidade.”

“Hoje não há tempo para a indiferença. Não podemos lavar as mãos, com a distância, com o prescindir, com o menosprezo. Ou somos irmãos ou tudo se desmorona. Esta é a fronteira. A fronteira sobre a qual devemos construir. É o desafio do nosso século, o desafio do nosso tempo”, acrescentou Francisco.

O imã de Al-Azhar, no Cairo (Egipto) também se dirigiu ao seu interlocutor como “Meu irmão Papa Francisco, amigo no caminho da fraternidade e da paz”. Agradecendo o caminho feito nestes dois anos, Al-Tayyeb manifestou-se empenhado em continuar a trabalhar com o Papa, com investigadores e teólogos das diferentes religiões e com os defensores da paz de modo a “tornar os princípios da fraternidade humana uma realidade em todo o mundo”.

O líder muçulmano manifestou ainda a esperança de que o dia 4 de Fevereiro passe a significar, em cada ano, “um chamamento a despertar o mundo e os seus líderes, impulsionando-os a consolidar os princípios da fraternidade humana”, na convicção “de que todos somos irmãos com direito a viver em paz”.

 

“Quebrar as barreiras nos nossos corações”

Latifa Ibn Zaiaten com os seus “filhos adoptivos” a quem ensina a optar pela fraternidade, recusando o caminho do ódio. Imagem captada da transmissão vídeo.

 

A cerimónia contou com vários líderes políticos, sociais e religiosos de vários pontos do mundo: Charles Michel, presidente do Conselho Europeu; Justin Welby, primaz da Comunhão Anglicana; Mohamed Abdel Salam, secretário do Alto Comité para a Fraternidade Humana; Muhammad Jusf Kalla, ex-vice-presidente da Indonésia; e a liberiana Leymah Gbowee, Prémio Nobel da Paz em 2011, entre outros.

Coube a esta última apresentar António Guterres e a franco-marroquina Latifa Ibn Zaiaten, mãe de uma vítima de um atentado terrorista em Toulouse (França), que fundou uma associação para ajudar os jovens a optar pela paz e pelo diálogo, recusando a violência. Ambos foram distinguidos com o Prémio Zayed da Fraternidade Humana, instituído há dois anos como forma de homenagear o unificador dos Emiratos.

Guterres e ibn Zaiaten são “duas pessoas que enviam uma forte mensagem sobre a coexistência pacífica”, como disse Leymah Gbowee. Visivelmente comovida, Latifa ibn Ziaten mostrou-se de coração ferido pela morte do seu filho Imad: “Senti como se minhas entranhas queimassem”, mas depois de sonhgar com o filho três vezes, achou que ele lhe pedia para se levantar.

“Tenho muita honra em receber este prémio. Perdi um filho, mas hoje posso chegar a muitas crianças, sou uma segunda mãe para os pequenos que salvei nos centros de detenção, nas casas, nas escolas, para que não caiam no ódio. Se formos capazes de quebrar as barreiras nos nossos corações, encontraremos um lugar na sociedade e seremos todos irmãos.”

O imã Al-Tayyeb refere-se a Latifa como “heroína” e “modelo para o mundo inteiro”, que transformou a dor “num presente para toda a humanidade”, com a o seu encorajamento a “lutar contra o monstro escuro que é o terrorismo”. Já António Guterres merece ser homenageado por ser “um dos pilares portadores da paz mundial, provavelmente o pilar mais forte de todos na conquista da paz mundial”.

 

(Mais declarações do Papa Francisco podem ser lidas no Vatican News; uma declaração dos bispos católicos alemães sobre a data pode ser lida também no mesmo portal do Vaticano; a posição do Conselho Mundial de Igrejas pode ser lida na página da instituição; o vídeo com o registo integral da cerimónia pode ser visto a seguir:

 

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