Dia da Memória: novo livro regista 2800 pedidos de ajuda de judeus a Pio XII e o esforço do Papa Pacelli em salvá-los

| 28 Jan 21

Pio XII: novos elementos da consulta do arquivo registam 2.800 pedidos de ajuda de judeus dirigidos ao Papa Pacelli. Foto: Direitos reservados.

 

Cerca de 2.800 pedidos de ajuda de judeus dirigidos ao Papa Pio XII, registados em documentos inéditos apresentados no livro Pio XII e os Judeus, do arquivista do Vaticano Johan Ickx, evidenciam o trabalho do Papa Pacelli e do seu gabinete para salvar milhares de vidas durante a Segunda Guerra Mundial e anulam a lenda do papa pró-nazi, defende o autor do livro, agora publicado em Itália.

A obra de Johan Ickx, responsável no Vaticano pelo Arquivo da Secção das Relações com os Estados, resulta de meses de pesquisa entre os documentos que ficaram acessíveis aos investigadores, pela primeira vez, em Março do ano passado, após a abertura do Arquivo do Vaticano relativo ao pontificado do Papa Pio XII – e que ficou encerrado pouco depois, por causa da pandemia.

Numa entrevista ao jornalista Fabio Colagrande, do Vatican News, o investigador afirma: “A série de dossiês designada ‘Judeus’ que está nos arquivos demonstra o cuidado diário com que, 24 horas por dia, o Papa e as onze pessoas do seu gabinete, juntamente com os núncios e outros colaboradores no exterior, trabalhavam para ajudar os perseguidos em toda a Europa”, defende.

Os arquivos, explica, contêm centenas de dossiês e milhares de documentos. Cada dossiê conta a história de uma família ou de um grupo de pessoas perseguidas que, directamente ou através de intermediários, pediram ajuda ao Papa. “Contei cerca de 2.800 pedidos de ajuda ou intervenção que dizem respeito às vicissitudes de cerca de 4.000 judeus entre 1938 e 1944”, enumera.

A propósito do livro, publicado pelas edições Rizzoli, Johan Ickx defende ainda que “não é verdade” que Pio XII ficasse “à janela” a testemunhar e ignorar os massacres. “O Vaticano assumia os casos tanto de judeus como de cristãos, de muitos cristãos.” E explica: “Em 1941, em todo o território alemão e em todos os estados ocupados, as leis raciais mudaram. Em vez de tomar a religião como critério de perseguição, foi adoptado um princípio ‘étnico’, eu diria genético, baseado no sangue: qualquer pessoa com um antepassado judeu, até à terceira geração, era presa e deportada.”

Uma história referida no livro é “a carta desesperada de uma mulher católica que, em 1943, logo após o rastreamento nazi do Gueto de Roma, pediu ajuda a Pio XII”, conta. A mulher morava perto do Vaticano e tinha os filhos num colégio católico na Piazza di Spagna. “Mas ela tinha uma avó de origem judaica. Dando-se conta que estavam em grande perigo, pediu ao Papa para encontrar um esconderijo para ela. Os documentos não nos dizem se esta mulher foi realmente ajudada, mas é plausível que, por instruções de Pio XII, ela tenha sido escondida num instituto religioso, como está documentado em muitos outros casos.”

Aliás, o investigador considera surpreendente que “homens e mulheres em perigo, em Milão, mas também em Praga ou Budapeste, consideravam como único verdadeiro último recurso recorrer a Roma e pedir ajuda ao Papa”. E conclui: “Para os judeus era evidente e claro que Pio XII estava do seu lado, que ele e sua equipa fariam tudo ao seu alcance para salvá-los.”

Havia, no entanto, grandes dificuldades: “Numa Europa em guerra, as comunicações eram lentas e difíceis. Faltavam forças em campo e havia um trabalho de inteligência nazi tentando impedir que os pedidos de socorro fossem bem sucedidos. Os sentimentos de amargura e impotência expressos em muitas ocasiões pelos membros do gabinete de Pio XII são muito marcantes. Pode-se ver como (…) trabalhavam dia e noite para tentar ajudar as pessoas em fuga, para movê-las de um extremo ao outro do mundo, para depois ter que admitir que chegaram tarde demais e que seus esforços foram em vão.”

Johan Ickk diz que emerge do livro também a troca de informações entre diplomatas ingleses, americanos e da Santa Sé relativa aos campos de concentração e extermínio construídos pelos nazis. “Quando chegaram no Vaticano as primeiras evidências do extermínio em massa que estava sendo perpetrado nos campos de concentração, a princípio os diplomatas da Secretaria de Estado ficaram perplexos, para eles foi difícil acreditar nisso. Por exemplo, foi necessária muita prudência para examinar os relatórios vindos do Gueto de Varsóvia de ‘agentes do Vaticano’ ou de pessoas anónimas que enviaram testemunhos. Mas ficou logo claro que tinha sido realizado uma investigação completa para esvaziá-lo completamente, deportando e matando todos os seus habitantes.”

 

Silencioso ou santo?
Nazismo. Berlim. Memorial. Holocausto

Memorial Gleis 17, (Cais 17) junto à estação de S-Bahn de Grunewald, Berlim. Daqui partiam muitos judeus para os campos de concentração ou extermínio. Foto © Helena Araújo

 

Numa outra linguagem, um documentário da Deutsche Welle, radiotelevisão pública alemã emitiu também um documentário que procura fazer um ponto de situação no debate sobre o papel do Papa Pacelli.

“Acusa-se o Papa Pio XII de se calar, quando o regime nazi assassinou milhões de judeus. Pelo seu silêncio, alguns chamam-lhe o Papa de Hitler. Para outros ele foi um santo, por ter salvado em segredo milhares de judeus”, diz o documentário, no início, visando apresentar o estado da questão e contribuir para responder, com novos dados, às certezas de alguns e às dúvidas de muitos.

O documentário beneficia também da abertura à consulta pública dos arquivos do Vaticano relativos ao pontificado de Pio XII, em Março do ano passado, apesar do diminuto tempo de consulta por causa da pandemia da covid-19. Apesar disso, o documentário inclui já alguns elementos informativos e analíticos da consulta dessa documentação, além de ouvir investigadores do tema.

O documentário, que teve como guionistas e realizadores Lucio Mollica e Luigi Maria Perotti e produção de LooksFilm, está a seguir na sua versão em espanhol.

 

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