Dia Internacional da Mulher: A violência no namoro como prenúncio da violência doméstica

| 7 Mar 19 | Destaques, Educação / Família, Newsletter, Sociedade, Últimas

Foto © Ozias Filho

Apesar do progresso na igualdade entre homens e mulheres, verificado nas últimas décadas, “não existe um único país no mundo no qual as mulheres e raparigas estejam livres de violência masculina”, considera a Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres. Em Portugal, a violência doméstica fez 13 vítimas mortais neste início de 2019 (a última foi morta na noite de quarta para quinta-feira, em Vieira do Minho). Segundo dados de 2014, 43 por cento das mulheres na União Europeia experimentaram violência psicológica por parte de um parceiro desde os 15 anos. Em Portugal calcula-se que sejam 36 por cento. 

“É um problema com consequências gravosas a curto e a longo prazo e a investigação tem comprovado que a violência doméstica tem uma forte relação com a violência no namoro. A violência no namoro costuma ser prenúncio da violência doméstica,” diz Eliana Madeira, coordenadora dos projetos de intervenção social no Graal, associação internacional de mulheres cristãs. 

O Observatório da Violência no Namoro de 2018, iniciativa da Associação Plano I, afirma que, dos casos de violência relatados, a maioria são do âmbito psicológico ou emocional e têm como principal razão (72,8 por cento) os ciúmes. Outros dois números alarmantes revelam que 72,3 por cento das vítimas não apresentou denúncia e 50,6 por cento lidou com a situação sozinha.

O Estudo Nacional sobre Violência no Namoro de 2019, realizado pela União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) dá conta de que pelo menos 58 por cento dos jovens inquiridos (média etária de 15 anos) já experimentou pelo menos uma forma de violência por parte do companheiro/a ou ex-companheiro/a. Adicionalmente, destaca-se que 67 por cento do total de jovens inquiridos (4938 jovens de todos os distritos do país) aceita como natural pelo menos uma das formas de violência na intimidade: violência sexual, física, psicológica, através das redes sociais ou situações de controlo e/ou perseguição.

De um universo de jovens que dizem já ter estado numa relação (3464 jovens) 34 por cento relata ter enfrentado situações de violência psicológica, 31 por cento de perseguições, 21 por cento de violência através das redes sociais, 19 por cento de situações de controlo, 13 por cento de violência sexual e 11 por cento de violência física por parte de um/a companheiro/a.

A violência psicológica e a perseguição são os casos mais graves relatados pelas próprias (Fonte © UMAR)

 

No que toca a violência psicológica, os insultos são os atos de violência com maior prevalência (53 por cento), seguidos de humilhação e rebaixamento da vítima (29 por cento) e de ameaças (20 por cento). Relativamente aos indicadores de violência física, distingue-se a violência que deixa marcas (8 por cento) da que não deixa (14 por cento).

O estudo alerta para uma subida de números de vítimas de 2018 para 2019 em todos os tipos de violência. Os autores consideram, no entanto, que o facto pode indicar não que haja mais vítimas, mas sim “que os/as jovens podem estar mais consciencializados/as quanto a estas formas de violência, sendo capazes de as identificar com mais clareza” e, portanto, de as reconhecer e relatar com mais facilidade. O mesmo tem acontecido fora do estudo: segundo o Diário de Notícias, a PSP recebeu, em 2018, queixas de 118 vítimas com menos de 18 anos relativas aos namorados (43) ou ex-namorados (75). O número de denúncias tinha vindo a subir de 103, em 2016, para 112, em 2017. 

O relatório apela a que “boas práticas ao nível da prevenção precisam ser mantidas e intensificadas, e de que o trabalho realizado neste sentido deve ser continuado e a sua abrangência ampliada a todo território nacional”. Neste âmbito, nos últimos anos, têm surgido algumas associações que dedicam parte da sua acção a este tema.

O Graal é um movimento de mulheres cristãs que, segundo Eliana Madeira, tem como missão “construir uma cultura de cuidado: cuidar de si, cuidar dos outros e cuidar do estado do mundo”. Por essa razão, tem desenvolvido várias iniciativas relativas à violência no namoro.

“Começámos trabalho nesta área após termos visto um estudo desenvolvido pela Universidade do Minho onde verificámos, com alguma surpresa, que o problema da violência no namoro afetava um número significativo de jovens. Em 2008, era um problema muito pouco falado. Portanto, concluímos que fazia sentido dar visibilidade ao tema e criarmos espaços de diálogo e discussão.”

Nesse sentido, o Graal tem desenvolvido projetos no Alto Alentejo e Ribatejo, recrutando um núcleo de 20 a 30 jovens (monitores) que passam por um processo de capacitação para sensibilizarem os seus pares nas escolas e ambientes comuns dos jovens: “Escolhemos fazer sensibilização de pares, pois temos a percepção de que, nos assuntos mais relacionados com valores e intimidade, a mensagem passa melhor quando estamos a falar de iguais. Por outro lado, também se sabe que quando há problemas de violência no namoro, as primeiras pessoas a quem os jovens de uma maneira geral recorrem são os amigos.” Este dado é confirmado pelo Observatório da Violência no Namoro de 2018, que dá conta que 46,8 por cento das vítimas de violência no namoro recorrem aos amigos para lidar com a situação.

Uma das campanhas desenvolvidas pelo Graal, de nome IRÓNICA – NAMORArte assenta em vários cartazes que pretendem sensibilizar para a questão, usando a ironia:

Noutro âmbito foram criadas, por altura do Dia dos Namorados, 14 de fevereiro, várias campanhas online que pretendiam alertar para a violência no namoro: o Governo português apresentou a campanha #NamorarMemeASério. A mesma contava com a ajuda de algumas personalidades conhecidas dos jovens e servia-se de “memes” (imagens ou vídeos e/ou com humor, que se espalham via internet) para chamar à atenção para o tema. Já a Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres centrou-se na violência contra raparigas e mulheres online, através de uma campanha no Instagram e Facebook com o título #ANetDelaOsDireitosDela.

Segundo Alexandra Silva, coordenadora de projetos da Plataforma, a campanha tem o intuito de “identificar as técnicas utilizadas e os tipos de agressor e o local de atuação” de modo a ganhar consciência, identificar e proteger: “Achamos que a violência masculina não é delimitada a uma tipologia ou espaço mas que acontece de várias formas. A violência online está bem identificada mas acaba por ser mais invisível cá em Portugal.”

Para assinalar o Dia Internacional da Mulher, sob o prisma do combate à violência doméstica, violência de género e outras desigualdades, há várias iniciativas em diferentes cidades, entre as quais:

  1. Braga, 18h00 – Avenida Central, junto aos chafarizes
  2. Porto, 18h30 – Praça dos Poveiros
  3. Coimbra, 17h30 Concentração na Praça da República; às 18h00 Marcha até à Praça 8 de maio Viseu, 17h00 – Jardim Tomás Ribeiro, Rossio
  4. Lisboa, 17h30 – Praça do Comércio
  5. Funchal, 17h30 – Largo do Chafariz

Artigos relacionados

Breves

Astérix inclui protagonista feminina que se assemelha a Greta no seu novo álbum novidade

Astérix e Obélix, dois dos nomes mais icónicos da banda desenhada franco-belga, regressam no 38º álbum da dupla, que celebra igualmente os 60 anos da série criada em 1959 por Albert Uderzo e René Goscinny. Nesta história, há uma nova personagem: Adrenalina, filha desconhecida do lendário guerreiro gaulês Vercingétorix, que introduz o tema das diferenças entre gerações.

Nobel da Economia distingue estudos sobre alívio da pobreza novidade

O chamado “Nobel” da Economia, ou Prémio Banco da Suécia de Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel, foi atribuído esta segunda-feira, 14 de outubro, pela Real Academia Sueca das Ciências aos economistas Abijit Banerjee, Esther Duflo e Michael Kremer, graças aos seus métodos experimentais de forma a aliviar a pobreza.

Boas notícias

É notícia

Entre margens

O politicamente incorrecto

Num debate em contexto universitário, precisamente em torno da questão do politicamente correcto, Ricardo Araújo Pereira afirmou que, embora fosse contra o “politicamente correcto”, não era a favor do “politicamente incorrecto”.

Cultura e artes

“Aquele que vive – uma releitura do Evangelho”, de Juan Masiá

Esta jovem mulher iraniana, frente ao Tribunal que a ia julgar, deu, autoimolando-se, a sua própria vida, pelas mulheres submetidas ao poder político-religioso. Mas não só pelas mulheres do seu país. Pelas mulheres de todo o planeta, vítimas da opressão, de maus tratos, de assassinatos, de escravatura sexual. Era, também, assim, há 2000 anos, no tempo de Jesus. Ele, através da sua mensagem do Reino, libertou-as da opressão e fez delas discípulas. Activas e participantes na Boa Nova do Reino de Deus.

O quarto de brinquedos que é espelho do mundo

Toy Story/4 é uma metáfora da Humanidade que vale a pena ver devagar. Foram vários os críticos que não tiveram pudor em enunciar todas as lições de vida que tinham aprendido com este(s) filme(s).

Arte e arquitectura religiosa com semana cheia em Lisboa

Visitas à arte e arquitecura de igrejas e conventos e um curso livre sobre Arte Moderna e Arte da Igreja são várias iniciativas previstas para os próximos oito dias em Lisboa. O curso decorrerá na Capela do Rato (Lisboa), entre segunda e sexta da próxima semana (dias 23 a 27) e na Igreja de Moscavide (sábado, 28) e pretende evoca o livro publicado há 60 anos pelo padre Manuel Mendes Atanásio, mas também os 50 anos do fim do MRAR.

Sete Partidas

Hoje não há missa

Na celebração dos 70 anos da República Popular da China (RPC), que se assinalam no próximo dia 1 de outubro, são muitas as manifestações militares, políticas, culturais e até religiosas que se têm desenvolvido desde meados de setembro. Uma das mais recentes foi o hastear da bandeira chinesa em igrejas católicas, acompanhado por orações pela pátria.

Visto e Ouvido

Igreja tem política de “tolerância zero” aos abusos sexuais, mas ainda está em “processo de purificação”

D. José Ornelas

Bispo de Setúbal

Agenda

Out
17
Qui
Apresentação do livro “Dominicanos. Arte e Arquitetura Portuguesa: Diálogos com a Modernidade” @ Convento de São Domingos
Out 17@18:00_19:30

A obra será apresentada por fr. Bento Domingues, OP e prof. João Norton, SJ.

Coorganização do Instituto São Tomás de Aquino e do Centro de Estudos de História Religiosa. A obra, coordenada pelos arquitetos João Alves da Cunha e João Luís Marques, corresponde ao catálogo da Exposição com o mesmo nome, realizada em 2018, por ocasião dos 800 anos da abertura do primeiro convento da Ordem dos Pregadores (Dominicanos em Portugal.

Nov
8
Sex
Colóquio internacional Teotopias – Sophia, “Trazida ao espanto da luz” @ Univ. Católica Portuguesa - Polo do Porto
Nov 8@09:00_19:30

Fundacional para a percepção e expressão do mistério, a linguagem poética é lugar de uma articulação paradoxal, nada acrescentando à representação descritiva do mundo [Ricoeur]. Encontrando-se o positivismo teológico em crise, paradigma que sempre cedeu demasiado à obsessão pela verdade, tem-se vindo a notar um crescente interesse pelo estudo teológico de produções literárias como lugares de redenção da linguagem referencial, própria do discurso tradicional da teologia. Na sua performatividade quase litúrgica, a linguagem poética aproxima o objecto do discurso teológico do seu eixo verdadeiramente referencial: “a transluminosa treva do Silêncio” [Pseudo-Dionísio Areopagita].

Cátedra Poesia e Transcendência | Sophia de Mello Breyner [UCP Porto], em parceria com a Faculdade de Teologia e o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, organiza um congresso no âmbito das hermenêuticas do religioso no espaço literário, com especial incidência sobre a sua dimensão poética.
O colóquio terá lugar na Universidade Católica Portuguesa | Porto, nos dias 8 e 9 de novembro de 2019, e dará particular atenção aos seguintes eixos temáticos: linguagem poética e linguagem teológica: continuidades e descontinuidades; linguagem poética e linguagem mística: inter[con]textualidades; linguagem poética e sagrado: aproximações estético-fenomenológicas.

Nov
9
Sáb
Colóquio internacional Teotopias – Sophia, “Trazida ao espanto da luz” @ Univ. Católica Portuguesa - Polo do Porto
Nov 9@09:00_19:30

Fundacional para a percepção e expressão do mistério, a linguagem poética é lugar de uma articulação paradoxal, nada acrescentando à representação descritiva do mundo [Ricoeur]. Encontrando-se o positivismo teológico em crise, paradigma que sempre cedeu demasiado à obsessão pela verdade, tem-se vindo a notar um crescente interesse pelo estudo teológico de produções literárias como lugares de redenção da linguagem referencial, própria do discurso tradicional da teologia. Na sua performatividade quase litúrgica, a linguagem poética aproxima o objecto do discurso teológico do seu eixo verdadeiramente referencial: “a transluminosa treva do Silêncio” [Pseudo-Dionísio Areopagita].

Cátedra Poesia e Transcendência | Sophia de Mello Breyner [UCP Porto], em parceria com a Faculdade de Teologia e o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, organiza um congresso no âmbito das hermenêuticas do religioso no espaço literário, com especial incidência sobre a sua dimensão poética.
O colóquio terá lugar na Universidade Católica Portuguesa | Porto, nos dias 8 e 9 de novembro de 2019, e dará particular atenção aos seguintes eixos temáticos: linguagem poética e linguagem teológica: continuidades e descontinuidades; linguagem poética e linguagem mística: inter[con]textualidades; linguagem poética e sagrado: aproximações estético-fenomenológicas.

Ver todas as datas

Fale connosco