[Efemérides]

Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto

| 26 Jan 2024

Memorial Judaico, em Berlim: “Outros dias há, como este, que por aquilo que representam para a memória coletiva dos povos e também pelo receio de que a memória se desvaneça nas gerações mais novas, continuam a ser uma referência na construção de um futuro a evitar.” Foto © Alessio Maffeis / Unsplash

 

Neste sábado, dia 27 de janeiro, assinala-se o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. Esta efeméride foi decidida através da Resolução 60/7 da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), a 1 de novembro de 2005. É verdade que a cada dia do ano corresponde uma ou várias causas que se pretendem assinalar com o objetivo de chamar a atenção para um problema. Em muitas delas poucas são as pessoas que se dão conta, salvo as mais envolvidas e defensoras do dia ou causa que se pretende assinalar. Outros dias há, como este, que por aquilo que representam para a memória coletiva dos povos e das sociedades atuais e também pelo receio de que a memória se desvaneça nas gerações mais novas, continuam a ser uma referência na construção de um futuro a evitar. Isto acontece tanto ao nível dos discursos como dos comportamentos dos decisores no tabuleiro dos interesses. É verdade que o Holocausto é facilmente associado ao extermínio dos judeus (Shoá), mas temos o dever de lembrar outros, também eles exterminados e perseguidos. Sem nunca esquecer os que na sombra lutaram, resistiram, sofreram ou morreram para que outros, como nós, não fossemos vítimas do horror. Como lembrava Ursula Von der Leyen em 26 janeiro de 2023 ao assinalar o dia:

“Jamais deveremos esquecer os seis milhões de mulheres, homens e crianças judeus, bem como todas as outras vítimas assassinadas durante o Holocausto, nomeadamente centenas de milhares de ciganos.”

Estima-se que um milhão de ciganos viviam na Europa antes da guerra, e que entre 200.000 e 500.000 deles foram mortos pelo regime nazi. No caso dos romanis, o regime foi apoiado por boa parte da população não necessariamente afeta aos nazis, mas preconceituosa contra aquela etnia. Se olharmos especificamente para o nosso país, percebemos como esse preconceito ainda hoje está bastante enraizado na sociedade. O desconhecimento da cultura dos povos cuja transmissão de valores sociais e culturais é sobretudo oral alimenta ainda mais esse tipo de preconceito. Assinalar o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto é lembrar todas as vítimas, porque só a consciência dessa memória coletiva nos pode proteger -sem garantias-  da não propagação de ideologias contrárias à humanidade e à diversidade. Leia-se a propósito o texto de Helena Araújo “A revolta dos cidadãos com sentido de decência” sobre as recentes manifestações na Alemanha contra a extrema-direita.

A evocação destas memórias deve também constituir um momento de reflexão sobre as responsabilidades do passado, assumi-las sem qualquer pejo e, a partir daí, mostrar disponibilidade e vontade para a procura de soluções inclusivas e potenciadoras de uma paz duradoura. Assinalar este dia quase por obrigação, sem dinâmicas que lhe deem sentido é a melhor forma de o desvalorizar.

 

Quando o Holocausto se torna um problema

Galeria Leste, no Muro de Berlim.”A paz constrói-se dando visibilidade aos gestos de ambos os lados sejam eles ou não compreendidos pelo outro lado. Importa evitar que o ódio que transparece no olhar de ambos os lados se transforme em gestos de morte.” Foto © José Centeio

 

Nas sociedades acontece muitas vezes que as vítimas se tornam mais tarde carrascos de outros replicando o sofrimento que lhes foi infligido. Como é possível que um povo que tanto sofreu, inflija agora a outro povo tamanho sofrimento (Ver texto de Jorge Wemans no 7MARGENS)? Traumas mal resolvidos, feridas não saradas, ódios latentes, preconceitos, responsabilidades não assumidas conduzem indubitavelmente à propagação do mal, à ostracização do outro.

Porventura muitos leitores e leitoras não estarão de acordo, mas a verdade é que o Holocausto parece ter-se tornado um problema que impede sermos mais assertivos na procura de soluções, nomeadamente para o conflito israelo-palestino. Nada é mais contraproducente do que uma memória coletiva que se torna um incómodo, um problema que impede os homens e mulheres de hoje de terem uma visão de futuro.

Vejamos.

  • Apesar dos discursos e da aparente boa vontade sobre os “dois estados”, a verdade é que a maioria dos países europeus ainda não reconheceu o Estado palestiniano. Passados 25 anos desde que o Conselho Europeu se comprometeu a reconhecer o Estado da Palestina apenas um terço dos países da União Europeia efetivou esse compromisso: Suécia, Malta, Chipre, Hungria, Chéquia, Bulgária, Polonia, Roménia e Eslováquia. Contudo, neste momento, mesmo a maioria desses países está ao lado de Israel.
  • O Ocidente continua refém da Shoá e ainda não se conseguiu libertar do complexo de culpa. E enquanto assim acontecer dificilmente haverá soluções credíveis e coerentes. Veja-se, por exemplo, o apoio sem reservas da Alemanha e da Áustria a Israel. Aliás, o atual debate na Alemanha que oscila, face aos últimos acontecimentos (ver texto de Teresa de Sousa no jornal Público), entre a ilegalização e o combate político pode alimentar outros radicalismos que em nada favorecem o debate democrático.

Num momento em que as democracias se veem confrontadas com realidades bastante complexas que parecem acordar os velhos monstros do mal na Europa (mas não só) prevenir e combater o antissemitismo é também assumir sem complexos o passado, libertar-se da canga da culpa e afrontar sem reservas os carrascos de hoje sem confundir os povos com quem os governa. O sentimento de culpa nunca se poderá substituir à consciência crítica da História e ao acolher da responsabilidade.

Israel não pode continuar a fundamentar a sua segurança na expansão dos colunatos e do território, na manipulação dos movimentos extremistas para enfraquecer o poder moderado palestiniano e no extermínio ou expulsão dos seus vizinhos. Também os povos vizinhos não podem continuar a recusar a existência do Estado de Israel e fazer depender a existência de uns da inexistência de outros.

De acordo com as Nações Unidas, o propósito deste dia é não esquecer o genocídio em massa de seis milhões de judeus pelos Nazis e respetivos colaboracionistas. Este constitui o maior crime contra a Humanidade de que há memória. Mas é mais do que isso; pretende-se educar para a tolerância, para a convivência com o diferente e para a paz. Importa ser assertivo nos gestos que possam contribuir para a paz e evitar a linguagem bélica e do ódio. A paz constrói-se dando visibilidade aos gestos de ambos os lados sejam eles ou não compreendidos pelo outro lado. Importa evitar que o ódio que transparece no olhar de ambos os lados se transforme em gestos de morte. Importa lembrar que optar por um lado não nos dá o direito a ignorar as vítimas inocentes do outro lado.

O tema em 2024 para este dia é «Reconhecer a coragem extraordinária das vítimas e sobreviventes do Holocausto». Este é um bom mote também para refletir e reconhecer a coragem não menos extraordinária das vítimas e sobreviventes dos bombardeamentos de Gaza.

 

José Centeio é editor da opinião no 7Margens e membro do Cesis (Centro de Estudos para a Intervenção Social); contacto: jose.centeio@gmail.com 

 

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Em matéria de teologia, tendo a sentir-me mais próxima do meu neto X, 6 anos, do que da minha neta F, de 4. Ambos vivem com os pais e uma irmã mais nova em Londres. Conto dois episódios, para perceberem onde quero chegar. Um dia, à hora de deitar, o X contou à mãe que estava “desapontado” com o seu dia. Porquê? Porque não encontrara o cromo do Viktor Gyokeres, jogador do Sporting, um dos seus ídolos do futebol; procurou por todo o lado, desaparecera. Até pedira “a Jesus” para o cromo aparecer, mas não resultou. [Texto de Ana Nunes de Almeida]

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