
O padre António Pedro Monteiro, capelão hospitalar, acompanhando uma pessoa doente: devemos retomar o “percurso de paz” com a “cultura do cuidado”, diz o Papa. Foto © António Marujo
Confirma-se: o “longo caminho” que o Papa Paulo VI convidou a humanidade a percorrer na sua mensagem para o primeiro Dia Mundial da Paz, assinalado a 1 de janeiro de 1968, é realmente extenso. E, neste momento, parece particularmente distante do fim. Mas, segundo o Papa Francisco, antes de prosseguirmos, “temos de parar e interrogar-nos: O que foi que levou a sentir o conflito como algo normal no mundo?” Depois, devemos pegar numa “bússola” de princípios, e retomar esse “percurso de paz” com a “cultura do cuidado”, explica o Papa naquela que é a sua mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2021.
Depois de um ano em que a pandemia de covid-19 “agravou fortemente outras crises inter-relacionadas como a climática, alimentar, económica e migratória”, Francisco diz ser “doloroso constatar que, ao lado de numerosos testemunhos de caridade e solidariedade, infelizmente ganham novo impulso várias formas de nacionalismo, racismo, xenofobia e também guerras e conflitos que semeiam morte e destruição”. E “muitas vezes” é a cultura da indiferença, do descarte e do conflito” que “parece prevalecer”, lamenta.
Mas para Francisco é claro que 2020 nos ensinou “a importância de cuidarmos uns dos outros e da criação”. Esta é, aliás, uma “vocação” que o ser humano terá herdado do próprio Deus, apresentado na Bíblia “como Aquele que cuida das suas criaturas”, e que constituiu, desde logo, “o núcleo do serviço de caridade da Igreja primitiva”.
Agora, “num tempo dominado pela cultura do descarte e perante o agravamento das desigualdades dentro das nações e entre elas”, o Papa apela aos “responsáveis das organizações internacionais e dos Governos, dos mundos económico e científico, da comunicação social e das instituições educativas” para que peguem na “bússola” de princípios que têm por base essa vocação. São eles “a promoção da dignidade de toda a pessoa humana, a solidariedade com os pobres e indefesos, a solicitude pelo bem comum e a salvaguarda da criação”.
“Através desta bússola, encorajo todos a tornarem-se profetas e testemunhas da cultura do cuidado, a fim de preencher tantas desigualdades sociais”, afirma Francisco na sua mensagem, divulgada no passado dia 8 de dezembro, destacando que “isto só será possível com um forte e generalizado protagonismo das mulheres na família e em todas as esferas sociais, políticas e institucionais”.
Usar o dinheiro das armas para eliminar a fome
Nesta fase do caminho, diz o Papa, é necessário descobrir como “converter o nosso coração e mudar a nossa mentalidade para procurar verdadeiramente a paz na solidariedade e na fraternidade”. E Francisco deixa algumas sugestões concretas nesse sentido, como por exemplo a criação de “um fundo mundial com o dinheiro que se gasta em armas e outras despesas militares, para poder eliminar a fome e contribuir para o desenvolvimento dos países mais pobres” – uma ideia que já tinha referido na sua encíclica Fratelli Tutti, publicada no início de outubro.
O Papa destaca ainda a “tarefa vital e indispensável” da família na “educação para o cuidado” e lembra que é preciso colocá-la “em condições de poder cumprir esta tarefa”, o mesmo acontecendo com a escola e com a comunicação social.
Uma coisa é certa, para Francisco: “não há paz sem a cultura do cuidado”. E “neste tempo, em que a barca da humanidade, sacudida pela tempestade da crise, avança com dificuldade à procura dum horizonte mais calmo e sereno”, é essencial não cedermos à “tentação de nos desinteressarmos dos outros, especialmente dos mais frágeis”.
Enquanto avançamos neste “longo caminho para a paz” que Paulo VI anteviu, “não nos habituemos a desviar o olhar”, insiste Francisco, “mas empenhemo-nos cada dia concretamente por formar uma comunidade feita de irmãos que se acolhem mutuamente e cuidam uns dos outros”.










