Michelina Tenace, teóloga

Diaconado das mulheres: estamos a pôr as questões erradas

| 23 Fev 2022

Michelina Tenace, teóloga, numa foto captada a partir de um vídeo no YouTube.

 

“É a Igreja que precisa das mulheres e deve chamá-las ao seu serviço. É com base neste chamamento que as mulheres poderão responder ‘sim’ e colocar os seus dons em bom uso para o bem de todos! Se a Igreja não as chamar, [o acesso a] um ministério corre o risco de ser considerado um direito. Mas servir não é um direito, é um dever!”.

Estas são palavras da teóloga Michelina Tenace, professora da Universidade Gregoriana, em Roma, e fizeram-se ouvir na Sala Paulo VI, no Vaticano, na última sexta-feira, 18, numa mesa-redonda sobre “A mulher e os ministérios – estado da questão”, que ali decorreu no âmbito do Simpósio “Por uma teologia fundamental do sacerdócio”.

A teóloga, que integrou a primeira Comissão de Estudo sobre o Diaconado das Mulheres, instituída pelo Papa Francisco em 2016, intitulou a sua intervenção, cujo texto integral facultou ao 7MARGENS, “Da reflexão sobre as diaconisas nos primeiros séculos aos ministérios estabelecidos em 2021”. E começou precisamente por chamar a atenção para o papel que teve aquela Comissão, contrariando a ideia feita de que não deu em nada.

Preparou, desde logo, o caminho para a Comissão que lhe sucedeu, em 2020, mas também para a decisão de instituir os ministérios de leitor e de acólito abertos às mulheres (motu proprio ‘Spiritus Domini’, de 11.1.2021).

A Comissão foi vista de forma “redutora e imprópria”, segundo Michelina Tenace. Porque se julgou que existia para repristinar [voltar a pôr em vigor] as diaconisas dos primeiros séculos da Igreja. Se ela devia estudar aquele período, não se tratava de o restaurar no século XXI. Porque “não se pode trair a novidade que o Espírito traz, em cada momento da história”, observa. 

É verdade que houve diaconisas que participaram na “evangelização da caridade para todos e (…) nos serviços (ministérios) que as fizeram entrar em contacto com outras mulheres, onde a cultura do pudor o sugeria (especialmente o batismo e a unção dos doentes).

Mas é neste quadro que a académica lança o desafio: “A questão que se coloca hoje [sublinhado da autora] é, portanto, outra: é necessário restaurar um ministério de serviço? Por que razão? Não devemos antes perguntar-nos: de que ministério precisa o povo de Deus hoje?” 

Optar, eventualmente, por uma restauração seria, para ela, um “anacronismo”. “Profética é a busca da novidade porque a novidade deve levar em conta o caminho de crescimento, no interior de um processo de mudanças culturais, sociais e teológicas”, faz notar.

Antes de avançar na sua argumentação, a professora recorda alguns “dados indiscutíveis”, que resultaram do trabalho da Comissão de que fez parte:
– havia diaconisas na Igreja primitiva;
– havia um rito próprio ligado a este ministério; e
– a presença de diaconisas desapareceu completamente na Igreja latina.

Com isto foi possível evidenciar outros três aspetos:
– “o desaparecimento das diaconisas não significa que as mulheres tenham desaparecido da Igreja;
– a santidade das mulheres continuou a ser reconhecida sem qualquer discriminação; e
– a diaconia, o serviço, continuou a ser levado a cabo sem um ‘ministério instituído’”.

Santa Febe, mulher diácono

Ícone ortodoxo representando Santa Febe, uma das diaconisas, ou mulheres diáconos, identificadas nos textos de São Paulo.

Deriva machista e clericalista coincidiu com eclipse das diaconisas

“Por que motivo, então, se torna necessário refletir sobre a história dos ministérios “não atribuídos” às mulheres?”, interroga a conferencista, para de imediato responder: “Porque este momento histórico de ausência das mulheres nos ministérios coincidiu com uma deriva machista e clericalista da Igreja, que não fez resplandecer o seu verdadeiro rosto de nova humanidade, onde homens e mulheres são investidos da mesma dignidade de filhos”.

É por tudo isto que, em seu entender, é “tão importante e urgente” estabelecer ministérios para as mulheres: a questão não estará no reconhecimento da dignidade das mulheres, mas no “reconhecimento da verdadeira identidade da Igreja”. E, assim colocadas as coisas, trata-se de corresponder a um chamamento e a um dever de servir.

O discernimento da Igreja, através de sua estrutura hierárquica, sobre os ministérios da mulher, deve levar a “perguntar constantemente como servir melhor a humanidade em busca da salvação e da maneira mais coerente com o mandato do Mestre”. E o alcance do discernimento da Igreja sobre os ministérios da mulher deve ser “o bem do povo de Deus em contextos geográficos, culturais, eclesiais muito diferentes”.

Restituir à Igreja o rosto masculino e feminino 

A teóloga considera que a reflexão sobre os ministérios teve que voltar à fonte: ao batismo, onde “toda a vocação nasce e floresce”, e que confere a dignidade a todos, homens e mulheres. Essa dignidade, sustenta, “não diz respeito apenas ao serviço sacerdotal: por isso é contraditório pensar que o sacerdócio concedido às mulheres é uma forma de reconhecimento da sua dignidade”.

“Não se trata de restaurar o diaconato das mulheres; seria muito pouco se se limitasse às funções que tiveram as diaconisas que ficaram conhecidas ao longo da história. Trata-se de fazer mais: escutar o que o Espírito sugere à Igreja, para restituir o rosto masculino e feminino da humanidade em ordem ao Reino”.

Antes de defender que a reflexão sobre os ministérios das mulheres na Igreja “não pode ser separada de uma teologia renovada sobre a pessoa humana (antropologia que considere o masculino e o feminino segundo a criação e segundo a vocação)”, Michelina Tenace faz notar, na parte final da sua comunicação, dois riscos de reducionismo que sofre a questão dos ministérios da mulher. Trata-se, de um lado, da “redução da dignidade de todo o ministério à dignidade do sacerdócio ministerial”; e, do outro, da “redução da dignidade do sacerdócio ministerial ao sacerdócio de Cristo como ‘masculino’”.

 

A Loucura do Bem Comum

A Loucura do Bem Comum novidade

O auditório está quase cheio e no pequeno palco alguém inicia a conferência de abertura. Para me sentar, passo frente a quem chegou a horas e tento ser o mais discreta possível. Era o primeiro tempo do PARTIS (Práticas Artísticas para a Inclusão Social) de 2024 na Fundação Gulbenkian. O tema “Modelos de escuta e participação na cultura” desafiou-me a estar e ganhei esse tempo! [Texto Ana Cordovil]

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

O regresso da sombra da escravidão

O regresso da sombra da escravidão novidade

Vivemos um tempo de grande angústia e incerteza. As guerras multiplicam-se e os sinais de intolerância são cada vez mais evidentes. A fim de ser concreta também a nossa Quaresma, o primeiro passo é querer ver a realidade. O direito internacional e a dignidade humana são desprezados. [O texto de Guilherme d’Oliveira Martins]

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This