Diáconos não são “sacerdotes de segunda”

| 13 Jun 20

​No passado mês de maio, o bispo de Roma, Papa Francisco, declarou como sua intenção de oração (ora+ação) os diáconos do mundo inteiro. Na sua alocução Francisco recordou à Igreja Católica Romana que os diáconos não são “sacerdotes de segunda”. E continua olhando para os diáconos como aqueles cuja ação é serem portadores da Boa Nova junto dos mais desfavorecidos, dos mais pobres, daqueles que estão na periferia. Destina ao diaconado, restaurado pelo último Concílio Ecuménico do Vaticano, a função mais suprema do ser cristão, que é uma atitude de inclusão de todos e todas que a sociedade pretende integrar. Mas o bispo de Roma é de uma clareza, muito sublinhada, quando fala na Palavra a levar aos mais esquecidos, quer pelos poderes políticos, quer até pelos poderes religiosos. Este “levar a Palavra” é sintomático de querer incluir, e não integrar, os diáconos numa libertação com os mais espezinhados por uma desumana humanidade. “Levar a Palavra” significa que a libertação dos excluídos se faz mais pelo seu movimento, do que, propriamente, por uma suposta caridade, que eleva a um “poder” de quem a pratica.

Ser diácono significa, como Filipe, o mártir Estevão ou Francisco de Assis – este que nunca quis ser ordenado presbítero –, partilhar a liberdade de Jesus com a Humanidade. Esta no seu todo, estrangulada por quem não respeita a dignidade humana, mas, também não respeita seres vivos, que no seu conjunto são chamados abióticos. Não é, portanto, uma substituição dos “padres” – porque, dizem, “não há vocações” –, nem sequer querer estar atrás de um altar, mas através deste conseguir partilhar a Eucaristia, no seio da Humanidade.

Na minha opinião, até talvez não seja bem a gestão dos centros sociais ou de outras organizações da igreja, mas titular o movimento inclusivo e autónomo daqueles que mais sofrem. Gostaria de destacar e (re)dizer que o diaconado está para a Humanidade no seu todo, por isso mesmo é para os diáconos de grande importância ter um mestre como Francisco de Assis, que ensinou aos diáconos que a Eucaristia se oferece ao altar do mundo, juntamente com todos os astros, todos os outros mundos, todos os animais e todas as plantas.

Ser diácono é possuir um mandato especial, é ser um “sacerdote” fora dos “esquemas”, é ser subversivo, é conflituar com a indignidade que tantos possuem contra a Natureza, é profético, não se coaduna com a iniquidade, faz o Amor acontecer. E se vir uma árvore chama-lhe irmã, ao Sol irmão, e aos homens e mulheres irmãos e irmãs de caminhada, qualquer que sejam os seus desejos políticos e religiosos, na certeza que pugnam por um desenvolvimento integral dos seres vivos, que forjam em si, no Espírito do Senhor, os fautores da Esperança num mundo onde a água jorre, como na Samaritana ou o Samaritano ferido junto à estrada.

O diaconado que sempre existiu em todas as tradições religiosas e tem sido para todos os homens, que podem ser casados, foi restaurado na Igreja Católica Romana, parcialmente, porque exclui as mulheres, o que é contrário à própria Criação de Deus, seja qual for a propositura: bíblica, teológica, doutrinal, histórica. O diaconado feminino será não um “diaconado de segunda”, mas mais uma plena realização do Evangelho de Jesus. O diácono não é um “sacerdote de segunda”, como a mulher não é, nem nunca foi, uma “cristã de segunda”.

Obrigado Francisco, bispo de Roma e Papa, por este mês de oração.

 

Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental

 

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