Diálogos com Paulo Freire

| 30 Mai 2020

Diálogos com Paulo Freire

| 30 Mai 20

Trata-se de dois livros inspirados na filosofia de Pauloreire, a quem de há largos anos chamo meu “Mestre”: o primeiro, de Christopher Damien Auretta, Diz-me TU quem EU sou: Diálogo com Paulo Freire. O segundo, do mesmo autor com João Rodrigo Simões: Autobiografia de uma Sala de Aula: Entre Ítaca e Babel com Paulo Freire (Epistolografia). Damien Auretta é professor na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. João Rodrigo Simões é professor de Matemática no ensino secundário, tendo colaborado nos seminários sobre Pensamento Contemporâneo da Universidade Nova, liderados por Damien Auretta.

No âmbito dos projetos de alfabetização do Movimento do Graal a que pertenço, fui formada como “alfabetizadora” segundo o então chamado “método Paulo Freire”.  Fiz alfabetização, sim, “levei” dois grupos a fazer a então quarta classe (hoje 4º ano do ensino básico), animei sessões sobre os novos direitos sociais e políticos das mulheres no pós-25 de Abril, sobre alimentação, educação de crianças, etc., destinados a mulheres do meio rural, usando sempre a pedagogia de Paulo Freire.

Impedido de o fazer em Lisboa, o Graal implementou projetos de alfabetização e “desenvolvimento humano” na diocese de Portalegre, antes do 25 de Abril de 1974. Cheguei a conhecer o meu “Mestre” quando ele pôde finalmente visitar Portugal. Para além de conhecer melhor o nosso trabalho, Paulo Freire vinha recrutar “mininas do Graal” como ele nos chamava, para trabalho de reciclagem de antigos guerrilheiros do PAIGC na Guiné Bissau, tornando-os “animadores” das suas comunidades.

Ofereci-me para ir. Numa esplanada de uma aldeia perto de Coimbra, enquanto bebíamos um “cafèzinho”, Paulo Freire, figura de profeta de espessas barbas brancas, na sua proverbial bonomia, afirmou-me olhos nos olhos: “Minina, você não vai trabalhar para a Guiné, você vai trabalhar com a Guiné.” O projeto não chegou a concretizar-se, mas a frase/recomendação que ouvi ficou inscrita em mim para sempre, abrindo-me a uma concepção transformadora de educação – de educandos e educadores – em contraposição à tradicional “concepção bancária”: “ninguém educa ninguém, todos nos educamos uns aos outros mediatizados pelo mundo”. Era este o “ideário” de Paulo Freire.

 

“Pai espiritual”

Os dois livros agora publicados (ambos nas edições Colibri) abordam exatamente o “ideário” de Paulo Freire ao nível da formação profissional dos professores, habilitando-os para a docência. São dois livros inspiradores para a prática de quem é professor, mas são também dois pequenos manuais de representação do pensamento de Paulo Freire na filosofia da educação e na pedagogia. A minha docência no ensino superior também foi marcada pelo ideário de Paulo Freire: todos os meus alunos de pedagogia, futuros educadores e professores, logo no início da sua formação liam, discutiam criticamente e procuravam integrar no seu pensamento sobre educação o conhecido livrinho Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa.

Só bem mais tarde, nos anos 1980/90 as concepções educativas e compromissos políticos de Paulo foram descobertos no meio universitário internacional com grande relevância para o trabalho na Universidade da Califórnia (Giroux, Teachers as Intellectuals, entre outros), onde C. Damien Auretta se doutorou, e no Instituto Paulo Freire em S. Paulo (Moacir Gaidotti). Ainda Paulo Freire não “tinha entrada” em Portugal e eu lia El Mensaje de Paulo Freire – Teoria y Practica de la Liberación (Inodep, Instituto Ecuménico ao Serviço do Desenvolvimento dos Povos, Paris), aquando de uma pós-graduação em Psicopedagogia em Madrid, em que encontrei sobretudo colegas latino-americanos.

Auretta afirma na introdução ao seu livro que Paulo Freire é “pai espiritual e interlocutor íntimo deste volume” – uma feliz imagem daquilo que é este livro – e que a sala de aula é “uma realidade onde a comunicação humana se vê, se conhece, cresce e se transforma (…); o docente é um muito privilegiado sinaleiro de caminhos possíveis”. Segundo Auretta, “esta autobiografia regista, portanto, a convivência do autor com alunos do primeiro e segundo ciclo universitários” numa escola “entendida e vivida como palco de uma pedagogia da libertação”.

O livro, dedicado a Paulo Freire, é apresentado em 101 fragmentos, reflexões pedagógicas elaboradas com base em citações dos inúmeros livros de Freire publicados entre nós e no estrangeiro. Estes fragmentos, com uma significativa variedade de temas, cruzam-se criativamente com outros pensadores como Karl Jaspers, os poetas Jorge de Sena e Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), o pianista, cego de nascença, Nobuyuki Tsujii. Um manancial de pensamento e análise crítica vitais a quem faz e pensa a educação. “Ética e estética de mãos dadas”, afirmava Paulo Freire.

Um olhar alargado

Na Autobiografia de uma Sala de Aula, Cristopher Auretta e João Rodrigo Simões apresentam 20 cartas que escrevem entre si há mais de 15 anos: Freireando [1], afirmam os autores na introdução: “dois docentes, vinte cartas, uma visão sincopada”. Este epistolário converteu-se em forma de crescimento “enquanto seres humanos e enquanto docentes mediante uma reflexão cada vez mais atenta à sua visão e prática pedagógicas a partir, e ao mesmo ritmo, das nossas próprias experiências pedagógicas”.

Neste segundo livro repete-se um olhar alargado sobre as questões da cultura, usando igualmente o pensamento de Alan Turing, Bertrand Russell, Rómulo de Carvalho/António Gedeão, Noam Chomsky, entre outros. Insistem na pertinência da pedagogia de Paulo Freire: “revigora a capacidade de imaginarmos outro tipo de sala de aula, outros percursos e outros destinos para sujeitos-entre-sujeitos, noutras palavras, para cidadãos menos oprimidos na Torre de Babel contemporânea” (…) “numa espécie de narrativa inter-subjetiva e intra-subjetiva (…) num desdobramento de temas que refletem não só questões específicas levantadas pelos destinadores-destinatários, mas, também, a evolução práxica e memória profissional de cada docente à luz das suas experiências na sala de aula”. É inequivocamente sublinhada a importância da conscientização, outro termo freiriano: “uma passagem da menoridade intelectual e existencial para níveis mais elevados de consciencialização”. Assim, a conscientização é um conceito essencial no léxico filosófico-pegagógico de Freire e exige “coragem e persistência”. “A caminho de Ítaca?” perguntam os autores, referindo-se ao conhecido poema de Konstantino Kaváfis com o mesmo título (1982).

Trata-se de um conjunto de cartas verdadeiramente dialógicas, ao jeito e terminologia de Paulo Freire, em que um medita e escreve e o outro o interpela com as suas próprias questões. Babel pode significar a escola que construímos, o mundo civilizacional em que vivemos. Daí que a Torre de Babel se torne inviável (do Antigo Testamento, Gen. 11, 1-9, mito baseado na cultura suméria), porque é ambição desmedida querermos subir ao céu e tocar Deus.

Os autores referem-se à escola como podendo tornar-se uma instituição que escraviza “alunos e docentes, consciência e mundo, história e sociedade”. Estas palavras são fortes, mas acredito que pode ser mesmo ser assim… Um dos autores refere António Gedeão: “a nossa capacidade de ‘transmutar’, esta chatice em flor” (Poema do Alquimista). A certa altura, na décima-segunda carta, afirma um dos autores: “Como posso ser docente, i.e., um agente assíduo da Escola (que já lá está) e, apesar disso, ensinar a amar a vida?”

Contrapondo a publicação destes livros ao estudo divulgado há poucos dias, segundo o qual apenas 10% dos alunos portugueses gosta das aulas, podemos afirmar que vivemos numa situação de “urgência” pandémica. Diante das estatísticas, estes dois livros constituem-se num excelente instrumento de reflexão. Não só para quem ensina, da creche e do jardim de infância à universidade, mas também para as famílias e comunidades, para as estruturas sociais e culturais a que pertencemos, ou até para aqueles que nos governam ou para a Igreja institucional. As reflexões filosófico-pedagógicas de Paulo Freire são vitais para todos. Deixemo-nos então invadir e impregnar pelo pensamento do [meu] grande Mestre. Deixemo-nos enraizar nele.

 

Nota

[1] Cfr. Jobiniando, música de Ivan Lins com letra de Martinho da Vila, 2001.

Teresa Vasconcelos é professora do ensino superior aposentada e participante no Graal, movimento internacional de mulheres enraizadas na fé cristã. (t.m.vasconcelos49@gmail.com )

 

[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]

“A homilia não deve durar mais de oito minutos, senão as pessoas adormecem… e com razão!”

Papa Francisco insiste

“A homilia não deve durar mais de oito minutos, senão as pessoas adormecem… e com razão!” novidade

Já não é a primeira vez que o Papa deixa este aviso aos padres católicos, e na catequese desta quarta-feira,12 de junho, voltou a insistir: “A homilia não deve durar mais de oito minutos, porque depois, com o tempo, perde-se a atenção e as pessoas adormecem… e com razão!”. Perante milhares de fiéis na Praça de São Pedro, Francisco explicou que o objetivo de uma homilia é “ajudar a transferir a Palavra de Deus do livro para a vida”.

Jornalista Zhang Zhan foi libertada pelas autoridades chinesas

Após quatro anos de detenção

Jornalista Zhang Zhan foi libertada pelas autoridades chinesas novidade

Após quatro anos de detenção, a jornalista Zhang Zhan foi libertada pelas autoridades chinesas. Numa mensagem divulgada esta terça-feira, 11 de junho, a Amnistia Internacional apela às autoridades chinesas que garantam que Zhang Zhan seja autorizada a circular livremente e a comunicar com pessoas dentro e fora da China, e ainda que ela e a sua família não fiquem sujeitas a vigilância ou assédio, devendo ter pleno acesso a tratamento médico após a sua experiência traumática.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Vai nascer uma “Aldeia da Esperança” nos Açores, inspirada em Taizé

Proposta pelo Conselho Pastoral Diocesano

Vai nascer uma “Aldeia da Esperança” nos Açores, inspirada em Taizé novidade

“Organizar uma `Aldeia da Esperança´, dirigida aos jovens, em formato de acampamento, seguindo o modelo de Taizé, a decorrer no verão, de preferência na ilha de São Jorge, no Santuário do Senhor Santo Cristo da Caldeira”: esta é uma das várias propostas feitas pelo Conselho Pastoral Diocesano de Angra – reunido em Ponta Delgada entre os dias 8 e 10 de junho – que irá passar do papel à prática.

Lembrar Aristides de Sousa Mendes, “seguir a voz da consciência” e também hoje “salvar vidas”

Comissão Justiça e Paz de Braga

Lembrar Aristides de Sousa Mendes, “seguir a voz da consciência” e também hoje “salvar vidas” novidade

A Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Braga associa-se à comemoração do Dia da Consciência – que se celebra anualmente a 17 de junho em homenagem a Aristides de Sousa Mendes – através de uma mensagem que assinala a importância de, tal como fez o cônsul de Portugal em Bordéus no século passado, “seguir a voz da consciência” e assim contribuir, no tempo presente, para “salvar vidas”.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This