Diálogo é a conversação estabelecida entre duas pessoas; mas ele é, também, “[…] Conversação entre várias pessoas. […] Obra literária em forma de conversação que um autor faz ter às personagens que apresenta. [Música] Composição em que as vozes ou os instrumentos se alternam ou se respondem.” [Definição do dicionário Priberam]
No caso em apreço, a conversa que vamos ouvindo ao percorrer as salas do Museu Nacional Machado de Castro é um profundo diálogo que as quase duas centenas de obras estabelecem entre si e que as comissárias científicas da exposição Diálogos. A Coleção Calouste Gulbenkian no Museu Nacional de Machado de Castro nos propõem que escutemos: mais precisamente, são 178 peças, sendo 93 do Museu Calouste Gulbenkian e 85 das coleções do Museu Nacional Machado de Castro. Diálogo inovador entre as coleções destas duas importantes instituições nacionais, só possível porque os dois museus se encontram em obras de renovação dos seus espaços (o que também não deixa de ser uma parte da conversa). Uma exposição a não perder, em Coimbra, que ainda pode ser vista até ao próximo dia 22 de fevereiro.

Exposição Diálogos no Museu Nacional Machado de Castro, em Coimbra (até fevereiro de 2026). Foto © João Marujo
A opção foi a de construir a exposição em torno de um conjunto de temas, e não a organizar pelo tradicional discurso cronológico, estabelecendo assim conversas em torno das “diferentes culturas, geografias e períodos históricos, da Antiguidade à Idade Moderna, convidando à descoberta de afinidades técnicas, estéticas e conceptuais”. São dez os temas que nos são propostos: Tempos medievais; Imagens de devoção: narrativas da arte cristã; Laca japonesa; Humanismo em diálogo; Roma em circulação no espaço do Mediterrâneo; Produções têxteis safávidas e otomanas; Iznik: gosto e estatuto na arte otomana; Arte mudéjar: entre a Sé e o Paço Episcopal; Capela do Bispo e Arte europeia. Estes três últimos só têm peças do museu conimbricense – expostas em três novas salas temáticas desde já preparadas para integrar o circuito do MNMC, na futura exposição de longa duração –, estabelecendo pontes menos imediatas, mas existentes, com os restantes: longe de reduzirem “as coleções do MNMC aos circuitos da produção local”, estas salas (como toda a exposição, aliás) permitem ao visitante descobrir “o protagonismo e a excecionalidade criativa de Coimbra ao longo de séculos”, como se lê na folha de sala.

Foto © João Marujo
Gostaria de deixar duas pequenas notas sobre o que me parece menos conseguido; pormenores de museologia que, de modo nenhum, retiram o brilho à exposição.
Assim, e desde logo, o imenso reflexo de algumas vitrines, percetível desde a primeira sala; bem sei que a (ou uma das) forma(s) de diminuir este indesejado efeito é extremamente dispendiosa e nem sempre muito eficaz, levando a ponderar o custo-benefício: o vidro antirreflexo. Provavelmente, noutros casos, bastaria uma diferente organização do espaço para se conseguir atenuar alguns desses efeitos. Na segunda sala, por exemplo, parece-me que a “simples” inversão dos dispositivos museológicos, conseguiria reduzir bastante os reflexos que muito dificultam a escuta da conversa das peças que se encontram dentro da vitrine; isto é: se, ao contrário do que está, a vitrine tivesse sido colocada à direita de quem entra, ela própria teria funcionado como blackout à imensa janela que se encontra nessa parede; por sua vez, a peça de Garcia Fernandes ganharia em não ter um “janelão de luz” à sua esquerda.
O segundo aspeto prende-se com a altura a que estão colocadas algumas peças: se para alguns adultos mais baixos ela é demasiada (ouvi relatos dessa dificuldade), o mesmo se aplicará a crianças.
Como disse, porém, são pormenores que não retiram importância à exposição, profundamente marcada pela qualidade das peças e das relações que geram e dos diálogos que nos fazem escutar.
De modo a aguçar o apetite dos leitores, direi que em Tempos medievais somos de imediato instados a dialogar com a Virgem-relicário, das coleções do Museu Nacional Machado de Castro, e a Virgem com o Menino, do Museu Calouste Gulbenkian e atribuída a Jean de Liège; em Imagens de devoção: narrativas da arte cristã são ricas as conversas entre o Aparição de Cristo à Virgem, de 1531, de Garcia Fernandes (MNMC), e as pequenas tábuas da Gulbenkian, com a Anunciação, executada no círculo de Dieric Bouts entre 1480 e 1490, e a Apresentação do Menino no templo, de Stephan Lochner, de medos do mesmo século XV; também como a que se estabelece entre o Ecce Homo, pintado entre 1514-1517 por Quentin de Metsys e a Virgem com o Menino (de cerca de 1505–1510), de Adriaen Isenbrant, ambas do Machado de Castro, e as pinturas de Santa Catarina e de São José, de Rogier van der Weyden, vindas do Museu Calouste Gulbenkian.

Foto © João Marujo
A delicada beleza e qualidade das obras presentes em Laca japonesa como que nos convoca para uma conversa sussurrada, para o que havíamos sido preparados pelo “excecional conjunto de doze marfins medievais, dípticos e trípticos de devoção pessoal, de origem maioritariamente francesa e uma dezena de livros manuscritos, que compreendem exemplares dos séc. XII ao séc. XV, incluindo o célebre Livro de Horas de Ayala, realizado na Flandres por volta de 1495-1505” (marfins e livros pertencentes às coleções do MCG e que encerram o núcleo anterior, Imagens de devoção…).
A conversa continua, harmoniosa, em Humanismo em diálogo, ganhando no conjunto do Calvário uma dimensão quase perfeita, com o Cristo crucificado e os anjos turiferários pertencentes às coleções do MNMC e a as esculturas da Virgem e de São João a chegarem-nos da Gulbenkian: não fora a diferente escala das peças, quase poderíamos afirmar ser um conjunto com a mesma origem. A Cabeça de apóstolo, de Philipe Hodart, o escultor de origem francesa que executou a Ceia de Cristo, a que este fragmento pertence, entre 1530 e 1534 para o refeitório do Mosteiro de Santa Cruz (hoje nas coleções do Museu conimbricense), personifica a cultura humanista deste período que “[…] dialoga entre fronteiras e harmoniza o caudal criativo alimentado sobretudo pela produção estrangeira. É sempre o Homem, na sua múltipla condição terrena ou espiritual, que reivindica o equilíbrio entre a teoria e a prática e o compromisso da salvação”, refere a folha de sala.
O núcleo Roma em circulação no espaço do Mediterrâneo é atravessado por um diálogo feito de contrastes, de dimensão e materiais, colocando o medalhão romano de Abuquir, com a representação de Alexandre, o Grande (uma das obras maiores do Museu Calouste Gulbenkian) a conversar com os bustos de Agripina e de Trajano [ver foto inicial] parte do património do antigo fórum de Aeminium, tornando clara a leitura das permanências, artísticas e culturais, que se descobrem em todo o espaço mediterrânico.

Foto © João Marujo
Para Produções têxteis safávidas e otomanas e Iznik: gosto e estatuto na arte otomana, a equipa de comissários e curadores selecionou um conjunto de peças que refletem, de forma muito evidente, os gostos de Calouste Gulbenkian: da Turquia e da Pérsia chega-nos um conjunto de tapetes importados bem representativos da influência que essas produções exerceram na nossa tapeçaria de Arraiolos; de origem genovesa, alguns panejamentos de veludo e seda, casacas e casulas. O gosto do colecionador pela cerâmica de Iznik levou-o a formar uma importante coleção, hoje incontornável em termos mundiais para esta tipologia de peças, tal como se pode observar na exposição.

Foto © João Marujo
Não me tenho cansado de afirmar “o firme compromisso [assumido pela nova direção do Museu Nacional Machado de Castro] de salvaguarda, estudo e divulgação das coleções”, destacado na informação sobre esta exposição à imprensa. A mostra é mais uma etapa muito coerente desse percurso.
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