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Entre Margens

Diante da dor na Terra Santa, a urgência do compromisso cristão

| 03/08/2025

 

Como cónego do Santo Sepulcro de Jerusalém, pertencendo à Igreja Mãe, sinto uma permanente e profunda responsabilidade de comunhão e solidariedade para com os cristãos da Terra Santa. Face ao sofrimento que se abate de forma cruel sobre os nossos irmãos daquela terra, não posso permanecer indiferente. Importa, por isso, dar eco das palavras corajosas do cardeal Pierbattista Pizzaballa, patriarca latino de Jerusalém, que condenou não só o ataque de Israel à única paróquia católica de Gaza, a Sagrada Família, como também a persistente vaga de vandalismo perpetrada por colonos judeus contra santuários, cemitérios e propriedades na Cisjordânia.

Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém

Cardeal Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém, “que condenou não só o ataque de Israel à única paróquia católica de Gaza, a Sagrada Família, como também a persistente vaga de vandalismo perpetrada por colonos judeus contra santuários, cemitérios e propriedades na Cisjordânia.” Foto © Ricardo Perna

O mundo parece ter fechado os ouvidos, os olhos e o coração a tanto sofrimento. Confesso a minha preocupação por não ver uma reacção mais firme, não só da comunidade internacional, mas igualmente da própria Igreja Católica e das diferentes denominações cristãs – quase todas representadas na Terra Santa. Foi com profunda consternação que, na minha mais recente viagem a esses lugares – Páscoa de 2025 – pude testemunhar in loco o radicalismo judaico dirigido contra as igrejas, fenómeno que então denunciei. O meu maior receio é que o mundo se mantenha cego, surdo e insensível perante tanto sofrimento, tantas mortes diárias, tantos feridos, e diante das crianças, vítimas inocentes, condenadas ao infortúnio de pedir pão para matar a fome e que acabam desnutridas, mutiladas e mortas.

Neste contexto, partilho a mensagem recebida através da Secretaria de Estado de Sua Santidade, o Papa Leão XIV, expressando a profunda tristeza do Santo Padre face aos trágicos acontecimentos na Paróquia da Sagrada Família em Gaza:

“Sua santidade, o Papa Leão XIV, ficou profundamente triste ao tomar conhecimento da perda de vidas e dos ferimentos causados pelo ataque militar à igreja católica da Sagrada Família em Gaza, e garante ao pároco, padre Gabriele Romanelli, e a toda a comunidade paroquial sua proximidade espiritual. Ao recomendar as almas dos falecidos à misericórdia de Deus todo-poderoso, o santo padre reza pela consolação dos que sofrem e pela recuperação dos feridos. Sua santidade renova seu apelo por um cessar-fogo imediato e expressa a sua profunda esperança por diálogo, reconciliação e paz duradoura na região.”

Refugiados acolhidos na paróquia da Sagrada Família, na cidade de Gaza, participam na missa diariamente. Foto Direitos reservados

Refugiados acolhidos na paróquia da Sagrada Família, na cidade de Gaza, participam na missa diariamente. Foto Direitos reservados

Do mesmo modo, ecoo as palavras do Patriarcado Latino de Jerusalém, que, na sua declaração, exprime dor, indignação e um apelo à consciência moral do mundo:

“Esta manhã, por volta das 10h20, o complexo da Sagrada Família em Gaza, pertencente ao Patriarcado Latino, foi atingido pelo exército israelita. (…) O pároco, Padre Gabriel Romanelli, sofreu ferimentos leves.

“As pessoas no complexo da Sagrada Família encontraram na Igreja um santuário – na esperança de que os horrores da guerra lhes poupassem as vidas, depois de já lhes terem sido roubados bens e dignidade… O Patriarcado Latino condena veementemente esta tragédia e este ataque a civis inocentes e a um lugar sagrado… Esta guerra horrível deve chegar ao fim completamente – para que possamos começar o longo trabalho de restauração da dignidade humana.”

Estou solidário com todos aqueles que, sofrendo, continuam a alimentar, apesar de tudo, a esperança na paz. Que a voz dos justos não se cale e que o mundo inteiro, sobretudo os cristãos, não se habitue ao sofrimento dos seus irmãos. E que o Senhor conceda, finalmente, a sua Paz à Terra Santa.

Todos os cristãos têm obrigação de rezar pela paz na Terra Santa, mas isso é manifestamente insuficiente. Tenhamos a coragem de ir mais além e fazer algo mais.

 

Jacinto Bento é padre católico da diocese de Angra do Heroísmo, pároco em São Pedro de Angra e cónego do Santo Sepulcro de Jerusalém.

 

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