Do Minho a Compostela a pé

Diário de Caminho (3): Fazermo-nos travessia

| 7 Mar 2024

Saída de Mos, caminho de Santiago. Foto Cláudio Louro

“O dia amanheceu em Mos repleto de nevoeiro. (…) Confesso que sempre gostei de nevoeiro. Tudo fica com um certo ar cinematográfico.” Foto © Cláudio Louro

O dia amanheceu em Mos repleto de nevoeiro. A roseira à entrada do albergue estava envolta dessa tonalidade um tanto ou quanto misteriosa. Confesso que sempre gostei de nevoeiro. Tudo fica com um certo ar cinematográfico.

Depois do pequeno almoço, abracei o caminho que, a cada quilómetro, é sempre surpreendente. Neste caso, até bastaram uns metros de subida, para afinal atravessar a névoa e descobrir um céu azul e radiante de sol.

Cruzei-me com uma peregrina. Copiei-lhe o gesto e contemplei as nuvens a dançarem com a luz do sol por entre as montanhas. Eis-me em busca. Em busca da Presença que está sempre no quilómetro mais fundo de nós mesmos. Escutei o “Passo a rezar”, contemplando a contínua aula que a natureza nos dá: tempo. Por vezes, descubro-me numa sensação de pressa eminente. A pressa do fazer, a pressa de sentir, a pressa até da própria conversão. Olhar para as flores descansa-me. “Não trabalham, nem fiam”… Deixam-se trabalhar e fiar. Sem pressa.

Vejo a placa: faltam cerca de 94 km para Santiago. Releio a mensagem bonita que a minha prima me enviou ontem. Sorrio. Sigo caminho, abraçando-me, e procurando mergulhar mais fundo. Surge um caminho de terra por entre as árvores, com um quê de mística. Subo-o ao som da Sara Tavares, saboreando esse “ponto de luz aceso na alma”.

Após atravessar um monumento bastante significativo, em honra das mulheres que sofreram violência, eis que os trilhos começam a variar no declive e no terreno. Também os meus pensamentos foram andando por montes e vales, deixando-me mais desgastado psicologicamente.

Um coração na travessia, caminho de Santiago. Foto Cláudio Louro

Um coração a caminho de Santiago. Foto © Cláudio Louro

 

Cheguei a Redondela e descansei. Almocei, e parei na Igreja de Santiago, onde estive em oração e reflexão. A clarividência surgiu e deixou-me mais leve e livre para o caminho. Identifiquei alguns padrões que Deus me tem ajudado a desmontar. Reconhecê-Lo nessas dores de crescimento é uma grande graça! Ele sonha-nos livres. Para tal, há que atravessar aquilo que é sombra em nós.

Talvez esses sejam quilómetros fundamentais que têm mesmo de ser percorridos, com tempo, ao ritmo de cada um. Sem pressa. Vamos a isso. Depois da subida e descida da montanha, cheguei à bela Ponte Sampaio. É hora de descansar. Amanhã é nova travessia.

Ponte Sampaio, caminho de Santiago. Foto Cláudio Louro

Ponte Sampaio. Foto © Cláudio Louro

 

Cláudio Louro é animador pastoral e professor de Educação Moral e Religiosa Católica; nas horas livres volta ao universo da música e do teatro musical com os amigos e considera-se atualmente em estado de caminho.

As partes anteriores deste Diário podem ser lidas aqui.

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