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Parede do Albergue da Portela, no caminho de Santiago. Foto Cláudio Louro

Do Minho a Compostela a pé

Diário de Caminho (4): Fazermo-nos encontro

| 08/03/2024

Parede do Albergue da Portela, no caminho de Santiago. Foto Cláudio Louro

Parede do Albergue da Portela, uma casa vestida de histórias e encontros. Foto © Cláudio Louro

 

Escrevo o registo de hoje à mesa de uma casa vestida de histórias. Neste momento, estou no albergue da Portela, onde fui recebido calorosamente pelo Pedro. O Pedro é português e já há uns anos que recebe os peregrinos do caminho com um acolhimento único. Cozinhou para nós um delicioso e fortificante jantar e convidou-me a sentar-me à mesa com todos os outros peregrinos. Aqui jantamos juntos! Hoje escrevo a partir deste final de dia, pois sinto que esta mesa de partilha e de encontro foi a cereja no topo do bolo, por todas as surpresas extraordinárias por onde Deus quis que eu caminhasse. Mas, para explicar melhor, eis o início.

O dia começou com uma energia diferente. Senti que me custou mais a levantar. Mas também sentia a vontade de mergulhar a fundo no Caminho. Conversei com a rapariga que estava a dormir no beliche de baixo. São boas estas partilhas espontâneas sobre o percurso de cada um, que nos leva até onde estamos no preciso momento, com a consciência de que nunca nenhuma história que se cruza com a nossa é ao acaso.

“É preciso morrer e nascer de novo”, lá me vinha à mente os versos da canção da Mafalda Veiga.. Tomei o pequeno-almoço com esta sensação de defesa que, apesar de tudo, ainda sinto dentro de mim na relação com os outros, essa que se vai mascarando de “fortaleza”, como no primeiro dia em Valença. É preciso abrir: effathá (mal sabia eu que era exatamente por aqui que Deus me iria levar hoje).

Veio-me à memória que o importante, na verdade, é a direção para onde caminhamos. Não importa se erramos muito, pouco, se voltamos àquele velho padrão, se ainda não gostaríamos de estar exatamente onde gostaríamos de estar. Para Deus importa apenas a direção, a intenção de fazer caminho. O reconhecermo-nos despojados, longe da meta, mas na sua direção, já é o suficiente para Deus. As palavras da minha prima ressoaram novamente. Recordei também as muitas pessoas que me foram enviando mensagem de força e apoio. Uma grande amiga, de infância, reforçou que estava comigo. Levo todos estes rostos, histórias, amizades, comigo. Ao iniciar o percurso e subir a montanha, senti que tudo isto se transformava em oração. Cada passo era essa oração encarnada que levava consigo muitos outros passos. Caminho por eles e pela paz.

Nessa subida, passaram por mim vários peregrinos. Depois o caminho começou novamente a ficar mais entre mim e Deus.

Entrei na Capela de Santa Marta, em Vilaboa. Entrou também uma peregrina. Depois de termos estampado o selo na credencial, saímos. Lá fora, estavam mais dois peregrinos que pertenciam ao mesmo grupo. Reconheceram-me, pois por várias vezes tínhamo-nos cruzado em restaurantes ao longo do percurso. Ao dizer que sou de Lisboa, rapidamente descubro que há um português nesse mesmo grupo: o Diogo. E eis que o caminho de desbrava por entre partilhas, conversas e mútuas descobertas. O tempo passou a correr! Quando demos por isso, eu, o Diogo, a Agnes e a Magdalena já estávamos em Pontevedra. Convidaram-me para almoçar com eles, e assim foi. Guardo estes momentos como um dos tesouros do Caminho, porque diante de algum cansaço psicológico que vinha sentindo, cruzar-me com eles foi uma  bênção e uma surpresa dos céus. À hora de almoço partilhámos um pouco de tudo, desde a realidade política à urgência de uma Igreja de portas abertas, que não se feche em si mesma, mas que se faça encontro, tal como cada um de nós é chamado a fazer-se encontro. Falámos do quão interessante seria se as Igrejas do Caminho estivessem de portas literalmente abertas, acolhendo os peregrinos com uma pequena dinâmica ou pergunta para reflexão. Muitas vezes os peregrinos sentem-se mais acolhidos pelo mar, em Finisterra, do que pela Catedral de Santiago. Isto deve ser um alerta, um sinal claro para a Igreja não se enclausurar, mas abrir, abrir, abrir!!! Acolher, abraçar!

Após um tempo frutífero de conversa, deparámo-nos com o inesperado passar do tempo. Que bom!!! Como a amizade e as conexões humanas têm a capacidade de transformar o próprio tempo. Visitámos a Igreja da Virgem Peregrina e como o Diogo, a Agnes e a Magdalena iam permanecer em Pontevedra e eu seguia caminho, despedimo-nos, sabendo que poderá ser um “até breve”.

 

Cláudio Louro, o Diogo, a Agnes e a Magdalena, no caminho de Santiago. Foto DR

Despedi-me do Diogo, da Agnes e da Magdalena, sabendo que poderá ser um “até breve”. Foto: Direitos reservados

O Caminho é um contínuo apelo a honrarmos o sacro instante presente, diante do outro com quem me encontro, pois não sabemos o quando do reencontro.

Regressei ao caminho entre mim e Deus, de coração cheio. À chuva, por entre campos e bosques, lá cheguei ao Albergue da Portela. O Pedro une pessoas à mesa. Fez-me lembrar Alguém. Aqui estamos em casa. Cada parede, ou pedaço de móvel, ou janela, têm a marca de quantos passaram por aqui… À mesa, partilhei com três peregrinas da Coreia do Sul o diário de viagem, algumas experiências, e ensinaram-me a escrever o nome Santiago em coreano. É bom terminar o dia assim, fazendo-nos encontro, naquela que é a origem da Igreja: a mesa (sem portas).

 

Cláudio Louro é animador pastoral e professor de Educação Moral e Religiosa Católica; nas horas livres volta ao universo da música e do teatro musical com os amigos e considera-se atualmente em estado de caminho.

As partes anteriores deste Diário podem ser lidas aqui.

 

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