
As poças de lama do caminho — a caminho de Pontecesures. Foto © Cláudio Louro
Hoje o dia foi difícil.
Acordei ao som de uma forte chuva que agitava as árvores do jardim. Da janela avizinhava-se um dia… desafiante. Não apenas pelos aguaceiros, como também pela chuva de quilómetros que tinha pela frente, já que teria de chegar ao Albergue Murgadan, em Padrón.
Avistavam-se cerca de 27 Km.
Sentámo-nos à mesa para o pequeno-almoço e comecei a rabiscar um desenho com uma pequena mensagem. A ideia era entregar esse pedaço de diário e vestir mais um pouco as paredes e recantos deste albergue que transborda de nomes e caminhos.
Despedi-me do Pedro e dos peregrinos que ainda lá ficaram. Há sempre uma sensação um pouco agridoce nas despedidas. Por um lado, em muito pouco tempo há uma conexão que o Caminho possibilita acontecer entre nós, que custa deixar para trás. Acredito que a conexão permanece connosco para lá da distância, mas nunca sabemos se iremos ali voltar ou ver aquelas pessoas. Por outro lado, também sabemos que é hora de seguirmos o rumo que queremos trilhar. Eis a exigência do desprendimento.
Ouvi o Passo a rezar de hoje: “Qual é o primeiro de todos os mandamentos?” Reflecti um pouco sobre a exigência da liberdade e da alegria: não absolutizar nada mais além Daquele que é o Único Absoluto, e a tal tensão-equilíbrio entre amar o próximo como a si mesmo.

Árvore em Padron – chamou-me a atenção o parecer que está rasgada. Foto © Cláudio Louro
No caminho vi uma das peregrinas coreanas sozinha. Já não era a primeira vez que a via ficar para trás. Falámos um pouco e disse-me que se eu quisesse poderia avançar, já que eu ainda tinha uma meta ambiciosa pela frente. Resolvi acompanhá-la mais um pouco, sem saber se estaria a fazer bem ou se ela quereria caminhar consigo mesma. No entretanto dos passos, descruzámo-nos. Olhei para trás e vinham dois peregrinos italianos. Começámos a conversar. Um senhor que vinha de carro parou e ofereceu-nos um panfleto a publicitar um restaurante em Caldas de Reis, para peregrinos. Convidaram-me para almoçar com eles e lá fomos trilhando conversas em italiano, inglês e espanhol.
Depois do almoço não sabia se havia de ficar mais tempo na cidade e seguir o percurso nesse diálogo com Deus. Deixei-me ir com estes novos companheiros de viagem, que iam para o mesmo destino. Mas só depois dei atenção à necessidade que estava a emergir: essa de ficar mais um pouco e dar tempo a mim e a Deus.
Muitas vezes sinto alguma dificuldade em expressar a necessidade que sinto, sobretudo se não é tão expectável para o outro. Há um certo padrão nisto. Sempre que anulamos ou não damos voz a alguma parte de nós que pede a nossa atenção, damos connosco num ritmo que não é bem o nosso.
Por outro lado, senti que foi importante irmos juntos, pois apoiámo-nos mutuamente nesta que foi a travessia mais dura e exigente. A chuva cobria o chão de poças de lama, que por sua vez não deixavam margem para os nossos pés se manterem secos. O caminho foi longo, o cansaço físico e psicológico fazia-se sentir e no meio de tudo isto fui sentindo esse apelo a, simplesmente, render-me – por outras palavras, aceitar. Não lutar contra as circunstâncias nem lutar contra o desgaste que gostaria que não estivesse cá. Nas fracções de instantes em que aceitei de forma mais inteira, senti paz, consolo e leveza. Percebi que esse amor ao próximo e a si mesmo tem que se lhe diga. Chegámos a um ponto do caminho em que nos tivemos de separar. Um dos peregrinos italianos agradeceu pela companhia e por essa parte positiva no meio do desgastante dia de hoje. Segui por mais 40 minutos de chuva, pés encharcados e o corpo a ir dando conta do seu limite.
Entrei em Padrón e vi uma árvore, como que despida ou rasgada. Ressoou em mim a aceitação mais plena das feridas e do enlameado que há em nós.

Mural pintado em Pontecesures. Foto © Cláudio Louro
Hoje foi sexta-feira. Dia de irmos mais fundo no que é isto de aceitar o mistério da cruz, dessa vulnerabilidade que teimamos esconder. É que, ao abraçá-la com toda a confiança, somos atravessados por esse vestígio de luz, da madrugada de domingo.
Cláudio Louro é animador pastoral e professor de Educação Moral e Religiosa Católica; nas horas livres volta ao universo da música e do teatro musical com os amigos e considera-se atualmente em estado de caminho.
As partes anteriores deste Diário podem ser lidas aqui.










