Do Minho a Compostela a pé

Diário de Caminho (7): Fazermo-nos caminho

| 12 Mar 2024

Foto de Cláudio Louro em frente à Catedral de Santiago de Compostela - tirada pela Marlene

Cláudio Louro em frente à Catedral de Santiago de Compostela. Foto: Direitos reservados

Último dia. Ou o primeiro (depende da perspectiva). Estou oficialmente sem telemóvel. Estou a aprender a desenvolver o dom do humor de Deus e a saber rir destas coisas giras que acontecem! Claro que, quando me apercebi esta manhã de que não conseguia sequer ligar o ecrã, mil e uma perguntas surgiram em catadupa: “E agora? Como envio os últimos textos? Como registo os últimos momentos? Como digo à minha família que está tudo bem e que chego àquela hora?…” Tomei a decisão de não alimentar nada disto. Depois de uma aventura destas, não é um telemóvel avariado, no último dia, que me vai desorientar!

Perguntei na recepção se havia alguma loja de computadores para aceder à Internet, mas não sabiam, e o computador que tinham também estava para arranjar. Sabia que Deus me ia guiar e ajudar! Confiança, que o Caminho não terminou (pelo contrário).

Ao sair do hostel, olhei e vi um ATM. Fui até lá, apercebendo-me das engraçadas letras “Fora de serviço”, e qual não é o meu espanto quando uma senhora me pergunta, numa sonoridade portuguesa, para onde ia… Já nos tínhamos cruzado várias vezes e, inclusivamente, tínhamos dormido no mesmo quarto naquela noite. Mas nunca tínhamos falado, e não sabia que era portuguesa. Chama-se Marlene. Expliquei que ia tentar descobrir algum sítio onde pudesse aceder à internet para ver bilhetes de regresso. A Marlene prontamente me ajudou e comprou o bilhete de autocarro para o Porto, em que também ia viajar, e por isso, podíamos ir juntos. Ainda viu qual o comboio que podia apanhar a seguir, para Lisboa. Tudo isto estava a acontecer diante dos meus olhos, num ápice, e pensei no quão fantásticas são as surpresas de Deus!  Ali, na hora certa, Deus cruzou os nossos caminhos.

Entrei no café/restaurante Botafumeiro para o pequeno-almoço. Um café com um toque de Brasil, onde somos recebidos pela alegria do Fernando. Conversei com um peregrino espanhol, que fizera o Caminho Primitivo, o primeiro dos caminhos.

Junto à Catedral, passei por um grupo de peregrinos, cujo guia explicava que, antes, o Caminho era sobretudo uma via de expiação dos pecados. Cada peregrino entrava na Catedral como pecador. De repente, soou uma gaita de foles. Emoldurado pelo arco que se abria à Praça do Obradoiro, o tocador parecia dar as boas vindas aos peregrinos que chegavam. Mais à frente, cruzei-me novamente com as três peregrinas da Coreia. Perguntei-lhes as horas, já que estava sem qualquer acesso a nada que fosse digital. Disseram-me que tinham de entrar rapidamente na Igreja para a Missa do Peregrino, do meio-dia, pois costumava encher. E Deus lá me guiou novamente (nunca me lembraria de ir tão cedo, por isso foi óptimo)! Fomos juntos à Sacristia onde demos às Irmãs as origens dos nossos passos.

Cláudio Louro com peregrinas da Coreia do Sul, no interior da Catedral de Santiago de Compostela

“A missa foi muito bonita. No final, despedi-me das peregrinas Sul Hee Son, Ji Young Kim e Bit Na Yoon, com saudades!” Foto: Direitos reservados

Percebi melhor a razão de fecharem as portas às visitas turísticas, no momento da celebração, dando a possibilidade aos peregrinos de vivenciarem a missa do início ao fim. No entanto, continuei a sentir que há portas que deveriam permanecer sempre abertas. Deus não marca horas.

A missa foi muito bonita. No final, despedi-me das peregrinas Sul Hee Son, Ji Young Kim e Bit Na Yoon, com saudades!

Tinha combinado às 16h estar na estação de autocarros com a Marlene. Cheguei atrasado. Isto porque, além de ir buscar as coisas ao hostel e colocar o “último carimbo”, estava já a descer a rua quando olhei para o cajado. Faria sentido levá-lo para casa? Por um lado era uma recordação bem especial do Caminho, já que me acompanhou praticamente em toda a aventura. Por outro, sempre o senti como dádiva que Deus colocou para me ajudar a trilhá-lo. E assim como foi dádiva para mim, é bom que possa ser dádiva para os outros. Caminhar é uma arte de contínuo desprendimento, desapego. Assim, voltei para trás. Entreguei-o, colocando-o numa parede da Catedral, junto a outro cajado que, curiosamente, repousava no mesmo local. Agradeci.

A viagem de autocarro de Santiago para o Porto foi uma espécie de “ressaca”. Havia uma certa tristeza ou uma qualquer salada emocional difícil de saborear. Eu e a Marlene íamos sorrindo pela janela, ao contemplarmos os lugares por onde tínhamos peregrinado e que se iam revelando diante de nós ao jeito de um flashback.

Fui lendo o livro que trouxera para o Caminho, “Deus de Surpresas”, de Gerard Wughes. Ecoaram-me estas palavras: “Na nossa caminhada para Deus, os avanços são comparáveis àqueles passarinhos cujo voo descreve movimentos acrobáticos de looping: parecem sempre à beira de cair, mas aquela queda em voo, parece impulsioná-los para diante”. Sinto que também estou nessa metamorfose, onde vou tocando margens de mim mesmo. “A resposta está na dor”, afirma, sabiamente, o autor. Há que dar-lhe colo, não para fugir dela, mas para acolhê-la. Ser grão de trigo.

Diário do Caminho de Santiago de Compostela e credencial com e carimbos. Foto Cláudio Louro

Diário e credencial do peregrino com os últimos carimbos colocados ao longo do caminho. Foto © Cláudio Louro

 

E o Caminho continua, agora mais do que nunca… Exemplo disso foi a chegada ao Porto e a conversa com a Marlene. Além de ser uma grande inspiração (a Marlene faz voluntariado em três locais diferentes), ensinou-me a importância de nos expressarmos e colocarmos limites. “Reclamar”, dizia. É interessante como essa foi a última conversa que tive com alguém do Caminho. Isso é, sem dúvida, algo que preciso de pôr em prática.

De regresso a casa, sentado na carruagem 6 do Alfa, volto a ver da janela algo a ficar para trás. Esta aventura (a física) vai ficando cada vez mais distante geograficamente. É tempo, agora, de nos fazermos ao Caminho, fazendo-nos caminho, nas coordenadas do quotidiano.

Chego ao Oriente. De onde parti. Agradeço o carinho e cuidado com que família e amigos, ao longo dos dias, me escreveram, sendo verdadeiros “mantimentos” para a travessia.

Não sei qual será a próxima seta amarela, mas sei que Tu, que és O Caminho e que nos habitas, guias a cada ínfimo passo pelas Tuas surpresas, pelos Teus trilhos, rumo a esse êxodo do ser.

Começa agora. Bom Caminho!

Diário do Caminho de Santiago de Compostela. Foto Cláudio Louro

O “Diário de Caminho” de Cláudio Louro chegou ao fim, mas o Caminho não terminou: começa agora! Foto © Cláudio Louro

 

Cláudio Louro é animador pastoral e professor de Educação Moral e Religiosa Católica; nas horas livres volta ao universo da música e do teatro musical com os amigos e considera-se atualmente em estado de caminho.

Os textos anteriores deste Diário podem ser lidos aqui.

 

Bispos católicos de França apelam à fraternidade e justiça, mas não se demarcam da extrema-direita

Com as eleições no horizonte

Bispos católicos de França apelam à fraternidade e justiça, mas não se demarcam da extrema-direita novidade

O conselho permanente dos bispos da Igreja Católica de França considera, num comunicado divulgado esta quinta-feira, 20 de junho, que o resultado das recentes eleições europeias, que deram a vitória à extrema-direita, “é mais um sintoma de uma sociedade ansiosa, dividida e em sofrimento”. Neste contexto, e em vésperas dos atos eleitorais para a Assembleia Nacional, apresentaram uma oração que deverá ser rezada por todas as comunidades nestes próximos dias.

“Precisamos de trabalhar num projeto de sociedade que privilegie a ativação da esperança”

Tolentino recebeu Prémio Pessoa

“Precisamos de trabalhar num projeto de sociedade que privilegie a ativação da esperança” novidade

Na cerimónia em que recebeu o Prémio Pessoa 2023 – que decorreu esta quarta-feira, 19 de junho, na Culturgest, em Lisboa – o cardeal Tolentino Mendonça falou daquela que considera ser “talvez a construção mais extraordinária do nosso tempo”: a “ampliação da esperança de vida”. Mas deixou um alerta: “não basta alongar a esperança de vida, precisamos de trabalhar num projeto de sociedade que privilegie a ativação da esperança e a deseje fraternamente repartida, acessível a todos, protagonizada por todos”.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

E Jesus, estaria ele no Tik Tok?

7MARGENS/Antena 1

E Jesus, estaria ele no Tik Tok? novidade

“Falar Piano e Tocar Francês” é o título do livro do maestro Martim Sousa Tavares. Arte, música, cultura, paixão e mediação são temas do livro e pretextos para a conversa no programa 7MARGENS, da Antena 1. Que começa por uma pergunta: e Jesus, estaria ele hoje no Tik Tok?

Reunião do Conselho dos Cardeais com o Papa voltou a contar com três mulheres

Uma religiosa e duas leigas

Reunião do Conselho dos Cardeais com o Papa voltou a contar com três mulheres novidade

Pela quarta vez consecutiva, o papel das mulheres na Igreja voltou a estar no centro dos trabalhos do Papa e do seu Conselho de Cardeais – conhecido como C9 -, que se reuniu no Vaticano nos últimos dois dias, 17 e 18 de junho. Tratou-se de uma reflexão não apenas sobre as mulheres, mas com as mulheres, dado que – tal como nas reuniões anteriores – estiveram presentes três elementos femininos naquele que habitualmente era um encontro reservado aos prelados.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This