Diário de viagem III: A velocidade dos burros marroquinos e a invenção de Elon Musk

| 6 Fev 19 | Cooperação e Solidariedade, Sociedade, Últimas

O grupo em passeio na fortaleza de Mazagão, jóia da arquitectura militar (foto: direitos reservados)

De Arssilah [Arzila] a Marraquexe, destino do nosso terceiro dia, não se contam muitos quilómetros, mas pareceu-nos muito longe, pelas seguintes razões: nas auto-estradas atravessavam pessoas e passeavam-se cães, o que exigia atenção redobrada e velocidades mais contidas; e grande parte do trajecto foi percorrido em estradas nacionais, tão lentas como as lesmas devido ao elevado tráfego, aos constantes postos de controlo policial, às centenas de camiões que se arrastavam a gemer cargas excessivas e às tão características carroças de burros que, em alguns locais, conseguiam maiores velocidades do que nós, deixando o jipe e a pick-up corados de vergonha. Claro que os burros tinham vantagem sobre nós: por não terem matrícula, nunca eram controlados pela polícia, coisa de que não estavam dispensados os cavalos dos nossos carros. Uma injustiça, diga-se de verdade. 

Como somos padres e leigos muito sensíveis às injustiças, julgamos que as autoridades deveriam tomar medidas: estas centenas de carroças puxadas por pequenos e tenros burros bem pode ser considerado trabalho infantil, coisa que na nossa velha Europa é crime digno de severa punição. 

Julgo que o americano Elon Musk se inspirou aqui, em Marrocos, para criar os seus célebres carros eléctricos marca Tesla. Seria interessante fazer um teste de comparação entre estes sofridos burros, que puxam estas pesadas carroças, e os automóveis Tesla. Excluindo a velocidade, penso que se equiparariam quanto à autonomia e à poluição, pois os burros, segundo parece, podem fazer uns 300 quilómetros a velocidade moderada e demoram a carregar pela boca umas quatro horas; mas, se o carregador manjedoura for reforçado, como aqueles carregadores especiais dos Tesla, podem carregar numa horita.

Quanto à poluição, é verdade que o Tesla não tem cano de escape, mas os gases que saem pela traseira dos burros, desde que se suportem os odores, também não são prejudiciais à saúde nem ao ambiente, segundo estudos recentes e avançados. 

Terminada esta consideração, informamos que, como bons portugueses, resolvemos visitar, depois de um almoço campal e ambulante que teve como sobremesas uma boa remessa de anedotas, a celebérrima cidade de El-Jadida – em português, Mazagão. Foi tomada pelos nossos valentes conquistadores em 1513 e foi a última das praças fortes portuguesas a ser abandonada em Marrocos.

O que mais impressiona é a extraordinária fortaleza, verdadeiro prodígio da arquitetura militar lusa e a primeira a ser construída fora da Europa. Só foi abandonada em 1769 por ordem do nosso Marquês de Pombal. Imponente e de rara beleza arquitectónica é a cisterna, plantada dentro da muralha. Enfim, aos portugueses que por esta zona passarem fica o imperativo de visitar este forte e garantimos que não se vão arrepender.

Daqui até Marraquexe todos os quilómetros foram por estradas nacionais, pelo que só às 19h chegámos a esta cidade, que considero uma das mais castiças e sui generisdo mundo. Foi aqui que tivemos o primeiro problema: o nosso comparsa responsável  pela logística de repouso, sempre eficaz nas missões que assume e colega com quem eu vou até ao fim do mundo (ele é um homem grande em quem nunca vi gestos pequenos) tinha reservado dois apartamentos que não conseguimos encontrar, depois de duas horas de afanosa procura.

Inclusivamente, levámos um marroquino no nosso jipe que garantia saber onde era o local. Mas nem assim. Conclusão: tivemos de agarrar e conter o nosso referido comparsa que queria bater na dona dos apartamentos. A sorte foi ela estar na Alemanha, demorava muito tempo a lá chegar… Acabámos por pernoitar no Hotel Les Ambassadeurs. Com estas andanças e desencontros, eram 23h quando acabámos de devorar um belo repasto preparado pela logística alimentar chef-maitre André).

Apesar do cansaço e da hora avançada, os mais corajosos ainda ousaram visitar a praça Jemaa El-Fna, que é Património Mundial e um sítio absolutamente obrigatório numa viagem a Marrocos.  Eu não acompanhei este grupo, porque tive de ir deitar o Almiro.

Informação de última hora: o nosso comparsa pela logística de saúde tem sido verdadeiramente admirável no zelo e na preocupação, não tendo, no entanto, conseguido debelar as maleitas de uma mão estropiada, de um pé manco, de uma constipação atrevida que veio para ficar e evitar que um dos elementos se esteja a transformar numa borbulha!…

Há ainda a acrescentar que um dos condutores da pick-up é especialista em fazer tangentes aos polícias (faltou pouco para atropelar um!). Julgamos que tal se deve ao facto de termos passado em Tânger e ele ter confundido Tânger com tangente… 

Padre Almiro Mendes 

(O 7MARGENS acompanhará durante os próximos dias, através de um diário de viagem, a expedição do padre Almiro Mendes e dos seus companheiros rumo à Guiné-Bissau para entregar um jipe, uma pick-upe outras ajudas a várias missões católicas e organizações não-governamentais.)

Breves

Cordão humano pelo direito a horários dignos e compatíveis com vida familiar novidade

Um cordão humano de trabalhadores do comércio e serviços manifestou-se nesta quinta-feira, 12, diante do centro comercial Vasco da Gama, em Lisboa, a pedir horários dignos, a conciliação entre a vida profissional e familiar e melhores salários. Na acção de sensibilização, organizada pelo Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços de Portugal (CESP), filiado na CGTP-IN, os trabalhadores empunharam faixas e distribuíram panfletos contestando a “violência e desumanização dos horários de trabalho” que impedem muitos de acompanhar os filhos menores, por exemplo.

Formação sobre cuidador informal começa em Lisboa

Consciencializar todos os que se confrontam com familiares em situações limite de dependência e doença prolongada é um dos objectivos principais da formação sobre cuidadores informais promovida pela paróquia de São Lourenço de Carnide (Igreja de Nossa Senhora da Luz), que nesta quinta-feira, 12 de Dezembro, se inicia em Lisboa.

Formação avançada em património religioso lançada na Católica

A Faculdade de Ciências Humanas (FCH) da Universidade Católica Portuguesa e o Departamento de Turismo do Patriarcado de Lisboa organizaram um programa de formação avançada em Turismo e Património Religiosos, com o objetivo de “promover a aquisição de competências nos domínios do conhecimento e divulgação do património artístico religioso da diocese de Lisboa”.

Boas notícias

Do Porto a Bissau: um diário de viagem no 7MARGENS dá origem a livro

Do Porto a Bissau: um diário de viagem no 7MARGENS dá origem a livro novidade

A viagem começou a 3 de Fevereiro, diante da Sé do Porto: “Quando estacionámos o jipe em frente à catedral do Porto, às 15h30, a aragem fria que fustigava o morro da Sé ameaçava o calor ténue do sol que desmaiava o seu brilho no Rio Douro.” Terminaria doze dias depois, em Bissau: “Esta África está a pedir, em silêncio e já há muito tempo, uma obra de aglutinação de esforços da comunidade internacional, Igreja incluída, para sair do marasmo e atonia de uma pobreza endémica que tem funestas consequências.”

É notícia

Cultura e artes

Como a luz de Lisboa fez a foto de Greta na capa da “Time” novidade

Greta Thunberg, a jovem activista sueca que tem mobilizado milhões de pessoas em todo o mundo contra as alterações climáticas, foi a personalidade do ano escolhida pela Time. À notícia, conhecida nesta quarta-feira, 11 de Dezembro, acrescenta-se o pormenor de que a foto da capa, realizada pela russa Evgenia Arbugaeva, foi feita na costa atlântica entre Lisboa e Cascais.

Concertos de Natal nas igrejas de Lisboa

Começa já nesta sexta-feira a edição 2019 dos concertos de Natal em Lisboa, promovidos pela EGEAC. O concerto de abertura será na Igreja de São Roque, sexta, dia 6, às 21h30, com a Orquestra Orbis a executar obras de Vivaldi e Verdi, entre outros.

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“Dois Papas”: um filme sobre a transição na Igreja Católica

Dois Papas é um filme do realizador brasileiro Fernando Meirelles (A CIdade de Deus) que, através de uma conversa imaginada, traduz a necessidade universal de tolerância e, mesmo sendo fantasiado, o retrato das duas figuras mais destacadas da história contemporânea da Igreja Católica. O filme, exclusivo no Netflix, retrata uma série de encontros entre o, à altura, cardeal Jorge Bergoglio (interpretado por Jonathan Pryce) e o atual Papa emérito Bento XVI (interpretado por Anthony Hopkins).

Pessoas

Manuela Silva: “Gostei muito de viver!”

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“Diz aos meus amigos que gostei muito de viver.” Nos derradeiros momentos de vida, já no hospital, Manuela Silva pegara na mão da irmã que a acompanhou nos últimos meses, olhando-a e, com plena consciência de que vivia os instantes finais, deu-lhe o último recado: “Vou partir, mas diz aos meus amigos que gostei muito de viver.” A sua memória será recordada nesta segunda-feira, 14, às 19h15, na Capela do Rato, numa eucaristia presidida pelo patriarca de Lisboa.

Sete Partidas

Visto e Ouvido

Agenda

Dez
14
Sáb
3º Concerto de Natal da Academia de Música de Santa Cecília @ Basílica do Palácio Nacional de Mafra
Dez 14@21:00_22:30

Entrada gratuita mediante o levantamento de bilhetes nos Postos de Turismo de Mafra e Ericeira

 

A Academia de Música de Santa Cecília, escola de ensino integrado de música, apresenta o seu terceiro concerto de Natal nos dias 14 e 15 de Dezembro, no Palácio Nacional de Mafra, classificado recentemente como Património Cultural Mundial da UNESCO.

Neste concerto participa um coro constituído por 250 crianças e jovens dos 10 aos 17 anos e uma orquestra de cordas de alunos da escola, a soprano Ana Paula Russo e ainda o conjunto, único no mundo, dos seis órgãos da Basílica de Mafra.

No programa estão representados vários compositores nacionais e estrangeiros, destacando-se a obra “Seus braços dão Vida ao mundo”, sobre um poema de José Régio, da autoria da jovem Francisca Pizarro, aluna finalista do Curso Secundário de Composição da Academia de Música de Santa Cecília.

O concerto assume especial importância não apenas pela singularidade do conjunto dos seis órgãos do Palácio Nacional de Mafra mas também pela dimensão do número de jovens músicos envolvidos.

A relevância do concerto manifestou-se em edições anteriores (2016 e 2017), pela sua transmissão integral na RTP2, tendo o concerto de Natal de 2017 sido difundido em directo para a União Europeia de Rádio. O concerto tem o patrocínio da Câmara Municipal de Mafra.

Programa do concerto

Arr. Carlos Garcia (1983)
Ó Pastores, Pastorinhos (tradicional de Alferrarede)

Francisca Pizzaro (2001)
Seus braços dão Vida ao mundo (sobre um poema de José Régio), obra em estreia absoluta, encomendada para a ocasião; Francisca Pizarro é aluna do curso secundário de Composição da AMSC

Arr. Fernando Lopes-Graça (1906-1994)
O Menino nas Palhas (tradicional da Beira Baixa)

Eurico Carrapatoso (1962)
Dece do Ceo (sobre um poema de Luís de Camões)

Arr. Carlos Garcia
Gloria in excelsis Deo (tradicional francesa) *

Franz Xaver Gruber (1787-1863) Arr. Carlos Garcia
Stille Nacht

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)
Alleluia, do moteto Exsultate, jubilate

Tradicional francesa
Quand Dieu naquit à Noël

Louis-Claude Daquin (1694-1772)
Noël X

Arr. Malcolm Sargent (1895-1967)
Zither Carol (tradicional da República Checa)

Tradicional do País de Gales
Deck the Halls

John Henry Hopkins Jr. (1820-1891); Arr. Martin Neary (1940)
We three Kings

Arr. Mack Wilberg (1955)
Ding! Dong! Merrily on High (tradicional francesa)

Arr. David Willcocks (1919-2015)
Adeste Fideles (tradicional), com a participação do público.

CANTORES E MÚSICOS
Ana Paula Russo, soprano

Ensemble Vocal da AMSC
Coro do 2º Ciclo da AMSC
Coros do 3º Ciclo e Secundário da AMSC

Orquestra de Cordas da AMSC
Pedro Martins, percussão

Rui Paiva, órgão da Epístola
Flávia Almeida Castro, órgão do Evangelho
Carlos Garcia, órgão de S. Pedro d’Alcântara
João Valério (aluno da AMSC), órgão do Sacramento Liliana Silva, órgão da Conceição
Afonso Dias (ex-aluno da AMSC), órgão de Sta. Bárbara

Carlos Silva, direcção da orquestra

António Gonçalves, direcção

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Entre margens

Taizé e os jovens: uma experiência que marca

Ao longo dos anos em que tenho participado nos encontros de Taizé, no âmbito da minha docência na disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica, acompanhando e partilhando esta experiência com algumas centenas de alunos, tenho-me interrogado acerca do que significa aquilo a que chamamos “espiritualidade de Taizé” – que, no meu entender, é o que leva, ano após ano, milhares de jovens, a maioria repetidas vezes, à colina da pequena aldeia da Borgonha (França).

A escultura que incomoda a Praça de São Pedro

Foi na Praça de São Pedro, dentro desses braços que abraçam o mundo inteiro, que o Papa Francisco quis colocar um conjunto escultórico dedicado aos refugiados, o “anjo inconsciente”. De bronze e argila, representa uma embarcação com algumas dezenas de refugiados, tendo à frente uma mulher grávida ao lado de uma criança, de um judeu ortodoxo e de uma mulher muçulmana com o seu niqab.

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