Diário de viagem IV: Uma cáfila, os mexilhões, o jejum forçado e o zelo policial

| 7 Fev 19 | Cooperação e Solidariedade, Sociedade, Últimas

“A intenção era chegar a Tam Tam La Plage antes de o sol se pôr” (foto: direitos reservados)

Foi muito cedo que o despertador martelou um som estridente e incomodativo. Era imperativo: tínhamos de sacudir os nossos corpos fatigados e saltar do conforto que uma cama sempre dá e levantar-nos para a aventura do quarto dia, que sabíamos longa. Não demorou, por isso, a que todos se aprontassem rapidamente e se apresentassem na sala do pequeno-almoço. Um luxo, pois enquanto nos outros dias éramos nós que tínhamos de o preparar, este estava incluído no preço do hotel. O dia começava bem, pois poupámos tempo e os nossos géneros alimentícios. 

Terminado o ritual de meter tudo nos carros, coisa que não é fácil mas que o mestre André sabe fazer melhor do que todos, arrancámos quando Marraquexe ainda se vestia de breu e o sol escondia, para lá da linha do horizonte, uma envergonhada preguiça em se levantar.

Embora ainda noite, o trânsito já era frenético e a condução exigia todos os cuidados, coisa normal nesta cidade onde todo o tipo de veículos se misturam num caos em que até as regras mais simples não se cumprem. 

Mas quando já estávamos afastados desta confusão, o sol levantou- se e começou a beijar uma paisagem fantástica, quase zen: montanhas maravilhosas, nuas de vegetação e com uma pele cor de argila, vales longos vestidos de uma serenidade indizível que ondulavam o nosso olhar, curvas e contracurvas que depois se esticavam em retas infindáveis que nos atiravam para uma contemplação quase mística.

Enfim, de Marraquexe a Tam Tam La Plage a paisagem foi uma missa que o Criador nos celebrou, deixando o nosso coração ajoelhado de gratidão e comoção. Até fomos prendados com a primeira cáfila de camelos. Eram, no mínimo, uns 50. As crias foram as que mais prenderam a nossa atenção. Os camelos não são animais bonitos, mas revelam uma lenta calmaria que nos dá a confiança para nos aproximarmos deles, coisa que toleram.

Como a intenção era chegar a Tam Tam La Plage antes de o sol se pôr, apenas fizemos as paragens estritamente necessárias e passámos, apressados, por várias cidades que se nos atravessaram no caminho.

O programado e desejado foi conseguido: chegámos ao local da pernoita ainda cedo e a tempo do mestre André, que sempre nos surpreende, ir pescar mexilhões no mar de Tam Tam, que se apresentava calmo para nos receber. Tão bons estavam, que mais depressa se comeram do que se cozinharam. O António, que chegou mais tarde à mesa, teve de se contentar com um jejum forçado, pois o Almiro, depois de comer a porção que lhe estava reservada, tratou também da que estava destinava ao António. A gula não é comer muito: é comer tudo e não deixar nada para os outros.

Notícia do dia: os polícias marroquinos, que vestem fardas tão aprumadas que parecem sempre preparados para receber o Rei e aparecem em todos os cantos e esquinas, resolveram tirar uma fotografia ao homem mais bonito deste grupo que ruma à Guiné. Imaginem quem foi o escolhido: o mais pequenote. A fotografia foi tirada a partir de um carro estacionado na berma e camuflado. Mais à frente, dois desses agentes, colocados em sítio estratégico, fizeram paragem para dizer ao Almiro que tinham uma foto dele e que custava 150 dirhams.

O Almiro bem argumentou que, em Portugal, há uma lei que obriga à protecção de dados e que, por isso, eles deviam destruir a foto. Desconhecendo a lei portuguesa e mostrando até completa indiferença pelo argumento, explicaram que o condutor circulava a 76km/hora num local onde só se podia andar a 60km e que esses Ayrtons Senna tinham todos direito a uma foto. O Almiro pediu para a ver e, como até estava favorecido, aceitou pagar o equivalente a 14 euros, com a condição de os zelosos polícias marroquinos mandarem a malfadada foto encaixilhada para Portugal, e a alta velocidade. Entretanto, o Almiro, no regresso, vai falar com a polícia portuguesa, para multar o embrulho pela  velocidade excessiva com que vai atravessar Portugal. Olho por olho, dente por dente…

Padre Almiro Mendes

(O 7MARGENS acompanha desde domingo passado, 3 de fevereiro, através de um diário de viagem, a expedição do padre Almiro Mendes e dos seus companheiros rumo à Guiné-Bissau para entregar um jipe, uma pick-up e outras ajudas a várias missões católicas e organizações não-governamentais.)

Breves

Cordão humano pelo direito a horários dignos e compatíveis com vida familiar

Um cordão humano de trabalhadores do comércio e serviços manifestou-se nesta quinta-feira, 12, diante do centro comercial Vasco da Gama, em Lisboa, a pedir horários dignos, a conciliação entre a vida profissional e familiar e melhores salários. Na acção de sensibilização, organizada pelo Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços de Portugal (CESP), filiado na CGTP-IN, os trabalhadores empunharam faixas e distribuíram panfletos contestando a “violência e desumanização dos horários de trabalho” que impedem muitos de acompanhar os filhos menores, por exemplo.

Formação sobre cuidador informal começa em Lisboa

Consciencializar todos os que se confrontam com familiares em situações limite de dependência e doença prolongada é um dos objectivos principais da formação sobre cuidadores informais promovida pela paróquia de São Lourenço de Carnide (Igreja de Nossa Senhora da Luz), que nesta quinta-feira, 12 de Dezembro, se inicia em Lisboa.

Formação avançada em património religioso lançada na Católica

A Faculdade de Ciências Humanas (FCH) da Universidade Católica Portuguesa e o Departamento de Turismo do Patriarcado de Lisboa organizaram um programa de formação avançada em Turismo e Património Religiosos, com o objetivo de “promover a aquisição de competências nos domínios do conhecimento e divulgação do património artístico religioso da diocese de Lisboa”.

Boas notícias

Do Porto a Bissau: um diário de viagem no 7MARGENS dá origem a livro

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A viagem começou a 3 de Fevereiro, diante da Sé do Porto: “Quando estacionámos o jipe em frente à catedral do Porto, às 15h30, a aragem fria que fustigava o morro da Sé ameaçava o calor ténue do sol que desmaiava o seu brilho no Rio Douro.” Terminaria doze dias depois, em Bissau: “Esta África está a pedir, em silêncio e já há muito tempo, uma obra de aglutinação de esforços da comunidade internacional, Igreja incluída, para sair do marasmo e atonia de uma pobreza endémica que tem funestas consequências.”

É notícia

Cultura e artes

Sophia lida pelos mais novos (5) – A Árvore

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Como a luz de Lisboa fez a foto de Greta na capa da “Time”

Greta Thunberg, a jovem activista sueca que tem mobilizado milhões de pessoas em todo o mundo contra as alterações climáticas, foi a personalidade do ano escolhida pela Time. À notícia, conhecida nesta quarta-feira, 11 de Dezembro, acrescenta-se o pormenor de que a foto da capa, realizada pela russa Evgenia Arbugaeva, foi feita na costa atlântica entre Lisboa e Cascais.

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Pessoas

Abiy Ahmed Ali, o Nobel da Paz para um cristão pentecostal

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O primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed Ali, receberá nesta terça-feira o Nobel da Paz de 2019, numa cerimónia em Oslo. O Comité Nobel não o disse, mas várias das atitudes e propostas do mais jovem líder da África, com 43 anos, radicam na sua fé cristã de matriz pentecostal.

Sete Partidas

Dos imigrantes europeus ao P. Joaquim Alves Correia, uma universidade nos EUA

A história desta Universidade americana faz-nos recuar ao fim do século XIX. Nada melhor que percorrer o seu vastíssimo campus para saber quando tudo começou. Uma enorme placa à entrada da Reitoria explica que foi fundada pelos Missionários do Espírito Santo em 1878, incorporada no Pittsburg Catholic College em 1882 e chamada ‘Duquesne University’ em 1911. A poucos metros, mesmo na entrada da Igreja da Universidade, está a estátua do seu fundador: o padre Joseph Strub, missionário alemão.

Visto e Ouvido

Agenda

Dez
16
Seg
Cristianismo e islão: as possibilidades do diálogo – Conversa com o padre Joaquim Cerqueira Gonçalves, OFM @ Biblioteca Vítor de Sá (Sala Bib.2.7) - Universidade Lusófona
Dez 16@18:00_19:30

Encontro a pretexto dos 800 anos do encontro entre São Francisco de Assis e o Sultão Al-Kamil (1219-2019)

Dez
18
Qua
Inauguração do Memorial evocativo de Sophia de Mello Breyner Andresen, com azulejos de Menez @ Estação Marítima de Belém
Dez 18@12:00_13:00
Jan
3
Sex
Conferência sobre frei Agostinho da Cruz (1540 – 1619), pelo cardeal José Tolentino Mendonça @ Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal
Jan 3@16:30_17:30

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Entre margens

Porque quererá alguém estudar teologia?

O livro que estamos aqui a apresentar comemora os 50 anos de uma Faculdade de Teologia, e da única que existe em Portugal. Quando li o livro achei que era uma óptima oportunidade para tornar explícitas várias perguntas. São perguntas que me parecem importantes, nomeadamente: para que serve estudar teologia? E, o que é exactamente estudar teologia? Não é preciso ser-se professor de teologia para achar estas perguntas difíceis, e aproveitar e agradecer a oportunidade de lhes tentar responder em público.

O terror nazi: “Todos devem saber tudo”

Uma notícia que li esta semana no Der Spiegel descreve cenas de puro horror. Mas o mundo não pode esquecer o que aconteceu há 75 anos num dos países mais evoluídos do mundo. Temos de saber, temos de estar bem conscientes daquilo de que podemos ser capazes quando atribuímos a pessoas de certos grupos categorias que lhes sonegam a dignidade dos humanos.

Teocracia? Não, obrigado!

Ainda estamos a tempo de aprender que nenhuma teocracia é melhor do que a outra. Não importa se é islâmica, judaica, cristã ou outra qualquer. Definitivamente, não.

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