Diário de viagem (IX) – Nietzsche e Charlie Chaplin, a memória, a vida e o teatro
Disse Nietzsche que ganha o futuro quem melhor memória do passado fizer.

Foto © António Ribeiro
Tenho de Dacar a mais grata memória, pois aqui vivi 18 dias na casa dos Missionários do Espírito Santo [Espiritanos] para me preparar para a Missão na Guiné; aqui voltei de carro transportando, desde Bissau até ao Hospital de Dacar, o padre Jonas, que estava muito doente; e por aqui passei três vezes, vindo de Portugal para a Guiné, de jipe.
Além disso, desde criança sempre tive o grande sonho de conhecer o local onde terminava o Rali Dacar, que para mim é o espectáculo motorizado mais incrível e fascinante do mundo e, desde criança, fazia parte do meu arquétipo mental.
Por estas razões, e por ser uma cidade com um fascínio especial, para mim Dacar é uma urbe onde sempre me sinto bem, onde sempre me encanto e por onde nunca me canso de passar.
Foi deste local tão excepcional que partimos para o nosso nono dia, não sem antes termos vivido uma situação surreal: de madrugada, ouviu-se um estrondo. A cama do Tito tinha-se partido e ele acabou com o costado no chão! Indagadas as causas, ficámos a pensar que o Tito festejou os 10 golos sem resposta do seu amado Benfica aos saltos em cima da cama, não tendo a pobre desgraçada aguentado tamanho vilipêndio. Tomámos o pequeno almoço, fizemos aos padres espiritanos (meus velhos amigos!) os merecidos agradecimentos, demos os últimos abraços, fomos à capela fazer uma prece e fizemo-nos à estrada.
O trânsito em Dacar exige especiais cautelas por ser tanto e tão pouco organizado. Mas uma recente auto-estrada, construída mesmo no coração da cidade, depressa nos escoou dali e nos colocou aos pés de Nbor, a uns 50 quilómetros.

“O trânsito em Dacar exige especiais cautelas por ser tanto e tão pouco organizado…” (Foto © António Ribeiro)
Apreciámos o novo aeroporto, que praticamente começa onde acaba a auto-estrada, e que revela a pujança e modernidade do Senegal.
Temíamos as estradas, que daqui até Tambacunda eram um suplício, mas nem queríamos acreditar: pareciam um tapete rolante! Coisa impensável há uns anos atrás! Se não fossem as dezenas de povoações que nos obrigavam a reduzir, teríamos chegado ao nosso destino a meio da tarde.
Mas cada dia tem as suas dificuldades e três acidentes que encontrámos pelo caminho foram suficientes para nos meter medo ao pensarmos que podia ter sido connosco.
Também nos assustámos quando, em Tambacunda, centenas de jovens cortaram a estrada em que seguíamos, tendo nós ficado encurralados no meio deles. Batiam na chapa do nosso jipe como em tambores, e vociferavam a sua revolta (parece que por terem assassinado três jovens) de punhos no ar e dando- nos severa e contundente ordem para sairmos dali depressa. Foi o que fizemos numa inversão de marcha atribulada, seguindo por manhosas estradas de terra que nos ajudaram a contornar o problema e a voltar, mais à frente, à nossa estrada que nos haveria de fazer chegar ao nosso destino: Kolda. Eram 20h.
Estávamos a uns 300 quilómetros da Guiné. Nem queríamos acreditar! Afinal, tudo tinha corrido bem até aqui! Seja Deus louvado!
Jantámos melhorado e tivemos de nos despedir, pesarosos, dos nossos companheiros leigos. Por irem para Catió, têm de passar a fronteira, junto a Kolda, que leva a Bafatá; nós, os padres, por irmos para Bissau, temos que continuar até Ginguinchor e atravessar a fronteira de S. Domingos, minha velha conhecida.
Quem vem de Dacar e atravessa o Senegal, passando por Tambacunda, Kolda e tantas outras povoações plantadas à beira da estrada, repara que as pessoas são tantas que mais parecem formigueiros humanos, sendo as crianças e jovens um verdadeiro enxame numa deambulação ora passiva, ora frenética.
Toda esta gente nos parece suja e com roupas pobres, mas a paleta de cores das vestimentas são um autêntico arco-íris que inebria a vista. São muito bonitas as cores garridas de África!

Foto © António Ribeiro
Mete dó a idade dos carros e dos camiões que se arrastam num esforço quase de morte para os motores. Até os milhares de burros parecem cansados da sua sorte, abraçando as velhas carroças. Uma coisa que não podemos transmitir por palavras são os cheiros, que em África são verdadeiramente sui generis.
Enfim, não podemos acrescentar dias à nossa vida, mas podemos dar vida aos nossos dias.
A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios, como disse Charlie Chaplin. É por isso que temos de a viver intensamente, antes que a cortina do palco da representação se feche definitivamente.
Foi o que procurámos fazer neste nono dia, que foi um dom.
Por tudo o que hoje nos foi dado viver, bendizemos ao Senhor!
Padre Almiro Mendes
(O 7MARGENS acompanha desde domingo, 3 de fevereiro, através de um diário de viagem, a expedição do padre Almiro Mendes e dos seus sete companheiros rumo à Guiné-Bissau para entregar um jipe, uma pick-up e outras ajudas a várias missões católicas e organizações não-governamentais)
Breves
José Allamano e a Consolata
Exposição fotográfica revela 100 anos de história das missões
Por ocasião dos 100 anos da morte de São José Allamano, assinalados este ano, o Consolata Museu, em Fátima, tem patente ao público uma exposição dedicada a este fundador dos dois institutos missionários. [Texto de Juliana Batista].
Relatório Centro Rossing
Jerusalém: ataques violentos a cristãos quase duplicaram em dois anos
Os ataques violentos a cristãos em Israel e em Jerusalém oriental ocupada estão a tornar-se cada vez mais frequentes, tendo quase duplicado nos dois últimos anos, de acordo com organizações israelitas citadas pelo órgão público de rádio alemão Deutsche Welle (DW).
Apelo ao Governo
Cristãos do Bangladesh querem feriado no Domingo de Páscoa e maior representação na vida pública
Um cordão humano com mais de 100 pessoas exigiu, durante toda a manhã de dia 31 de março, em frente ao Clube Nacional de Imprensa, em Daca, que o Domingo de Páscoa fosse reconhecido pelo Governo do Bangladesh como feriado nacional. A concentração organizada pela Associação Cristã de Bangladesh reivindicou também lugares na vida pública reservados à representação dos cristãos e de outras minorias.
Sexta-feira Santa
Papa carrega a cruz e meditações da Via Sacra dão voz ao sofrimento dos povos do Médio Oriente
O Papa presidirá a todas as 14 estações da Via Sacra no Coliseu de Roma, carregando a cruz pessoalmente durante toda a liturgia, que será marcada pelas meditações escritas pelo frei franciscano Francesco Patton, ex-Custódio da Terra Santa (2016-2025) e que atualmente vive no santuário do Memorial de Moisés no Monte Nebo, na Jordânia.
Boas notícias
Apelo de Metz
Com Leão XIV, líderes das grandes religiões assumem compromisso de união pela paz e dignidade humana
Os representantes das principais tradições religiosas presentes em França comprometeram-se esta segunda-feira, na cidade de Metz, a aprofundar o diálogo entre si, a educar as novas gerações para o conhecimento mútuo e a permanecerem unidos na promoção da justiça e da paz.
Outras margens
Cultura e artes
Livro em cinco línguas
“Diário Privado do Papa Francisco” revelado em novembro
Em italiano, francês, espanhol, inglês e português: é nestas cinco línguas, para 94 países, que será editado a 24 de novembro o diário do Papa Francisco, anotado pelo cardeal Víctor Manuel Fernández, pela Editora do Vaticano.
7MARGENS é co-organizador
Como os média religiosos viveram a nova liberdade de imprensa pós-25 de Abril
“Liberdade de imprensa: revolução e democracia em Portugal” é o tema do colóquio que, no dia 22 de Outubro, colocará em debate, na Universidade Católica Portuguesa (UCP), em Lisboa, investigadores e protagonistas do período pós-25 de Abril de 1974, para aprofundar questões relacionadas com a imprensa – incluindo a religiosa – durante a revolução democrática.
NAZA estreou nos cinemas
O filme israelita que documenta o genocídio em Gaza
Os realizadores Yuval Abraham e Rachel Szor trazem-nos um filme, NAZA, que é um objeto de cinema que ultrapassa os limites do ecrã e nos coloca frente a frente com a máquina de morte que Israel montou para destruir Gaza – cometendo genocídio.
In Memoriam
Walter Osswald (1928-2026): um homem sólido, um grande coração
Há vidas tão belas, tão ricas e tão bem preenchidas que a sua morte, apesar e além da profunda tristeza que suscita, consegue ao mesmo tempo segregar o perfume de um profundo êxito. É o caso de Walter Osswald [cientista e professor universitário, que morreu no passado dia 22 de setembro, dois dias depois de ter completado 98 anos].
Pessoas
[Entre Margens]
Joana Lopes: 88 cravos à sua memória novidade
No próximo Domingo, 11 de Outubro, Joana Lopes, que nos deixou a 5 de Fevereiro deste ano, completaria 88 anos. A Joana teve um papel importante na resistência católica contra a ditadura, tendo levado a cabo lutas muito importantes em que denunciava a guerra colonial. Tinha também uma atividade cívica intensa, assumindo a defesa de lutas políticas essenciais que não são menos importantes no nosso tempo. [Texto de Filipe Moisés].
Sete Partidas
7Partidas
Vinte e cinco anos depois
Em 2001, vivíamos em San Francisco. Naquela segunda-feira, dia 11 de Setembro, fomos acordados pelo meu sogro, que nos ligava da Alemanha para avisar que os EUA estavam a ser atacados. Em San Francisco era ainda madrugada; em Nova Iorque passava das nove da manhã, e as duas torres já estavam a arder. [Texto de Helena Araújo].
Visto e Ouvido
Agenda
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Entre margens
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[Entre Margens]
Guerras e mudanças de regime novidade
Já muitos se terão esquecido, ao acompanhar a trágica e intrincada evolução da guerra entre Estados Unidos e Israel e o Irão, que, no seu início, essa guerra foi apresentada como tendo por objetivo primacial o de derrubar um regime ditatorial e opressor, que há pouco tempo havia reprimido de forma violenta e mortífera a contestação de largas canadas da população sedentas de uma liberdade que essa guerra lhes haveria de proporcionar. [Texto de Pedro Vaz Patto].
[Entre Margens]
A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber
Com efeito, o sentido do mistério absoluto que a vida é começa com a consciência da consciência. A própria filosofia, de resto, começa com a consciência da consciência. É que, com a consciência da consciência, o homem desperta, assombrado, para a realidade misteriosa e radical da sua própria existência, e da Existência enquanto tal, como um todo. [Texto de Rúben Azevedo].


















