Diário de viagem VI: “Fechamos para rezar” – o calvário de sexta-feira

| 9 Fev 19 | Sociedade, Últimas

Foram-se as sombras da noite dissipando e o céu começou a sorrir ao mundo a promessa da luz do sol que se havia de levantar lentamente e acordar quem dormia. Não a nós, que nos pusemos a pé quando toda a Dakhla ainda estava a meio sono

Uma das coisas que a mim mais me custa, nesta viagem, é termos de nos levantar sempre tão cedo. Hoje eram 5h30 (hora portuguesa) e já os pneus dos nossos carros beijavam o asfalto ferido de solidão. Isto de nos levantarmos de madrugada pareceu-me que não custa tanto aos meus companheiros de viagem como a mim, para quem isto é um muito que me custa sempre tanto. Tem a ver com o meu metabolismo. 

Mas, para compensar, houve uma coisa que custou mais a todos e menos a mim, já experimentado nestas andanças: atravessar a fronteira do Sara Ocidental com a Mauritânia. 

 Um STOP que durou sete horas… Foto: direitos reservados

Os nossos companheiros leigos nem imaginavam a confusão e as dificuldades que iriam encontrar! Ser inocente é sempre uma vantagem e é exactamente por isso que as crianças são sempre mais felizes do que os adultos. 

Da primeira vez que por aqui passei cheguei às 15h30 e só saí às 23h30. Foram oito horas de verdadeiro suplício. Agora temos o amigo Arturo Mohamed, mauritano de gema, que a troco de uns euros nos facilita a vida. Mesmo assim, chegamos às 10h30 portuguesas e só saímos às 17h30.

Só para que os ilustres e prezados leitores deste diário tenham uma ideia, quando chegámos à fronteira havia mais de 200 camiões que formavam um comboio interminável à espera da sua vez. A maior parte já estava desde o dia anterior. Os motoristas são autênticos mártires neste caos. E nós uns corajosos ao passar a chamada “terra de ninguém”, que tem tanto de surreal como de assustador ao verem-se dezenas de carcaças de carros destruídos e ao sabermos que a zona está minada desde a guerra da Frente Polisário. É aqui que carros, camiões e até jipes se contorcem e gemem a dificuldade de vencer um terreno que não é longo mas verdadeiramente difícil.

E quando já estávamos numa grande fila para tirarmos o visto, com a barriga a dar horas e nauseados pelo excessivo tempo de espera, fomos informados que, por causa da oração, os serviços iam encerrar meia hora. Incrível! 

Fizemos um silêncio sepulcral e resignámo-nos. Passado algum tempo, a porta voltou a fechar-se: tinha falhado a internet e teríamos de esperar por tempo indeterminado. Impressionante! Na Europa era simplesmente impensável uma coisa destas. 

Foi nesta altura que apareceu o amigo Tito, de punhos cerrados, berrando a indignação e vociferando um veemente protesto por tão grande atraso, embora ressalvando o profundo respeito pelas coisas religiosas. 

O Fernando Lino ficou tão impressionado  com tudo isto que desabafou: “A próxima fronteira que atravessarei será a do Porto de Leixōes a meter um carro num contentor. Por estrada, para a Guiné, jamais”.

Essas palavras de uma pessoa tão sábia e sensata fizeram-me interrogar se o Almiro e os companheiros padres são uns grandes  aventureiros ou uns meros tolos! 

O que valeu ao grupo foi que, durante todo este tempo de espera, o Luís Pedro parecia uma metralhadora a disparar rajadas de palavras engraçadas que a todos faziam rir. Até os tantos que ali estavam e não entendiam o português arreganhavam a tacha mostrando dentes brancos em rostos tão escuros. Quanto a mim, passei melhor o tempo porque aproveitei a longa e desesperante espera para alinhavar este diário.

Para terminar a aventura desta travessia, direi que nesta fronteira o que mais impressiona são os rostos queimados – mais pela miséria do que pelo sol –, sentados numa resiliência budista e enfrentando a indiferença e o desrespeito, quase sarcásticos, das autoridades pelo tempo de espera a que obrigam gente cansada e alguma até doente. 

Uma outra coisa que logo se repara: nesta fronteira quase não se veem mulheres. Aqui, o reino é dos homens com turbantes e vestimentas tipo paramentos de padre. Uma realidade nova e uma cultura diferente para quem não está habituado. Não me admira que fique muito impressionado, e até meio assustado, quem por aqui passa pela primeira vez.

Saídos deste filme, arrancamos e logo fomos comer qualquer coisa (não tínhamos ainda almoçado) para depois nos precipitarmos a devorar quilómetros. Mas não há desgraça que venha só: não é que, com tanto deserto à volta, estacionámos os carros dentro do perímetro de um quartel? E quando já tínhamos a improvisada mesa montada e mordíamos os alimentos avidamente, apareceram dois soldados. Um, de arma em riste, olhou-nos de esguelha e com cara de poucos amigos; o outro, mandou-nos sair dali, justificando-se com ordens superiores.

Ainda implorámos compreensão dizendo que estivemos sete horas retidos na fronteira e prometemos comer apressadamente, mas de nada valeu. Metemo-nos nos carros tão apressados quanto incomodados e rumámos para Nuaquexote, mas depressa fomos travados por uma infinidade de buracos num troço em obras que nunca mais acabava. De noite e com uma estrada assim, não foi rápida nem fácil esta viagem da fronteira à capital. Foi por isso que chegámos tardiamente e esgotados. 

Mas é preciso ter calma e não dar o corpo pela alma, como canta o Pedro Abrunhosa.

Afinal é sexta feira, dia em que Cristo foi crucificado. A nós coube-nos melhor sorte, pois só tivemos que levar a nossa cruz ao calvário, sendo cireneus uns dos outros.

Padre Almiro Mendes

 

(O 7MARGENS acompanha desde domingo passado, 3 de fevereiro, através de um diário de viagem, a expedição do padre Almiro Mendes e dos seus sete companheiros rumo à Guiné-Bissau para entregar um jipe, uma pick-up e outras ajudas a várias missões católicas e organizações não-governamentais)

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