Diário de viagem VII: A aprendizagem do olhar, nesta viagem e na vida

| 10 Fev 19 | Cooperação e Solidariedade, Últimas

(Por questões de comunicação e edição, este diário de viagem, respeitante ao dia de sábado, só agora é publicado.)

“Sentimos ser nosso dever fazer hoje um merecido e rasgado elogio aos nossos veículos: tanto o jipe como a pick-up (esta batizada por “pilecas”) têm tido um desempenho absolutamente irrepreensível!” (Foto: direitos reservados)

 

Perdoem-nos os nossos estimados leitores por ser tão parco este diário de hoje. São duas as razões: primeiro, porque quisemos imitar o Criador, que ao sétimo dia da obra da criação descansou. Depois, porque tivemos tão poucas horas de repouso em Nuaquexote, pelas razões que referimos na etapa anterior, e a estrada daqui até à fronteira de Jama foi um suplício tāo grande, que pouca vontade restou para quaisquer outras considerações além de um incontido desejo de chegar a Dacar e descansar – o que só aconteceu pelas 23h30, sem ainda termos jantado. 

De Nuaquexote, na Mauritânia, até Jama, no Senegal, a estrada é sempre pelo meio do deserto e está num estado tão miserável, que é cemitério para muitos veículos e quebra a vontade dos mais afoitos e prazenteiros condutores. Por outro lado, acaba por enervar o mais estoico dos humanos estar sempre a ser mandado parar pela polícia, que na Mauritânia é quase tanta como os grãos de areia do deserto. 

Vai daí, o António, companheiro que se revelou amigo excepcional, cansado de tanta polícia, resolveu registar na sua máquina fotográfica, embora discretamente, um desses pontos de controlo, o que é absolutamente proibido. Não é que os policias, que escondiam a rosto  por detrás de um misterioso turbante, levaram refém o nosso António e, em vez do tradicional chá, que um bom tuaregue sempre oferece, deram- lhe um sermão (ele já tinha escutado tantos dos quatro padres que iam no jipe!…) e levaram-lhe uma substancial maquia pelas palavras pregadas! O António, que é todo calmo e distinto e até tem vocação para diplomata, lá acabou por fazer amizade com os ditos cujos e por tomar chá com eles, enquanto nós programávamos já uma operação de resgate à Rambo. 

No final, diz o António, quase acabou a tirar uma selfie com eles!

Dói também muito ver as casas onde vivem as pessoas que moram no deserto: na maior parte, são de chapa e algumas ainda de trapos. Chega a impressionar! No verão são autênticas fritadeiras daquelas tão pobres pessoas, crianças incluídas, num calor que parece que estava a mais no inferno e o diabo resolveu mandar para esta zona do globo. 

Só para que os nossos leitores tenham a ideia do desgaste que uma viagem destas provoca, quando nos encaminhávamos para a fronteira de Jama, numa derivação para uma estrada que corta muito caminho, apareceram cinco musculados indivíduos a mandarem-nos parar, ordem que não se deve acatar e coisa que não fizemos. Como não obedecemos aos seus intentos, meteram-se num carro, perseguiram-nos e obrigaram-nos a parar. Saíram do carro e, vociferando contra nós num tom agressivo, repreenderam-nos por não termos obedecido à ordem de paragem. Disseram-nos que era muito grave não termos parado e, se teimássemos avançar, nos entregavam à polícia. Acrescentaram que tínhamos de voltar para trás e entrar pela fronteira do Rosso, porque a de Jama estava cortada.

Tudo isto era um grande encenação e uma tremenda mentira. O que pretendiam era apenas intimidar-nos e obrigar-nos a entrar por Rosso, que é uma das fronteiras mais problemáticas do mundo e onde seria praticamente certo que só iríamos passar com os carros e a roupa do corpo; o resto ser-nos-ia tudo extorquido. Foi o nosso sangue frio que nos fez enfrentá-los e seguir, como programado, por Jama, não sem terem ficado chateados eles e incomodados nós.

Mas nem só de esforço, cansaço e memórias desagradáveis se fez a jornada de hoje. Apraz-nos registar a afectiva e efetiva comunhão entre nós, a alegria que nos caracteriza, a maravilha do parque natural de Jama com milhares de aves, dezenas  de javalis, camelos, vacas e variados outros animais e até comunidades de pescadores que punham a secar ao sol, como quem pendura roupa, os peixes que assassinavam naquelas águas serenas.

Foi nesta zona que encontrámos um casal francês em apuros: viajavam numa pick-up auto-caravana que arrastava um atrelado. O condutor, pouco adestrado, não conseguia subir com as duas coisas por uma íngreme ladeira, pois a estrada ali é uma picada com sítios nada fáceis. Por vermos a senhora tão nervosa, logo nos prestámos a resolver a situação engatando o atrelado à pick-up com fitas robustas. Como éramos oito valentes portugueses, agarrámos na traseira do atrelado e, só com as cócegas que lhe fizemos, ele trepou rápido para a estrada de onde nunca devia ter saído (corrijo que não fomos oito a empurrar o atrelado, mas só seis: dois do grupo, que nem vale a pena citar os nomes, preferiram ficar a tirar fotografias a ter de sujar as mãos. Nestas coisas há sempre engenheiros que gostam de ficar a ver quem trabalha…).

Se esta boa ação foi louvável, também foi excelente a cerveja que tomámos no Senegal, depois de passada a fronteira. Já a desejamos há muito, porque na Mauritânia o álcool é absolutamente proibido e dá prisão. 

Sentimos ser nosso dever fazer hoje um merecido e rasgado elogio aos nossos veículos: tanto o jipe como a pick-up (esta batizada por “pilecas”) têm tido um desempenho absolutamente irrepreensível! Não tugem nem mugem, mesmo nas situações onde robustos camiões claudicam. Deve ser da bênção que o senhor bispo do Porto lhes deu na hora da partida (e é também, naturalmente, do bom trato que lhe damos). Que nos possamos gabar do mesmo no fim da jornada, a fim de os deixarmos inteirinhos na nossa querida e amada Guiné. 

Bernard Shaw disse: “Há duas catástrofes na existência: a primeira, quando não vemos os nossos desejos realizarem-se de forma alguma; a segunda, quando se realizam plenamente.”

Seria dramático se não víssemos o nosso desejo de chegar à Guiné ser concretizado com mais esta etapa do sétimo dia, mas também não seria bom se tudo corresse sem quaisquer contratempos e exatamente como tínhamos programado. Convém dar sempre lugar ao imprevisto e aceitar as contrariedades. 

Isto que se diz desta aventura que estamos a fazer, também é válido para a vida dos nossos queridos leitores: devemos aceitar tranquilamente os imprevistos que a nossa existência nos oferece, aceitar e vencer com fortaleza as contrariedades que a vida nos impõe. Se não procedermos deste modo, a nossa vida será um cemitério de problemas mal resolvidos.

Estou a terminar este diário em Dacar às 2h da madrugada e a 4.390 km do Porto. Não é o muito viajar que sacia e satisfaz a alma, mas o sentir e saborear interiormente todas as coisas. A isto podemos chamar aprendizagem do olhar: isto é, o modo como vemos decide a qualidade do nosso viver. Nesta viagem e na vida. 

Estas humildes e envergonhadas palavras que semeamos  neste diário deste sétimo dia da nossa “peregrinação” pretendem ser apenas isto: o nosso olhar partilhado com quem nos acompanha de tão longe simplesmente porque é nosso amigo ou nos ama. 

Para todos esses deixamos o nosso grato e comovido abraço.

Padre Almiro Mendes

(O 7MARGENS acompanha desde domingo, 3 de fevereiro, através de um diário de viagem, a expedição do padre Almiro Mendes e dos seus sete companheiros rumo à Guiné-Bissau para entregar um jipe, uma pick-up e outras ajudas a várias missões católicas e organizações não-governamentais)

Breves

Cordão humano pelo direito a horários dignos e compatíveis com vida familiar

Um cordão humano de trabalhadores do comércio e serviços manifestou-se nesta quinta-feira, 12, diante do centro comercial Vasco da Gama, em Lisboa, a pedir horários dignos, a conciliação entre a vida profissional e familiar e melhores salários. Na acção de sensibilização, organizada pelo Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços de Portugal (CESP), filiado na CGTP-IN, os trabalhadores empunharam faixas e distribuíram panfletos contestando a “violência e desumanização dos horários de trabalho” que impedem muitos de acompanhar os filhos menores, por exemplo.

Formação sobre cuidador informal começa em Lisboa

Consciencializar todos os que se confrontam com familiares em situações limite de dependência e doença prolongada é um dos objectivos principais da formação sobre cuidadores informais promovida pela paróquia de São Lourenço de Carnide (Igreja de Nossa Senhora da Luz), que nesta quinta-feira, 12 de Dezembro, se inicia em Lisboa.

Formação avançada em património religioso lançada na Católica

A Faculdade de Ciências Humanas (FCH) da Universidade Católica Portuguesa e o Departamento de Turismo do Patriarcado de Lisboa organizaram um programa de formação avançada em Turismo e Património Religiosos, com o objetivo de “promover a aquisição de competências nos domínios do conhecimento e divulgação do património artístico religioso da diocese de Lisboa”.

Boas notícias

Do Porto a Bissau: um diário de viagem no 7MARGENS dá origem a livro

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A viagem começou a 3 de Fevereiro, diante da Sé do Porto: “Quando estacionámos o jipe em frente à catedral do Porto, às 15h30, a aragem fria que fustigava o morro da Sé ameaçava o calor ténue do sol que desmaiava o seu brilho no Rio Douro.” Terminaria doze dias depois, em Bissau: “Esta África está a pedir, em silêncio e já há muito tempo, uma obra de aglutinação de esforços da comunidade internacional, Igreja incluída, para sair do marasmo e atonia de uma pobreza endémica que tem funestas consequências.”

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Greta Thunberg, a jovem activista sueca que tem mobilizado milhões de pessoas em todo o mundo contra as alterações climáticas, foi a personalidade do ano escolhida pela Time. À notícia, conhecida nesta quarta-feira, 11 de Dezembro, acrescenta-se o pormenor de que a foto da capa, realizada pela russa Evgenia Arbugaeva, foi feita na costa atlântica entre Lisboa e Cascais.

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O primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed Ali, receberá nesta terça-feira o Nobel da Paz de 2019, numa cerimónia em Oslo. O Comité Nobel não o disse, mas várias das atitudes e propostas do mais jovem líder da África, com 43 anos, radicam na sua fé cristã de matriz pentecostal.

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Dos imigrantes europeus ao P. Joaquim Alves Correia, uma universidade nos EUA

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Visto e Ouvido

Agenda

Dez
16
Seg
Cristianismo e islão: as possibilidades do diálogo – Conversa com o padre Joaquim Cerqueira Gonçalves, OFM @ Biblioteca Vítor de Sá (Sala Bib.2.7) - Universidade Lusófona
Dez 16@18:00_19:30

Encontro a pretexto dos 800 anos do encontro entre São Francisco de Assis e o Sultão Al-Kamil (1219-2019)

Dez
18
Qua
Inauguração do Memorial evocativo de Sophia de Mello Breyner Andresen, com azulejos de Menez @ Estação Marítima de Belém
Dez 18@12:00_13:00
Jan
3
Sex
Conferência sobre frei Agostinho da Cruz (1540 – 1619), pelo cardeal José Tolentino Mendonça @ Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal
Jan 3@16:30_17:30

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