AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Diário de viagem (X) – Onde se cita o padre António Vieira, porque “notável criatura são os olhos”

| 13/02/2019

Diário de viagem (X) – Onde se cita o padre António Vieira, porque “notável criatura são os olhos”

by | 13 Fev 19 | Cooperação e Solidariedade, Últimas

O bispo de Bafatá, Pedro Zilli, com os quatro padres do Porto, na fronteira da Guiné-Bissau com o Senegal. (Foto © André Ferreira)

Uma equipa de futebol, mesmo que esteja a ganhar, fica sempre mais tensa e instável quando joga os últimos minutos. Acontece tantas vezes que são os últimos instantes do derby que determinam a vitória ou não.

Quando saímos de Kolda era assim que nos sentíamos (pelo menos eu), pois adivinhávamos a vitória deste “jogo” por estarmos tāo perto do final, mas havia que continuar com todos os cuidados: nesta África, sempre tão imprevisível, de um momento para o outro tudo se pode alterar com consequências nunca imagináveis. 

Faltou pouco, por exemplo, para matarmos dois porcos por atropelamento. Foi preciso travar a fundo e tapar os ouvidos para suportar a chiadeira que os pneus do jipe fizeram ao cravarem as garras no chão negro do alcatrão que ficou a fumegar. E quem mata um porco em África, paga um boi! Mas, graças a Deus, tirando este episódio, de Kolda a Zinguinchor a viagem correu uma maravilha.

Havia apenas um sentimento estranho e incomodativo de orfandade, pois já não nos acompanhavam os nossos amigos leigos; tinham-se separado de nós para entrar por outra fronteira, cortando assim muito caminho, a fim de chegarem antes da noite a Catió. Foi com este sentimento que depressa nos pusemos em Zinguinchor, cidade muito comercial e movimentada nas bordas da Guiné e onde eu já tinha estado tantas vezes. 

Daqui à fronteira foram uns 15 quilómetros. A saída do Senegal foi rápida e sem burocracias. 

E mais uns metros… estávamos na amada Guiné! Tínhamos entrado em casa! Chegámos sãos e salvos e com o jipe sem nenhuma mazela! 

Comovedor!

Afinal, o impossível é só o que a gente não quer ou não tenta! 

Seja Deus louvado!

Foi neste momento que os meus óculos de sol embrulharam e esconderam as minhas lágrimas que não quis que os meus colegas vissem. Reparei que também eles tragaram as palavras na garganta e iluminaram o rosto de emoção e, sobretudo, de encantamento ao verem na fronteira, para nos acolher e abraçar, o bispo de Bafatá, D. Pedro Zilli, que é uma pessoa verdadeiramente encantadora e admirável!

Parece que não merecíamos tanto, mas a verdade é que nos sentimos muito confortados com a sua presença. E com o bispo ao nosso lado, nem as autoridades fronteiriças, nem a polícia, nem os militares nos importunaram até chegarmos a Bissau, viagem que demorou umas 2h30, se descontarmos o tempo em que estivemos a almoçar em S. Domingos com o bispo, o pároco e um outro sacerdote.

Apenas fomos molestados pelas estradas, que estão num mísero estado, e por um polícia que nos mandou parar e queria multar o condutor Mestre André por vir a conduzir com óculos de sol. “Na Guiné é proibido conduzir com óculos de sol e vai ter que pagar uma coima”, disse o jovem polícia, que logo corou de vergonha ao ver o senhor bispo ao lado do condutor. Esta gente é tāo pobre, que o que ele queria era uma notita das mais pequenas, que nem chega a um euro. Quer-me parecer que nem pedia para ele, mas para os filhos, que aqui são quase sempre muitos e desprovidos.

Mas hoje o dia era realmente muito especial por três razões: o fim da nossa aventura de jipe Porto-Bissau; a chegada do bispo do Porto, D. Manuel Linda, que ao oferecer o jipe à Guiné, tornou tudo isto possível e se constituiu como instância do humano bom e do divino excelente; o aniversario natalício do grande Mestre André, companheiro fantástico, cozinheiro admirável e sobretudo padre extraordinário! Sinto orgulho em ter sido seu professor! O jantar de festa foi na Pensão Coimbra, depois de termos ido buscar o senhor D. Manuel Linda ao aeroporto. Nem queríamos acreditar: no bispo D. Manuel Linda, nos quatro sacerdotes e no jipe (baptizado ontem de Miro-Móvel) a diocese do Porto abraçava a querida Guiné num gesto verdadeiramente profético!

Admirável!

Há quem deseje uma nova vida. Eu contento-me com um novo olhar sobre a vida que me é oferecida em cada dia como o maior dom. E é exactamente isso, parece-me, que uma viagem como esta proporciona. Não ficamos melhores nem piores, mas diferentes. Ao vermos tanta pobreza, deixamos de nos queixar por não termos sapatos, quando reparamos que tantos não têm pés; em vez de desejarmos apenas consumir, apetece-nos consumar; ao atravessarmos todos estes países ficamos com mais vontade de passar pela vida e não deixar que seja a vida a passar por nós; ao transpormos todo este imenso deserto exterior faz apetecer ir para o deserto interior, para vermos melhor a desertificação que tantas vezes há dentro de nós.

Pregou o padre António Vieira que “notável criatura são os olhos”. E explicava: “Todos os sentidos do homem têm um só oficio; só os olhos tem dois. O ouvido ouve, o gosto gosta, o olfato cheira, o tacto apalpa, só os olhos têm  dois ofícios: ver e chorar.”

Os olhos são, na verdade, um mapa íntimo e as lágrimas são, na maior parte das vezes, a marca de uma grande riqueza. 

Julgo poder dizer que todos nós, os quatro leigos e os quatro padres que ousámos esta aventura do Porto a Bissau numa distância de 5.500 quilómetros, ouvimos sons únicos, sentimos cheiros indizíveis, provámos paladares diferentes e palpámos realidades que guardaremos sempre na grata memória do coração. Mas só os olhos viram o que neste diário não podemos expressar. E os meus até choraram a alegria por termos chegados à Guiné com saúde, ainda mais amigos uns dos outros e com a infinita alegria de deixarmos dois carros que, por certo, vão salvar muitas vidas. 

Jung disse: “Parece-me que faz a vontade de Deus apenas aquele que procura realizar a sua natureza humana e não aquele que foge diante deste facto.”

Não sei se esta “aventura/peregrinação” foi vontade de Deus ou teimosia nossa. O que importa é que a realizámos, cumprindo simplesmente a vida. 

Há quem possa e não queira; há quem queira e não possa; nós quisemos e pudemos vir do Porto a Bissau, entrelaçando o humano e o divino, aceitando o fácil e superando o difícil, ligando dois continentes e permitindo que se abraçassem as dioceses do Porto, Bissau e Bafatá.

Comovidos, bendizemos o Senhor!  

Também agradecemos a todos e a todas quantos se quiseram fazer nossas irmãs e nossos irmãos pela leitura deste diário e pelas orações feitas. Um muito obrigado de coração ajoelhado!

Prometemos fazer ainda eco destes dois dias e meio que passaremos na Guinécom o nosso bispo. Se ainda nos quiserem continuar ler!

 

Padre Almiro Mendes

(O 7MARGENS acompanha desde domingo, 3 de fevereiro, através de um diário de viagem, a expedição do padre Almiro Mendes e dos seus sete companheiros rumo à Guiné-Bissau para entregar um jipe, uma pick-up e outras ajudas a várias missões católicas e organizações não-governamentais)

[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]

Breves

Apelo ao Governo

Cristãos do Bangladesh querem feriado no Domingo de Páscoa e maior representação na vida pública

Um cordão humano com mais de 100 pessoas exigiu, durante toda a manhã de dia 31 de março, em frente ao Clube Nacional de Imprensa, em Daca, que o Domingo de Páscoa fosse reconhecido pelo Governo do Bangladesh como feriado nacional. A concentração organizada pela Associação Cristã de Bangladesh reivindicou também lugares na vida pública reservados à representação dos cristãos e de outras minorias.

Boas notícias

Com Leão XIV, líderes das grandes religiões assumem compromisso de união pela paz e dignidade humana

Apelo de Metz

Com Leão XIV, líderes das grandes religiões assumem compromisso de união pela paz e dignidade humana

Os representantes das principais tradições religiosas presentes em França comprometeram-se esta segunda-feira, na cidade de Metz, a aprofundar o diálogo entre si, a educar as novas gerações para o conhecimento mútuo e a permanecerem unidos na promoção da justiça e da paz.

É notícia 

Entre margens

Joana Lopes: 88 cravos à sua memória

[Entre Margens]

Joana Lopes: 88 cravos à sua memória

No próximo Domingo, 11 de Outubro, Joana Lopes, que nos deixou a 5 de Fevereiro deste ano, completaria 88 anos. A Joana teve um papel importante na resistência católica contra a ditadura, tendo levado a cabo lutas muito importantes em que denunciava a guerra colonial. Tinha também uma atividade cívica intensa, assumindo a defesa de lutas políticas essenciais que não são menos importantes no nosso tempo. [Texto de Filipe Moisés].

Guerras e mudanças de regime

[Entre Margens]

Guerras e mudanças de regime

Já muitos se terão esquecido, ao acompanhar a trágica e intrincada evolução da guerra entre Estados Unidos e Israel e o Irão, que, no seu início, essa guerra foi apresentada como tendo por objetivo primacial o de derrubar um regime ditatorial e opressor, que há pouco tempo havia reprimido de forma violenta e mortífera a contestação de largas canadas da população sedentas de uma liberdade que essa guerra lhes haveria de proporcionar. [Texto de Pedro Vaz Patto].

A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber

[Entre Margens]

A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber

Com efeito, o sentido do mistério absoluto que a vida é começa com a consciência da consciência. A própria filosofia, de resto, começa com a consciência da consciência. É que, com a consciência da consciência, o homem desperta, assombrado, para a realidade misteriosa e radical da sua própria existência, e da Existência enquanto tal, como um todo. [Texto de Rúben Azevedo].

Cultura e artes

Adelino Ascenso, o padre missionário que quase foi monge budista

Rostos e Rumos

Adelino Ascenso, o padre missionário que quase foi monge budista

Uma rara experiência durante a juventude levou-o a sítios inóspitos como Katmandu, no Nepal. Na América Latina acompanhou na selva amazónica um pistoleiro durante dez dias. O missionário Adelino Ascenso, que viveu 12 anos no Japão, é o último entrevistado do programa Rostos e Rumos, parceria da TSF e do 7MARGENS.

Sete Partidas

As cápsulas

[Sete Partidas]

As cápsulas novidade

No radio do carro tocava um CD da Rosalía e comecei a pensar no que já me disseram sobre o meu carro, pequeno e velho, dito em várias variações. Não levo a mal. É verdade, mas tem tudo o que preciso. Abrigo do sol, do frio, da chuva e da neve. Confiável. Riscado e muitas vezes sujo por fora, mas por dentro limpo e arrumado. Um pouco na ordem como valorizo as coisas na vida. Menos ostentação, mais conteúdo. [Texto de Inês Patrício, Berlim].

Visto e Ouvido

Igreja tem política de “tolerância zero” aos abusos sexuais, mas ainda está em “processo de purificação”

D. José Ornelas

Bispo de Setúbal

Agenda

[ai1ec view=”agenda”]

Ver todas as datas

Fale connosco

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Pai Telmo: homem de testemunho eloquente

Evocação

Pai Telmo: homem de testemunho eloquente novidade

A morte e a noite caíram sobre nós demasiado depressa com a notícia do falecimento de Pai Telmo. Os seus 100 anos foram um sopro veloz que não deixou ninguém indiferente e a sua dedicação à Igreja dos mais pobres uma brisa que suavizou muitas dores. [Texto de padre José Alfredo].

Identidade e missão do professor de EMRC na escola

Ensaio

Identidade e missão do professor de EMRC na escola novidade

A identidade e a missão do professor de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC) na escola pode ser vista sob múltiplos pontos de vista; porém, desejo fazê-lo a partir de três palavras ou pilares que considero substanciais. Estruturo esta reflexão a partir do “habitar-se”, do “habitar com” e do “habitar o ainda não”. [Texto de Adriano Batista, intervenção no Simpósio sobre a Educação e Escola em Portugal].

As cápsulas

[Sete Partidas]

As cápsulas novidade

No radio do carro tocava um CD da Rosalía e comecei a pensar no que já me disseram sobre o meu carro, pequeno e velho, dito em várias variações. Não levo a mal. É verdade, mas tem tudo o que preciso. Abrigo do sol, do frio, da chuva e da neve. Confiável. Riscado e muitas vezes sujo por fora, mas por dentro limpo e arrumado. Um pouco na ordem como valorizo as coisas na vida. Menos ostentação, mais conteúdo. [Texto de Inês Patrício, Berlim].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.