diário

| 5 Mar 2022

No dia 23 de Fevereiro, o primeiro reflexo foi de medo: no discurso imperialista de Putin tudo indica que a Ucrânia é um início. Depois será a vez dos Estados bálticos – um ataque à União Europeia.

E nós, que faremos?

Subitamente, viver em Berlim torna-se inquietante: se Putin decidir lançar uma bomba atómica, qual seria a cidade mais simbólica para o fazer?

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Tenho um casal de vizinhos que são ele russo e ela ucraniana. Disseram-mo – com um sorriso, como quem encolhe os ombros – em 2014, quando Putin invadiu a Crimeia.

Nem sei que lhes dizer agora.

Acredito que haja muitos casos desses – e que permitam criar espaços de “micro-paz”, à revelia das ordens de Putin.

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A Crimeia foi um teste: “deixa cá ver como é que eles reagem, e até onde me deixam ir…”

Déjà-vu: a estratégia e a argumentação na invasão da Crimeia e nesta segunda invasão da Ucrânia parecem fotocópias da estratégia de Hitler para se apoderar da Checoslováquia: “temos de proteger os nossos que lá vivem”.

Também então os países ocidentais assobiaram para o lado. Com o resultado que se viu.

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Sinto vergonha de uma piada que fiz há menos de duas semanas sobre a invasão da Ucrânia estar com um bocadinho de atraso. Éramos tão novos e inexperientes até ao dia 23 de Fevereiro de 2022…

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A primeira reacção dos políticos alemães foi de surpresa e incredulidade. “Putin mentiu”, dizem eles. Mentiu descaradamente.

A posteriori, é fácil dizer que era de prever. Mas, enquanto a invasão não tinha acontecido, enquanto ainda tentavam a via diplomática e a pressão dos embargos, enquanto eu fazia piadinhas sobre o atraso na invasão: qual é o momento certo para declarar liminarmente que o presidente de outro país é um pária com quem não vale a pena falar e em quem não se pode acreditar?

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Sinto embaraço pelo papel hesitante da Alemanha nos primeiros dias da guerra. Demora demasiado tempo a conseguir que todos concordem tomar determinada medida.

É um sinal de alerta: tenho de estar atenta para não deixar que um ditador russo me leve a desejar democracias “mais agilizadas” na Europa.

Mas agora estão avisados. Já sabem que estas coisas podem acontecer. Convinha que de futuro se pusessem de acordo com a devida antecedência no que diz respeito às medidas a tomar imediatamente após um atentado à ordem internacional como este. Se um país invade outro, a reacção – dura e sem margem para dúvidas – tem de ser imediata.

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Na Alemanha critica-se o desinvestimento nas forças armadas a que se assistiu nas últimas décadas. Como é possível fazer voz grossa ao Putin quando se tem as forças militares num estado lastimoso?

Mas também: em que deve um país investir os seus recursos que não são infinitos? A velha questão: o arado ou a espada? De onde virão os cem mil milhões que decidiram agora gastar para melhorar a capacidade militar alemã? Onde vão faltar? Nas escolas, nas pontes das auto-estradas, na reconversão energética?

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Uma amiga passa-me esta canção.

Penso na frase: “imagina que é guerra, e não comparece ninguém”.

Penso na canção “Imagine”.

Penso na palavra de ordem das manifestações nos anos oitenta, na crise dos euromísseis: “better red than dead”. Era uma alteração à anterior, “better dead than red” que os alemães diziam durante a segunda guerra mundial. Andamos em círculos?

Penso no discurso de “sangue, suor e lágrimas”: será que hoje teria a mesma adesão na nossa Europa confortável?
Que sacrifício seria eu capaz de fazer pelo meu país?

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Mulheres e crianças podem abandonar a Ucrânia. Os homens têm de ficar.

Não é o momento certo para isso, mas uma interrogação vem ter comigo: então e a igualdade?

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Os homens têm de ficar. Algo em mim se revolta contra esta imposição de arriscar a vida para defender o seu país. Heróis (quantos deles mártires?) à força.

David contra Golias – quantos deles saberão usar a funda?

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Admiro profundamente a coragem dos soldados ucranianos, e mais ainda a dos civis que decidem – em liberdade – defender o seu país da melhor maneira que podem. Devemos imenso a estes homens intrépidos. Quanto mais a Ucrânia resistir e humilhar o exército russo, menos provável é que a aventura imperialista de Putin se alargue a outros países – nomeadamente da União Europeia. Portanto, menos provável é (caso haja alguma lógica racional na cabeça do ditador) que a guerra alastre na minha direcção. Sem preparação nem armas adequadas, esses homens lutam para defender o seu país – e os nossos.

 

Admiro profundamente a coragem daqueles que na Rússia se manifestam contra a guerra. Sabem que vão ser presos e sujeitos a terríveis sofrimentos, mas o seu sentido de decência fala mais alto.

Uns e outros fazem-me sentir de certo modo cobarde e parasita. Eu, que em caso de guerra teria vontade de pôr os meus filhos do outro lado do planeta, beneficio da coragem desesperada desses que, como eu, só queriam viver em paz – mas permanecem e lutam.

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Um detalhe inteligente no discurso dos políticos alemães: esta é a guerra do Putin. Não é a Rússia, não são os russos.
Pobres russos: há quantos anos não têm eleições livres e limpas? Há quanto tempo estão dominados por ditadores que perseguem, prendem e matam todos aqueles que se lhes opõem?

* * * 

Em tantas cidades da Ucrânia: civis abrigados em estações de metro. Imagens de famílias no momento da separação. Habitações destruídas. De partir o coração.

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Há alemães a organizar transportes (alimentos, roupas, fraldas, artigos de higiene íntima) para a Ucrânia. No regresso, trazem os camiões cheios de pessoas. Uma empresa de Berlim alugou vans e foi à fronteira buscar ucranianos. Escreveram numa placa de cartão, em ucraniano: “Berlim – transporte gratuito”. Os comboios alemães também são gratuitos para os refugiados.

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No twitter leio que alguém pede conselho sobre quais são os melhores sites para se informar sobre o que está a acontecer na Ucrânia. Diz que não confia nos jornalistas.
Fico com vontade de informar que todos os ucranianos puseram barretes de alumínio, e que está a resultar lindamente.

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Dou comigo a ter vontade de dizer muitas coisas inenarráveis. Não digo. Mas dentro de mim vejo como é fina a camada de verniz que parece civilização.

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Hoje cruzei-me com um vizinho que também andava a passear o cão. Estava com um ar preocupadíssimo, perguntou-me que tal me está a correr a última semana de vida.
Ontem esteve na manifestação dos cem mil em Berlim. Estava junto à Coluna da Vitória, via a multidão para um lado até à Porta de Brandeburgo, e para o outro até à ponte da S-Bahn.
Ainda se sentia emocionado com o minuto de silêncio que fizeram em conjunto.

Depois acrescentou: quando era novo fiz objecção de consciência. Se fosse hoje, não fazia.
Isto já não é a cena dos Sudetas e da Checoslováquia. Isto é o 1 de Setembro de 1939.
E foi-se embora de cabeça baixa.

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Os meus filhos estão em Portugal. Já me passou pela cabeça dizer-lhe que se mantenham por lá.
Mas em vez de organizar os papéis para lhes facilitar as burocracias caso aconteça aqui uma desgraça,  continuo a trabalhar na tradução de um livro que tenho de entregar em meados de Março.

Não acredito que esse fim do mundo me vai acontecer a mim.

Mas acontece a cada um daqueles que está a morrer nesta guerra.

E também para os que estão a morrer na tragédia do Afeganistão. Sim, essa não deixou de existir, apenas saiu do nosso radar.

* * * 

Na televisão entrevistam uma ucraniana em Kyiv. Está exausta, e por isso decidiu dormir no corredor do seu apartamento, em vez de ir para o bunker. Diz que proibiram a venda de álcool, porque este é o momento de terem todos a cabeça fria.

Perguntam-lhe se tem medo.

– Claro! Mas temos o humor. Escrevemos uns aos outros a contar piadas para nos animarmos mutuamente. E depois, temos o país dos nossos filhos para defender. Isso é mais importante que o medo.

 

Helena Araújo vive em Berlim e é autora do blog Dois Dedos de Conversa, onde este texto foi inicialmente publicado.

 

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