Diários de quarentena (10): E nós aqui tão perto

| 27 Mar 20

Foto © Jorge Wemans

E nós aqui tão perto

Depois de jantar, quando não há ninguém nas ruas, saio e vou até ao jardim público. Procuro não tocar em nada. Caminho durante meia hora. Cruzo-me à distância com três ou quatro pessoas. Cumprimentos com acenos de cabeça, cada qual numa borda do passeio. Um rente às casas, outro na borda da rua. Passamos.

São 21h30. Na varanda do 3ºD, dois prédios acima do meu, três jovens adultos cantam modas alentejanas com a força que lhes é própria. Desde há três noites tem sido assim. Por volta desta hora, saem à varanda e oferecem aos vizinhos um concerto singelo, encantador, revigorante. Deus os mantenha sem dores de garganta que bem nos faz ouvi-los. Passo por baixo deles e aplaudo. Retribuem sem parar de cantar com os polegares erguidos. Mímicas apropriadas a estes tempos sem voz…

A minha mulher enfeitou as nossas janelas com pinturas e cartazes de incentivo a quem passa. Do outro lado da rua, uns vizinhos colocaram um pano pintado com esta frase: “Estamos em casa. Vai tudo correr bem.” Na outra noite saímos às janelas para bater palmas…

Agora que quase não vamos à rua esta parece mais nossa do que nunca. Como se estivesse à espera que através dela disséssemos, finalmente, qualquer coisa uns aos outros…

Foto © Jorge Wemans

Jorge Wemans é jornalista e integra a equipa editorial do 7MARGENS

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