Diários de quarentena (12): Entre a solidão e o medo só o amor nos liberta

| 28 Mar 20

Os dias parecem-nos intermináveis e as noites demasiado longas para um descanso que se torna desassossego. As rotinas sucedem-se mais iguais do que nunca por se confinarem a um espaço que, sendo o nosso, parece querer sufocar-nos. Terrível experiência esta, nunca antes vivida, em que, sendo livres, nos sentimos aprisionados no lugar que ainda há dias era de acolhimento.

As estratégias de ocupação dos dias tornam-se ilusoriamente inúteis. O tempo parece um contínuo, porque nos falta o imprevisto do quotidiano, a sua novidade, o que faz com que um dia, apesar das rotinas, não seja exatamente igual ao anterior. Faltam-nos as pessoas, as anónimas, a quem nem sequer desejamos um bom-dia, aquelas de quem recebemos um sorriso distraído e a quem respondemos com um sorriso de circunstância, aquelas que nos dão a certeza de que não estamos sós na correria e na solidão que nos habitam na procura de uma felicidade longínqua, porque fora de nós.

Não se trata apenas de preencher o tempo, mas sobretudo preencher o vazio que sentimos.  Esse vazio que era parte de nós, mas que só agora o descobrimos. Por isso, a solidão destes dias é diferente, ela não nos habita, invade-nos, ocupa-nos, apoderou-se de nós como quem se apodera do alheio.

É uma solidão que se soma à solidão de quem já estava só. Nesta nova solidão, damo-nos conta de que a vida, não a nossa, mas a que nos foi imposta e nós aceitámos, roubou-nos o saber apenas estar, o fruir da presença do outro, sem ruído, sem correrias, mas apenas estar. Por isso, estes tempos são também de solidão, de vazio. Uma solidão interior, só nossa, não dita, porque se o fosse ela exporia muitas das nossas fragilidades, das nossas inseguranças, dos nossos medos.

Ah! O medo que todos sentimos (eu sinto), porque somos humanamente frágeis. Mas pior do que o medo que, nestes dias, nos acompanha é o medo que nos incutem e, esse sim, corrói e acaba por nos destruir. Os heróis sentiram medo, os santos sentiram medo, o próprio Cristo sentiu medo, mas todos eles, à sua maneira, transformaram a irracionalidade do medo em coragem, doação ou amor ao outro.

O medo, em vez de nos tolher, pode ser libertador desde que saibamos discernir como transformá-lo em construção, em algo que nos aproxime do outro, que amadureça a nossa consciência da relação com o outro. Frédéric Lenoir disse, em 2015, numa entrevista ao Le Monde des Religions: “Acredito que estamos na terra para passar do medo ao amor e da ignorância ao conhecimento, para crescermos em consciência”. Recordo ainda a resposta do Papa Francisco a uma pergunta do jornalista do La Repubblica sobre a esperança dos não-crentes nestes tempos de pandemia: “Alguns dirão: ‘Não posso rezar porque não acredito.’ Mas, ao mesmo tempo, podem acreditar no amor dos que estão à sua volta e aí encontrar a esperança.”

Transformar o medo significa confiar, porque é na confiança que reside a esperança do reencontro com o amor que ao outro nos une. E, porventura, a consciência de que não estamos sós.

José Centeio é gestor de organizações sociais e membro do Cesis (Centro de Estudos para a Intervenção Social) e da equipa editorial do 7MARGENS

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