Diários de quarentena (15): Uma pandemia, um desafio à solidariedade

| 1 Abr 20

(…) Parecemos regressados a outros tempos, os das pestes medievais ou das epidemias de há cem anos. Este facto faz-nos refletir na ilusão a que nos conduz o excesso de confiança nas capacidades humanas e na ciência. O ser humano continua a ser vulnerável diante da doença e da morte e deve reconhecer humildemente essa sua vulnerabilidade.

Mas outras importantes lições se podem colher deste surpreendente fenómeno.

A necessidade de reduzir a mobilidade para prevenir e evitar a difusão do vírus faz-nos descobrir como muitas das nossas deslocações (desde logo, as aéreas) não são verdadeiramente indispensáveis, ou mesmo necessárias. Distinguir o necessário do supérfluo é algo de salutar, não só para este efeito sanitário, mas para outros, como o da salvaguarda do ambiente.

A solidariedade é, na visão da doutrina social da Igreja, “a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum, ou seja, pelo bem de todos e de cada um, porque todos somos
verdadeiramente responsáveis por todos”.

Uma pandemia faz correr o risco de ver no outro uma ameaça, alguém que nos pode contaminar. Há o risco de que prevaleça a mentalidade do “salve-se quem puder”, ou “cada um por si”. Também há o perigo do reforço da xenofobia, quando se encara o estrangeiro como potencial transmissor.

(…) Só unidos poderemos superar o desafio. Dizem os especialistas (e revela-o a experiência dos países mais gravemente atingidos) que o /coronavírus /não causa na maioria das
pessoas infetadas, individualmente consideradas, danos acentuados, mas o seu maior perigo situa-se numa perspetiva comunitária, de saúde pública: pela sua rápida difusão, por atingir grupos particularmente vulneráveis e por exigir dos serviços de saúde recursos que poderão superar as suas disponibilidades (como se está a verificar em Itália)

Impõe-se, por isso, superar uma mentalidade individualista. Não há que pensar apenas nos perigos que corro, que serão maiores ou menores, mas nos riscos que correm outros, as pessoas mais vulneráveis. Não há que pensar tanto na contaminação de que eu possa ser vítima, mas na
contaminação que eu, sem o saber, possa provocar noutros.

Há que dar todo o apoio aos grupos mais vulneráveis, como os idosos, evitando de todos os modos que eles tenham que se expor a riscos
(fazendo compras por eles, por exemplo). Que um dos efeitos desta pandemia seja o reforço da consciência coletiva de que somos todos diferentes, que muitos são mais pobres e necessitados do amor do próximo, ou seja, carentes de cada um de nós.

Excertos da nota da Comissão Nacional Justiça e Paz a propósito da pandemia do coronavírus-19

 

No afastamento podem estar a beleza e a solidariedade. Rio. Barcos.

No afastamento podem estar a beleza e a solidariedade. Guerreiros do Rio, Alcoutim (2009). Foto © António José Paulino

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